terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Cresce o número de desalentados no Brasil . Mulheres são maioria


No ano passado, 4,7 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego no país.

Pessoas que desistiram de procurar emprego – já estão em todos os estratos da sociedade brasileira. Mas uma análise detalhada dos números mostra que as mulheres têm sido mais afetadas pela crise do mercado de trabalho.

Esse perfil foi projetado pela consultoria Plano CDE, com base nos últimos dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua. No ano passado, o número de  pessoas que desistiu de procurar emprego chegou a 4,7 milhões – o equivalente à população da Costa Rica.

São várias as causas que podem levar um trabalhador ou trabalhadora para o quadro de desesperança.  A falta de oportunidades e o baixo estímulo para disputa de uma vaga no mercado em períodos de crise. Outros fatores ligados diretamente às dificuldades no desempenho da atividade econômica: muitas mulheres deixam de buscar trabalho quando não há vagas em creches ou escolas para os filhos e moram longe .

Desta camada da sociedade de desalentados do país, 54,31% são do sexo feminino, enquanto os homens respondem por 45,69%. "Na maioria dos casos, a mulher acaba ficando presa às atividades domésticas", diz o diretor-executivo da consultoria Plano CDE, Maurício Prado.

No recorte por anos de estudo, este desalento está concentrado entre aqueles os trabalhadores com ensino fundamental incompleto. Esse grupo de brasileiros é responsável por 40,6% do total no país. As menores taxas são observadas na população que, pelo menos, chegou ao ensino superior. "O desalento alto é problemático em vários sentidos", afirma o diretor da FGV Social, Marcelo Neri, responsável pelo estudo. "A pobreza, por exemplo, é duplamente afetada pelo quadro desalento", diz.

Um estudo conduzido pelo Banco Mundial no ano passado com jovens pernambucanos identificou três razões que ajudam a explicar porque o desalento é tão alto no Nordeste. Pelo levantamento, as pessoas deixam de procurar emprego por falta de aspiração, inabilidade de transformar a vontade de voltar ao mercado de trabalho em ações práticas, e dificuldade para lidar com barreiras externas, como falta de transporte público seguro para se locomover.

"O desalento é um capital humano que não está sendo utilizado. É uma experiência e escolaridade que podem ser empregados no mercado, mas ficam de foram, sendo passiveis de depreciação", afirma o professor do Insper e especialista em mercado de trabalho, Sergio Firpo.

Os dados do estudo do Ipea se referem ao segundo semestre de 2018 indicaram que a quantidade de desalentados no País era de 4,8 milhões de pessoas , 60% se encontravam na região nordeste,   21,4% no sudeste; 10,9% na região norte, 4,4% na região centro-oeste e 4,3% na região sul.
Esses 4,8 milhões de pessoas que já desistiram de procurar emprego representavam em 2018 4,3% da População em Idade Ativa (PIA), segundo o IBGE, ultrapassando  o dobro do registrado de 2012 a 2015.



Fonte G1/G1 Economia/Ipea/IBGE/Pnad
Foto: G1

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Movimentos Sociais protestam contra morte de jovem negro em supermercado


Manifestantes fazem protesto contra a morte do jovem Pedro
Gonzaga na entrada do supermercado Extra,
na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo —
Foto: Cris Faga/Estadão Conteúdo
Jovem morreu na ultima quinta depois que um segurança, teria lhe aplicado um golpe mata-leão, após uma confusão na loja.

A principal palavra de ordem: “Vidas Negras Importam, sim. Chega de racismo. Foi com estas e tantas outras frases de que manifestantes, convocados por movimentos sociais, realizaram protesto, na tarde deste domingo (17) em frente ao supermercado Extra na Barra da Tijuca,  onde jovem foi brutalmente assassinado por um segurança na quinta-feira (15).

 Também houve atos em outras cidades, como São Paulo e Fortaleza (CE).

Centenas de pessoas representando diversos setores  dos  movimentos sociais , parlamentares e famosos  estiveram presentes no protesto, realizado no estacionamento do supermercado. 
Cartazes com dizeres como “Vidas negras importam” e “Minha cor não é um crime” foram colados na grade de proteção do local.

Ator Aílton Graça
O ator Aílton Graça também esteve no protesto na Barra da Tijuca. Ele falou sobre a importância de protestar e pediu um "basta" ao genocídio e extermínio da população negra e de ações racistas. Falou da importância do ato que aconteceu em vários estados.
O ato também contou com a presença da ex-governadora Benedita da Silva (PT) .



