segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Direitos Humanos : O que Esperar ?

Por Mônica Aguiar

70 anos de Declaração universal dos Direitos Humanos, estamos fechando  ano de 2018, marcado por várias tragédias e violações contra a vida e a liberdade. 


Encontramos um País que não conseguiu abordar e resolver suas principais dívidas históricas com a cidadania: o problema estrutural de desigualdade e discriminações profundas, das quais se destacam a discriminação racial esocial. (Frase que fez  parte do relatório divulgado em novembro, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)

Este ano de 2018 ficou marcado com várias atrocidades. Uma delas, contra a Vereadora negra Marielle Franco, militante feminista e dos direitos humanos, exterminada no exercício de sua função pública como Vereadora, representante notória  dos interesses das mulheres, da população negra e direitos humanos perante o poder público e  sociedade. 

Do Norte ao Sul do Brasil, as mortes de quem defende direitos humanos são recorrentes com aumento alarmante em todo Brasil:- Paulo Sergio Liderança Indígena e quilombola, Márcio Oliveira liderança sem Terra.

Diante de tantos fatos de violação dos direitos humanos ocorridos contra centenas de mulheres negras brasileiras, foi apresentado um  Dossiê  republicado por este BLOG em março. "A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil" .
O Dossiê  foi produzido pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra e Criola – Organização de Mulheres Negras, apresentado na 157ª sessão da Comissão da OEA – Organização dos Estados Americanos.
Com abordagens da violência e diferentes formas de violações de direitos humanos de mulheres negras brasileiras no Brasil.  

A Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas afirma que "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."

Mas diante declarações afirmadas publicamente, pela futura ministra dos Direitos Humanos, Damaris Alves, tudo indica que estas diretrizes  não serão adotadas pelo futuro Governo no Brasil.

Os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, combate ao racismo, oportunidades, combate a toda forma de violência entre e muitos outros.  Todos e todas merecem estes direitos, sem discriminação e preconceito.

Mesmo que estabelecidas as obrigações dos governos de agirem de determinadas maneiras ou de se absterem de certos atos, a fim de promover e proteger os direitos humanos e as liberdades de grupos ou indivíduos, as declarações da futura Ministra de Direitos Humanos, demostram  que sua posição pessoal, sua ideologia religiosa e valores morais sobrepõem o papel de um Gestor Público de uma Nação, ficando na contramão do mais universal de todos os direitos. Os direitos Humanos .  

conceito de Direitos Humanos reconhece que cada ser humano pode desfrutar de seus direitos humanos sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outro tipo, origem social ou nacional ou condição de nascimento ou riqueza.

  • Os direitos humanos são fundados sobre o respeito pela dignidade e o valor de cada pessoa;
  • Os direitos humanos são universais, o que quer dizer que são aplicados de forma igual e sem discriminação a todas as pessoas;
  • Os direitos humanos são inalienáveis, e ninguém pode ser privado de seus direitos humanos; eles podem ser limitados em situações específicas. Por exemplo, o direito à liberdade pode ser restringido se uma pessoa é considerada culpada de um crime diante de um tribunal e com o devido processo legal;
  • Os direitos humanos são indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes, já que é insuficiente respeitar alguns direitos humanos e outros não. Na prática, a violação de um direito vai afetar o respeito por muitos outros;
  • Todos os direitos humanos devem, portanto, ser vistos como de igual importância, sendo igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa.
A Constituição Federal regula os tratados internacionais no direito brasileiro.  O Brasil assinou e ratificou  vários Tratados Internacionais de Direitos Humanos :
  • Convenção para Prevenção e a Repressão do crime de genocídio (1948);
  • Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951);
  • Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados (1966);
  • Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966);
  • Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966);
  • Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966);
  • Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial (1965);
  • Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1979);
  • Protocolo Facultativo à Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1999);
  • Convenção contra a tortura e outros Tratamentos ou Penas cruéis, desumanas ou degradantes (1984);
  • Convenção sobre os Direitos das Crianças (1989);
  • Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança referente à venda de criança, à prostituição infantil e à pornografia infantil (2000);
  • Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados (2000);
  • Convenção das Nações Unidas contra corrupção (2000) – Convenção de Mérida;
  •  Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969) – Pacto de San José da Costa Rica;
  • Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos (1979);
  • Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de direitos econômicos, sociais e culturais (1988) – Protocolo de San Salvador;
  • Protocolo à Convenção Americana sobre Direitos Humanos referentes à abolição da pena de morte (1990);
  • Convenção Interamericana para prevenir e punir a Tortura (1985);
  • Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a Mulher (1994) – Convenção de Belém do Pará;
  • Convenção Interamericana sobre Tráfico Internacional de Menores (1994);
  • Convenção Interamericana para a Eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência (1999). 

Aumento das violações 

A Declaração universal dos Direitos Humanos completam 70 anos, somos milhões  de brasileiros sem moradia digna, saneamento básico, alimentação, acesso à educação pública de qualidade e trabalho.
Este dado divulgado dia 5 de dezembro, pelo IBGE é um triste retrato da crise econômica no Brasil . Ao todo, somos 55 milhões de pessoas em situação de pobreza ou extrema pobreza. 

Estes indicadores sociais também revelam uma realidade perversa para crianças e jovens no Brasil. No ano passado, 12,5% da população brasileira de 0 a 14 anos vivia na extrema pobreza e 43,4% na pobreza, (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE) .

