quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Modificação de termos e conceitos históricos do movimento negro: uma nova onda ou um tsunami que nos afunda mais??

 Por Mônica Aguiar 

A questão da modificação de termos e conceitos históricos no movimento negro é muito complexa. Tais práticas podem surgir de várias necessidades, incluindo a adaptação à linguagem contemporânea, a inclusão de perspectivas diversas, ou a tentativa de ampliar o alcance e a compreensão das lutas por igualdade e justiça social. 

No entanto, transformações também podem gerar debates sobre a preservação da história e a integridade dos conceitos originais.

A linguagem é uma ferramenta poderosa na construção da identidade e na luta por direitos. Termos e conceitos históricos do movimento negro muitas vezes carregam consigo o peso de décadas de luta e resistência. Modificá-los é uma maneira de torná-los mais acessíveis ou inclusivos, mas também pode levantar preocupações sobre a perda de seu significado original, mascarar e simplificar a realidade social e econômica da população negra.

A representação das mulheres negras na mídia, em novas literaturas e artigos, tem sido frequentemente limitada a narrativas de violência, miséria e sofrimento. 

Este foco estreito não só perpetua estereótipos prejudiciais, mas também ignora as ricas experiências e contribuições que as mulheres negras trazem para a sociedade. 

Focar apenas em narrativas de violência, miséria e sofrimento cria um ciclo de estereótipos que reduzem a complexidade da vida das mulheres negras a corpos descartáveis,subalternos ou apenas resistentes.

E a criação e disseminação de palavras sem base científica, com significados distorcidos ou inventados, pode atuar como uma ferramenta linguística para tentar desqualificar, diluir ou modificar conceitos históricos e reparatórios construídos pelo Movimento Negro.

Afinal, a linguagem não apenas reflete a realidade, mas também a molda, influenciando percepções, comportamentos e relações sócio-raciais.

Nos últimos anos, o vocabulário em torno das questões sociais e raciais tem se expandido e evoluído significativamente. Palavras como "estrutural" e “interseccionalidade” ganharam destaque em debates acadêmicos e sociais, especialmente ao abordar desigualdades raciais no Brasil. 

É importante usar essas palavras com precisão e clareza, garantindo que elas realmente traduzam todas as questões das desigualdades raciais em vez de criar uma maquiagem a partir das experiências individuais. Principalmente quando precedem de uma classe que não sofre e nem muito menos passa ou passou por 1% do sofrimento que a mais ampla maioria do povo negro brasileiro já passou e passa. 

A política brasileira, como em muitos outros países, é frequentemente influenciada por conceitos e termos importados de outras nações. 

A utilização de conceitos políticos estrangeiros traduzidos ou importados para o contexto brasileiro é um fenômeno que pode, de fato, gerar percepções equivocadas sobre os problemas políticos, sociais, raciais, de gênero do país, além de atuar como mecanismo de blindagem para a responsabilidade governamental.

Nos últimos anos, observo um aumento no uso de palavras estrangeiras por jovens ativistas. Muitas vezes, essas palavras são traduzidas e utilizadas fora de seu contexto original, levando a mal-entendidos e à perda de significado. Este fenômeno levanta questões sobre a eficácia do ativismo contemporâneo, especialmente quando se trata de agregar valor histórico e científico à realidade brasileira.

A globalização facilitou o acesso a informações de todo o mundo, permitindo que ideias e palavras cruzem fronteiras rapidamente. Os jovens, especialmente, são influenciados por movimentos internacionais e pela linguagem usada em plataformas de mídia social.

As novas escolhas vocabulares frequentemente mascaram, distorcem ou simplificam drasticamente fenômenos sociológicos complexos, alterando o objeto de análise.

Palavras, com conceitos vindo de fora do Brasil. Isto é muito perigoso e não passa de moda linguística e vaidade dos que buscam lá fora o que temos em abundância no Brasil: estudos, livros, teorias e práticas reais.

O uso descontextualizado de palavras estrangeiras pode resultar em uma comunicação ineficaz e em uma compreensão limitada das questões que os ativistas pretendem abordar. Sem o devido entendimento histórico e cultural, esses termos podem perder seu impacto e relevância no contexto brasileiro.

Linguagens fortes carregadas de adjetivos, substantivos carregados de valor (fetichismo de termos) agem para moldar a opinião pública e invisibilizar os problemas raciais profundos.

O racismo é um fenômeno social que envolve discriminações e preconceitos. Ele se manifesta de várias formas, desde atitudes e comportamentos individuais até políticas e sistemas institucionais que perpetuam desigualdades raciais.


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