Manifestação em outros estados
O protesto também aconteceu em outros estados dos país como São Paulo e Pernambuco. O protesto no Extra Benfica, na Zona Oeste do Recife, teve início por volta das 14h do sábado (16), com cerca de 20 participantes.

Os organizadores percorreram algumas áreas do estabelecimento e fizeram performances gritando frases como “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Alguns dos clientes que estavam no estabelecimento acompanharam a ação.

Na capital paulista, manifestantes fizeram uma manifestação no Extra da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na altura da Alameda Ribeirão Preto, região central de São Paulo. O ato começou por volta das 14h30 deste domingo (17).

O grupo levou faixas com as frases “não consigo respirar” e “vidas negras importam”. 
Em Fortaleza, um grupo realizou um protesto em frente ao hipermercado Extra do Bairro de Fátima. Durante o ato, os manifestantes entraram no estabelecimento com cartazes e gritaram palavras contra a morte de Pedro Henrique.

 (Agência Brasil/ Fernando Frazão)
Os participantes também se reuniram no estacionamento do Extra e discursaram contra o ocorrido. A manifestação foi organizada por movimentos nas redes sociais.

O corpo de Pedro Henrique Gonzaga, de 25 anos, foi enterrado neste sábado (16) no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência, na Zona Oeste do Rio. Muito abalada, a mãe dele não foi ao enterro e familiares que estiveram na cerimônia preferiram não conversar com a imprensa. Parentes e pessoas próximas contaram que a vítima tinha um filho pequeno, de apenas oito meses.

Na noite de quinta-feira, imagens da ação do segurança, filmadas por câmeras de celulares, viralizaram nas redes sociais. Nos registros, é possível ver que testemunhas o alertaram para os riscos para Gonzaga, que parecia estar desmaiado sob o corpo do no chão da loja. O segurança, porém, repudiou as intervenções e mandou até que as pessoas em volta calassem a boca.
Gonzaga, que segundo amigos sonhava em ser DJ e tinha um filho, estava com a mãe no supermercado.

Em nota, a rede de supermercados Extra informou "que não aceita qualquer ato de violência, excessos e repudia toda forma de racismo".
Também no texto diz que "não vai se eximir das responsabilidades diante ocorrido" e que tem "interesse em esclarecer a situação o mais rápido possível". "Estamos colaborando com as autoridades fornecendo todas as informações disponíveis", informa a nota.
O Extra também afirmou que "os seguranças envolvidos na morte do jovem foram imediatamente e definitivamente afastados" e "a companhia instaurou uma sindicância interna e acompanha junto à empresa de segurança e aos órgãos competentes o andamento das investigações".

O segurança foi preso em flagrante, mas deixou a Delegacia de Homicídios da capital na madrugada da sexta (15) após pagar fiança de R$ 10 mil, segundo a polícia.

Edição e trechos: Mônica Aguiar
Fontes e trechos texto: Ag. Estado/G1/

Estreia de Maju é assinalada por morte de jovem negro


Por Mônica Aguiar
Maria Júlia Coutinho
No sábado (16), Maria Júlia Coutinho, a Maju, estreou no posto de âncora do Jornal Nacional. Na web, espectadores e colegas elogiaram o desempenho da jornalista. 

Maju Coutinho com quase 20 anos de jornalismo, é  primeira mulher negra a ocupar o posto de âncora do Jornal Nacional em 50 anos de exibição.

Duas jornalistas e apresentadoras negras tem também papel de destaque:- Glória Maria que fez parte do Fantástico, hoje no Globo Reporte e Zileide Silva no Jornal Hoje, aos sábados, mas nunca, uma mulher negra, havia chegado a assumir a mesa do Jornal Nacional .

Em entrevista ao F5, a jornalista Maria Júlia Coutinho, afirma que é representativo e simbólico sua estreia no jornal nacional e torce para que este quadro mude. “Foi uma decisão da Direção da emissora, que deixou claro que minha trajetória ate aqui, me permitiu chegar até este lugar” .

É um simbolismo muito grande, estou muito feliz, mas espero que esse, simbolismo gere uma pratica, e que elimine qualquer  manchete. Diz Maju em entrevista no Gshow.

