quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eva Longoria rebate críticas sobre estereótipo em série com domésticas latinas

Na festa de lançamento da série "Devious Maids", em Los Angeles, na semana passada, o centro das atenções não foram as cinco atrizes que cozinham, limpam e conspiram enquanto trabalham para famílias brancas ricas em Beverly Hills.
Os holofotes se concentravam em um dos integrantes da equipe de produtores-executivos, Eva Longoria, mais conhecida como Gabrielle Solis, uma das donas de casa da série "Desperate Housewives".

Ela circulava pelo salão como um político, apresentando pessoas com gestos expansivos, sorrisos, abraços e beijos e conduzindo conversas discretas em meio aos grupos.
A maior prioridade para ela era garantir que as "meninas" -- como ela chama as cinco atrizes da série-- se saíssem bem no tapete vermelho. Nove anos atrás, Longoria era uma atriz jovem e relativamente desconhecida no elenco de "Desperate Housewives".
"As pessoas falam sobre empregadas domésticas como estereótipos, mas as personagens da série estão longe disso", disse Longoria, 38. Ela disse que o futuro da trama revelará pessoas mais desenvolvidas.Mas em seguida ela mudou o roteiro, posicionando-se como uma das líderes de Hollywood quanto a assuntos hispânicos e ganhando respeito como ativista política.
Longoria estava ansiosa por rebater as reações negativas ao programa.
"Acho que é importante para nós realizar um diálogo de identidade em nossa cultura, e, ainda que o programa possa não refletir sua experiência pessoal, reflete as experiências de muita gente", diz.
Os latinos, afirma, "têm representação superior à média entre os empregados domésticos; isso é um fato, não uma opinião."
A audiência na estreia de "Devious Maids", às 22h do domingo, foi modesta. Enfrentando o final de temporada de "Mad Men", no canal AMC, a série atraiu 2 milhões de telespectadores, pouco abaixo da série que a precedeu na grade do Lifetime, "Drop Dead Diva", com 2,2 milhões.

ASCENSÃO POLÍTICA

A ascensão de Longoria como força na mídia acompanha sua ascensão política. Ela fez campanha pelo presidente Obama em 2012, lutando pelo essencial voto hispânico, e foi uma das fundadoras do Futuro Fund, que levantou US$ 32 milhões para a campanha presidencial.
Recentemente, discursou em um evento da Clinton Global Initiative em Chicago, e dias mais tarde viajou à Colômbia para participar de um documentário do Half the Sky Movement, uma organização internacional de defesa da mulher.
Depois, participou de uma campanha de arrecadação de fundos para a organização política Battleground Texas, que luta para "recolocar os democratas no mapa" no Estado, nas palavras de sua mensagem postada na home page do grupo.
E, em maio, conquistou seu mestrado em estudos mexicanos na Universidade Estadual da Califórnia em Northridge.

"Eu fico impressionado com sua transformação", disse Marc Cherry, produtor-executivo de "Devious Maids" e de "Desperate Housewives". Cherry escalou Longoria para sua série anterior, em 2004.
"Então, ela era só uma atriz com um ou dois papéis no horário nobre e que tinha feito novelas diurnas."
Antes da estreia, as críticas a "Devious Maids" incluíram uma carta aberta de Michelle Herrera Mulligan, editora-chefe da "Cosmopolitan for Latinas", postada no "Huffington Post".
Mulligan definiu a série como "oportunidade desperdiçada". (Longoria estava na capa da edição de primavera da revista, alguns meses antes da publicação da carta de Mulligan.)
Alisa Lynn Valdes, ex-jornalista e autora do romance "The Dirty Girls Social Club", escreveu uma crítica negativa da série para o site NBCLatino.com.
"Não há nada de errado em ser empregada doméstica ou mesmo em ser uma doméstica latina", ela escreveu, "mas há algo de muito errado na indústria norte-americana do entretenimento por dizer às latinas que isso é o que elas são e tudo que poderão ser".
Mas a maioria das domésticas não dorme com o patrão. O primeiro episódio da série começa com uma cena forte, ainda que meio cafona, de luta de classes, na qual uma empregadora ameaça a empregada de deportação por ter dormido com seu marido.
"São cinco mulheres latinas fortes, e só aí já temos três obstáculos que tivemos de superar para colocar a série no ar em Hollywood", disse Longoria, que acrescentou que entre os cinco redatores da série há duas latinas.
"Você nunca tem o papel principal, e, quando tem, em geral seu personagem presta serviços ao personagem principal, um homem branco."

ORIGEM TRABALHADORA

Longoria cresceu bem longe de Beverly Hills, em Corpus Christi, Texas, filha de pais de ascendência mexicana. Sua mãe era professora de alunos de necessidades especiais, e seu pai, engenheiro de ferramentas no Exército.
"Eu banquei a faculdade com crédito educativo", disse Longoria na convenção nacional democrata de 2012, em discurso no qual enfatizava suas origens na classe trabalhadora.
"Trabalhei em uma oficina mecânica, trocando óleo, servi hambúrgueres no Wendy's, fui professora de aeróbica e trabalhei no campus para pagar meus empréstimos".
Antes de 'Desperate Housewives", Longoria interpretou Isabella Braña, uma mulher mentalmente doente, na novela diurna "The Young and the Restless".
Como jovem atriz disputando papéis no cinema e TV, Longoria disse que os poucos papéis que havia para latinas eram estereótipos.
"Todas nós só queríamos trabalhar",a acrescentou, e "ficávamos torcendo para conquistar o papel da garçonete número 4, com seu sotaque horrível."

Cherry diz que chamou Longoria para um teste quando estava considerando adaptar para a TV dos Estados Unidos uma novela mexicana chamada "Ellas Son... la Alegría del Hogar".
"Eu sei que as pessoas estranham quando um sujeito careca e de meia idade decide escrever uma série chamada 'Devious Maids', eu entendo", diz Cherry, acrescentando que Longoria aprovou uma série com elenco todo latino e aprova todos roteiros e cenas de cada episódio.

PORTA-VOZ LATINA

Longoria usou sua influência política e laços organizacionais para promover a série, que conta com o endosso de importantes organizações latinas como o Mexican American Legal Defense and Education Fund, o National Council of La Raza e a the National Hispanic Media Coalition, organização que promove a diversidade na mídia.
"Ela terminou por se transformar em porta-voz da comunidade latina, por ter se envolvido em questões políticas, conhecido o presidente, ido à Casa Branca", diz Cherry.
"Fiquei muito impressionado com a decisão dela de levar uma vida mais significativa que a de uma atriz típica de Hollywood", afirma o produtor.
Longoria tem duas séries em desenvolvimento, uma sobre um escritório de advocacia cujas sócias são uma sogra e nora latinas e outra sobre dois políticos hispânicos.
"Estamos tocando a máquina em todas as suas partes", ela disse. "E o ponto é criar oportunidades. Quem mais abrirá as portas, quem mais escreverá essas histórias?"
Contar essas histórias também pode ajudar Longoria a aproveitar seu prestígio de mídia para causas maiores. Henry Munoz, diretor de finanças do Comitê Nacional Democrata, amigo da atriz e sócio do Futuro Fund, diz acreditar que ela poderia ser uma "candidata formidável" a um cargo público.
Mas, a despeito de suas atividades políticas, Longoria diz não estar interessada. "Não quero ser indicada e nem eleita", disse. "Se você acha que Hollywood é traiçoeira, imagine Washington."

Fonte  : F.São Paulo

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