Na sua estreia, Maju foi escalada para ler a resposta do supermercado Extra sobre a morte de Pedro Gonzaga,  rapaz negro,  portador de transtornos mentais,  brutalmente assassinado, por um segurança do estacionamento do Extra,  no Rio. O homicídio  aconteceu na tarde de quinta (14) .  

Assistir uma Mulher Negra lendo uma nota sobre um episódio que causa percepção de racismo tem um peso muito mais contundente para o público em geral- e, com certeza, muito mais constrangedor para quem faz o papel de opressor, no caso, o segurança, bem como dos defensores de sua ação.  

O caso do homicídio gerou  indignação nas redes sociais, e internautas apontam que Gonzaga, que era negro, também foi vítima de racismo. "A carne mais barata do mercado é a carne negra", escreveram em repúdio ao ocorrido, utilizando uma música de Elza Soares. 
O jovem foi  asfixiado até a morte, levando  um golpe de “mata-leão” , por um dos vigias do supermercado .

Nas redes sociais, os internautas e as celebridades fizeram uma campanha a favor das vidas negras, com varias hashtag # Black lives Matter ( Vidas Negras Importam )  é uma das mais comentadas no Twitter.

Maju também ancorou a manhã de cobertura ao vivo do dia seguinte à tragédia de Brumadinho (MG).

Joyce Ribeiro
Jornalistas negras celebraram a conquista da colega e mencionou a luta de outras mulheres

Joyce Ribeiro, âncora do Jornal da Cultura, parabenizou a colega pela conquista. Única negra na ocupando o posto de principal âncora, a jornalista celebrou a conquista de Maju e relembrou a luta de outras mulheres. 
"Lindo momento seu talento nos proporcionou, Maju. Fiquei muito feliz. Sigamos valorizando e multiplicando as conquistas da luta de tantas guerreiras que vieram antes de nós. Parabéns"

Carreira
Maju estreou na televisão em 2005, na TV Cultura, onde integrou o time do Jornal da Cultura. Em 2007, a jornalista foi para a Globo e se tornou repórter. Alguns anos depois, foi convidada para cuidar do quadro de previsão do tempo dos jornais da emissora.

Representatividade
Ainda hoje, é muito pequena a representatividade de mulheres negras que atuam como profissionais de imprensa, principalmente na Televisão Brasileira. A composição étnica no jornalismo, não expressa a realidade.

Apenas 23% dos jornalistas são negros e negras, e não existe um número  exato de quantas negras atuam como profissionais de imprensa (Fonte: Federação Nacional dos Jornalistas/Universidade Federal de Santa Catarina, 2013). 


Como Maju podemos citar outras jornalistas negras que superaram as barreiras existentes:  Aline Prado, Valeria Almeida, Joyce Ribeiro, Luciana Barreto, Zileide Silva, Ida B. Weells, Dulcineia Novaes, Gloria Maria, Jarid Arraes, Ethel Payne,Adriana  Couto, Ezilda Felix, Fernanda Carvalho, Silvia Nascimento, Oprah Gail Winfrey, Luciana Camargo, Graça Araujo( falecida em 2018) .

A jornalista e apresentadora  Maria Júlia Coutinho, em janeiro,   prestou uma homenagem a colegas de profissão negras vestindo camiseta com nomes: Gloria, Zileide, Flávia, Joyce, Luciana e Dulcineia.

F5/ Extra Globo/Contigo/telepadi

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Mulheres são grandes vitoriosas no Grammy


Potentes vozes femininas tomaram conta do palco na entrega dos prêmios Grammy neste domingo (10): Lady Gaga, Dua Lipa, Kacey Musgraves, Brandi Carlile e Cardi B foram premiadas por sua música, de diferentes gêneros, mas com uma missão em comum: abrir o caminho para que outras mulheres continuem brilhando na indústria.

Mas também foi uma festa que celebrou o rap, um gênero até então significativamente marginalizado.

"This is America", canção de Childish Gambino, repleta de críticas à violência armada e ao racismo nos Estados Unidos venceu como melhor canção e gravação do ano, a primeira vez que uma música deste gênero ganha nessas categorias.

O álbum do ano foi para a cantora country Kacey Musgraves por "Golden Hour".

Das quatro categorias principais, duas foram para Gambino, alter ego do ator Danny Glover, que não compareceu à cerimônia, e as outras duas para mulheres.

"As mulheres têm uma perspectiva única para a arte, a música, e é excelente ver que tivemos a oportunidade de sermos incluídas", disse Musgraves a jornalistas após a cerimônia. "É preciso que as mulheres tenham coragem de fazer uma arte que talvez não agrade a todos, mas que também leve outras pessoas a explorar e nos dar uma oportunidade".

Gambino encerrou a noite com quatro prêmios, assim como Musgraves. Lady Gaga e Brandi Carlile ficaram com três cada uma.

Mas para além dos prêmios, o desfile de vozes de mulheres foi para todas uma reivindicação.
"Deixemos que a vagina faça um monólogo", lançou Janelle Monaé em sua impressionante apresentação, tão boa quanto à de H.E.R. e Gaga, ou da anfitriã Alicia Keys, vencedora de 15 Grammys e a primeira mulher a apresentar este evento em 14 anos... E que obviamente não se limitou a apresentar os prêmios.

Tocando de uma só vez dois pianos, apresentou um medley de "Canções que eu gostaria de ter escrito" no qual apareceram temas como "Unforgettable", de Nat King Cole, e "Killing Me Softly", de The Fugees.

Também foi emocionante a homenagem que Katy Perry, Musgraves, Miley Cyrus e Marren Morris fizeram a Dolly Parton, e que Andra Day, Fantasia e Yolanda Adams fizeram à lenda falecida Aretha Franklin.

Jennifer López cantou para Motown, apesar de ter recebido críticas anteriormente por não ser uma artista negra, e Diana Ross celebrou seus 75 anos cantando com os olhos marejados, mas a voz intacta.

"Me deram os melhores anos da minha vida", cantou emocionada em uma apresentação que terminou com um efusivo: "Feliz aniversário para mim!".

Outra mulher a ser muito aplaudida foi a ex-primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama, que falou no começo da cerimônia, imediatamente depois da apresentação de "Havana", com a qual Camila Cabello abriu o show com Ricky Martin, J Balvin e o trompetista de Arturo Sandoval.

"A música me ajudou a contar a minha história", disse a ex-primeira-dama. "A música nos mostra que tudo importa".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Livro mostra como viviam os “escravos da nação”

Pesquisadora analisa em livro o tratamento dado aos escravos públicos na Colônia e no Império

Por  Jornal da USP


“Da visão de Gilberto Freyre sobre a sociedade escravista assentada na grande lavoura, passou-se à constatação da presença de escravos nas pequenas propriedades voltadas para a subsistência, nas áreas de pecuária, nas áreas urbanas e nos ambientes fabris”, escreve a pesquisadora Ilana Peliciari Rocha na introdução de seu novo livro, Escravos da Nação – O público e o privado na escravidão brasileira, 1760-1876

Publicação da Editora da USP (Edusp), a obra também constata que a escravidão não foi igual nas diversas regiões do Brasil e que, apesar de se assentar em princípios fundamentais, diferenciou-se localmente.

 É o caso dos escravos que pertenciam ao Estado, que se distinguem como escravos públicos e que durante o Brasil colonial eram chamados de “escravos do Real Fisco” ou “escravos do Fisco” e no Império ficaram conhecidos como “escravos nacionais” ou “escravos da nação”.

Os escravos foram incorporados ao patrimônio imperial depois do confisco dos bens dos jesuítas pela Coroa portuguesa, em 1760, e continuaram presentes por mais de um século, até a implantação gradual da Lei do Ventre Livre, de 1871, que teve sua regulamentação arrastada por mais cinco anos, impondo-lhes a condição escrava sob a supervisão do governo. 

“Apesar desse longo período, desconhecem-se as orientações públicas sobre a administração patrimonial dos escravos da nação”, escreve a autora. 

O livro pretende verificar até que ponto ocorreu uma política oficial de posse de escravos estatais e quais eram os mecanismos de tratamento para esses escravos.

Nesse trabalho, foram identificados os redutos de escravaria pública. Os escravos trabalhavam em diversos estabelecimentos públicos, como fábricas e fazendas nacionais, e estavam também na Corte, no Arsenal da Marinha, na Quinta da Boa Vista, nas colônias militares das fronteiras e nas obras públicas em geral. 

O livro analisa, em especial, a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, uma propriedade agrícola de usufruto da Coroa como local de passeio, e a Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em São Paulo, que, segundo a pesquisadora, permitem uma visão conjuntural e também o acompanhamento das transformações ocorridas no âmbito do escravismo brasileiro. 
Ela ainda acrescenta que os estabelecimentos públicos foram escolhidos por sua representatividade na questão da diversidade produtiva do Estado e por seu funcionamento continuado ao longo do século 19, além do fato de que ambos tinham documentação abundante e catalogada.

A autora examinou fontes oficiais, como os relatórios governamentais dos ministérios, documentos manuscritos como cartas oficiais e requerimentos, legislação, recortes de jornais e outras publicações da época. No tocante à historiografia da escravidão, a pesquisadora deu ênfase às questões gerais, como o patrimonialismo do Estado e os padrões da escravidão privada, bem como a revisão das análises isoladas dos estabelecimentos públicos. 

Também foram utilizadas como referência pesquisas de autores como Carlos Engemann, que analisa a demografia e as relações sociais entre a escravaria da Fazenda de Santa Cruz, de 1790 a 1820, a tese de Solimar Oliveira Lima sobre o trabalho escravo nas fazendas da nação no Piauí, entre 1822 e 1871, e ainda o estudo de Mario Danieli Neto, que trata dos escravos públicos e africanos livres na Fábrica de Ferro São João de Ipanema, de 1765 a 1895.

A obra está dividida em três partes. Na primeira são identificados os escravos da nação. Na segunda é enfatizada a concepção do Estado em relação aos escravos públicos. Já na terceira são contempladas as características e as vivências dos escravos em estabelecimentos públicos. Segundo a autora, nos casos estudados constata-se uma preocupação diferenciada com os escravos públicos em relação à escravidão privada.
 “Essa preocupação está relacionada à constituição de famílias, à educação e à profissionalização, à saúde, a gratificações, à alforria e à formação de pecúlio”, escreve. O que mais chama a atenção é que parte deles recebia remuneração por seu trabalho, e alguns ainda tinham acesso à escola de primeiras letras.

Escravos da Nação – O público e o privado na escravidão brasileira, 1760-1876, de Ilana Peliciari Rocha, Editora da USP (Edusp), 344 páginas

DJ cria plataforma para divulgar trabalhos de mulheres negras: 'União'

Foto Rodrigo Ribeiro/Arquivo Pessoal

Cássia Sabino, mais conhecida como Afreekassia, é uma DJ que trabalha para dar visibilidade a produções artísticas negras e que criou uma plataforma para compartilhar o trabalho de mulheres como ela.

“Afreekassia, além de ter ligação com o meu nome, significa África livre, e remete a uma alma livre. Tem tudo a ver com meu propósito”. É o que diz a DJ Cássia Sabino, de 21 anos, sobre seu nome artístico. Além de trabalhar com música, ela também divulga o trabalho de mulheres negras com objetivo de dar voz e espaço a sua cultura.

A relação da jovem com o movimento negro começou cedo. Como mulher negra, ela relata que apesar de vivenciar atitudes racistas, sempre conversou abertamente com os seus pais sobre isso. Mas, foi apenas na faculdade, que percebeu a importância de assumir os cabelos crespos e ter voz.
"Eu demorei para aceitar o meu cabelo. Com oito anos, eu comecei a fazer relaxamento. Quando entrei na faculdade decidi assumir os cachos e me relacionei com várias pautas do movimento negro. Tive uma postura diferente com a vida, minha autoestima cresceu e aceitei a minha identidade", relata.

No fim de 2016, ela começou na carreira de DJ. Realizou uma pesquisa musical só com mulheres negras, já que sempre acompanhou artistas como Ciara, Missy Elliott e Beyoncé. "Além de me identificar, enxergo beleza e representatividade nos trabalhos delas. Escolhi então representar mulheres negras e tenho alcançado cada vez mais pessoas e mais espaço com a minha mensagem”, diz.

Apesar de estar expandindo seu trabalho na música, ela afirma que é complicado se manter nesse cenário artístico cultural, conseguir reconhecimento e ter retorno financeiro imediato. “Eu geralmente toco em eventos e festas que dialogam com as coisas que eu acredito, mas não me fecho para outros tipos. Eu gosto muito de estar nesses espaços que me sinto acolhida e vejo que as pessoas estão se identificando com o meu trabalho", comenta.

Até o ano passado, Afreekassia fazia parte de um grupo de rap chamado incógnito, em que fazia shows e até chegou a lançar algumas músicas. Atualmente, ela está estudando a possibilidade de uma carreiro solo, com músicas autorais.

Portal Umoja
A DJ criou em 2016, um coletivo chamado Umoja, a partir de uma necessidade que tinha de estar em contato com mulheres negras. Quando começou a cursar relações públicas, se incomodou pelo fato de estar em contato com a história da cultura negra e não ter com quem dividir.

Foi então que decidiu criar o coletivo. “O nome Umoja veio de uma vila matriarcal do norte do Quênia, que só mulheres participam. Elas usam essa Vila para se protegerem de relacionamentos abusivos e violência sexual. Elas cuidam umas das outras, criam renda, plantam alimentos, se dividem e se organizam para manter um ambiente seguro para todas”, explica.

O objetivo de Cássia com a criação, segue o mesmo objetivo da vila: estabelecer uma união entre mulheres e criar uma rede para interessadas em fazer parte de um grupo negro e feminino. O foco, de acordo com ela, é dar visibilidade e interagir com produções artísticas de outras mulheres negras, através de vídeos, textos e até mesmo eventos que movimentem essa cena cultural.

Em 2019, ela explica que o portal começa uma nova fase, deixa de ser um coletivo para se afirmar como uma plataforma de interação de produção de conteúdo. "Quero unir e gerar visibilidade entre mulheres negras, não só entre aquelas que produzem arte, mas também empreendedorismo. Nesse tempo de existência fizemos algumas ações bem importantes e legais. No último ano promovemos o Festival de Arte Preta, em que convidamos várias artistas de Santos de São Paulo".

No fim de 2017, através da plataforma, ela também produziu um documentário, chamado ‘Donas e Proprietárias’, em que Afro-empreendedoras de Santos falaram sobre suas experiências e trajetórias.
Conversando com outras meninas negras, ela explica que sentiu que precisava trabalhar no portal outra coisa importante, já que sentiu ausência de histórias das gerações passadas. “É muito vago como nossas avós e bisavós viveram. São poucos os registros, só há algumas fotos. Quero resgatar essas histórias e também registrar as atuais, para a próxima geração ter uma ideia mais concreta do que aconteceu na nossa época”, conta. Ela acredita que seja importante que a história dessas pessoas sejam contadas pelas próprias mulheres negras.

Foto Rodrigo Ribeiro/Arquivo Pessoal
Depois da criação do 'Portal Umoja' e da postagem de conteúdos, as pessoas se interessaram e começaram a convidá-la para palestras. "No dia da consciência negra, participei de uma roda de conversa com pessoas mais experientes, que reconheceram meu trabalho, é bem gratificante".

Autoestima
“A maior dificuldade sendo mulher negra é trabalhar a autoestima”, afirma Afreekassia. De acordo com a jovem, é importante que as mulheres reconheçam sua importância, mas a infância com pouca representatividade traz inseguranças, e conseguir se desvincular e criar uma autoestima positiva é um desafio.

Cássia conta que teve poucas amigas negras por estudar em escola particular e ser a única negra da sala de aula. Para ela, os negros ainda são minoria em lugares que concentram pessoas com rendas mais altas. "Minha luta é importante para que a futura geração não passe pelo que passei, por coisas que a minha mãe passou e que minhas amigas passaram. Que elas se aceitem e saibam seu valor", destaca.

"O racismo tem diversas formas de oprimir. Não somos referência de beleza e isso acaba com a construção da autoestima e de identidade, porque não temos por onde começar. Não temos referência", desabafa. Apesar disso, Cássia acredita que acreditar em si é essencial para encarar e lutar contra o racismo.

A jovem quer expandir suas ações em prol do movimento negro. Como mora em Santos, ela sempre participa da organização de festas que reuniam pessoas negras. De acordo com ela, isso é importante para que as pessoas se sintam como parte do grupo e possam trocar experiências.

A Dj afirma ver um cenário de mudanças geracionais em que a comunidade negra está ganhando uma nova cara, com pessoas que não vão desistir de fazer a diferença. "Se sentir acolhida e saber que as pessoas querem e se interessam pelo que você tem para falar, parece simples, mas para o movimento, é extremamente importante", finaliza.

Fontes:Ultradicas/G1

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