Em números absolutos, são 5,2 milhões de brasileiros de 0 a 14 anos na extrema pobreza – o equivalente a quase toda a população da Dinamarca – e 18,2 milhões na pobreza – pouco mais do que o número de habitantes do Chile. 

Entre negros ou pardos, 13,6% estavam entre os 10% da população com os menores rendimentos. No outro extremo, porém, apenas 4,7% deles estavam entre os 10% com maiores rendimentos. Já entre os brancos, 5,5% integravam os 10% com menores rendimentos e 16,4% os 10% com maiores rendimentos. 

A análise por restrição de acesso a bens em múltiplas dimensões complementa a análise monetária e permite avaliar as restrições de acesso à educação, à proteção social, à moradia adequada, aos serviços de saneamento básico e à internet. 

Nos domicílios cujos responsáveis são mulheres negras ou pardas sem cônjuge e com filhos até 14 anos, 25,2% dos moradores tinham pelo menos três restrições às dimensões analisadas. Esse é também o grupo com mais restrições à proteção social (46,1%) e à moradia adequada (28,5%). 

A liberdade, o respeito aos direitos humanos constituem elementos essenciais para manutenção da democracia e o exercício da cidadania.


Fontes e trechos:  Nações Unidas / Geledés /UNRIC/

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Sanepar abre exposição de arte de mulheres negras


 
A Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) abriu em Curitiba, a Exposição Ero Erê: Mulheres Artistas, com obras de 7 artistas negras. São oito trabalhos, entre pinturas, fotografias, assemblage e instalação têxtil.

A exposição marca as atividades do Mês da Consciência Negra em novembro, vai até 28 de fevereiro de 2019. Simultaneamente, o Coletivo Ero Erê está com exposições na sede da Secretaria de Estado da Educação e no Museu Paranaense.

A artista e curadora da exposição Walkyria Novais, que trabalha na Coordenação de Museu e nos Centros de Educação Socioambiental da Sanepar, afirma que as obras escolhidas além da qualidade estética são resultado de uma pesquisa em arte. “O nosso grupo é bastante diverso porque cada uma tem a sua ocupação profissional, mas somos mulheres negras que temos a arte como foco em nossa vida”, afirmaa. Ela tem formação em Artes e especialização em História da Arte e Curadoria. Walkyria faz pintura com uso de tintas naturais e utiliza material reciclável, como lonas e banners.

“Expor de forma coletiva fortalece o nosso grupo e o nosso propósito de dar mais visibilidade a um trabalho voltado à comunidade negra, às mulheres”, disse a jornalista e fotógrafa Fernanda Castro. Com exposição em vários países, Fernanda Castro faz vários registros fotográficos de mulheres, da cultura, religiosidade e comunidades negras, como a exposição Comunidade Quilombolas do Paraná.

A artista Cláudia Lara já participou de várias exposições coletivas e individuais no Paraná, São Paulo, Paraíba, Portugal, França, Cuba, Nova York, México, Peru e Argentina. Já teve obra premiada em primeiro lugar na “Exposition Biennale d’Art Contemporain Brésilien Et Latino Américain”, em Paris.

Elis Brasil é graduanda em Artes e desenvolve pesquisa sobre a invisibilidade artística e intelectual da mulher negra na história da arte. Ela faz pintura, gravura e escultura e também utiliza tecidos como suporte artístico.

Kênia Cristina tem a produção focada na pintura da figura feminina negra sobre materiais rejeitados com um olhar subjetivo e acolhedor sobre essas mulheres.

Lana Furtado trabalha com fotografia de famílias, retratos femininos, paisagens, fotografia documental e autoral. Ela desenvolve um projeto de fotografia com mulheres apenadas do Presídio Feminino de Piraquara.

Lourdes Duarte, formada em Artes Visuais, faz pinturas que buscam o resgate de memórias da infância. Tem especialização em Arte Inclusão na Educação Especial.

A exposição está aberta ao público, na Sala Engenheiro Tadeu Wantroba, na sede da Sanepar, Rua Engenheiro Rebouças, 1376. 
O horário de visitação é das 8h às 17, de segunda à sexta-feira, até 28 de fevereiro.


Fonte:Bemparana

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Confirmada presença da ativista Ângela Davis no Encontro Nacional de Mulheres Negras


Por Mônica Aguiar 

Evento acontecerá em Goiânia e comemoram os 30 anos do 
primeiro encontro Nacional 
de Mulheres Negras

A filósofa,  ativista e feminista pelos direitos das mulheres, contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos, Ângela Davis, participará do Encontro Nacional de Mulheres Negras 30 anos: Contra o Racismo e a Violência e Pelo Bem Viver – Mulheres Negras Movem o Brasil.

Este encontro marcam os 30 anos da realização do primeiro evento na cidade de Valença (RJ), ocorrido em 1988. As três décadas da rearticulação política contemporânea das mulheres negras trazem o histórico e os desafios da mobilização para afirmação do protagonismo na luta política, para afirmação da sua identidade e existência.

O encontro acontecerá  entre os dias 06 e 9 de dezembro,  na Vila Cultural Cora Coralina em Goiânia, fruto do resultado de encontros estaduais que ocorreram desde março em várias cidades  e pretendem reunir lideranças de todo pais.

O evento buscará ampliar uma agenda positiva de caráter nacional, recentemente fortalecida pela Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. A marcha mobilizou diferentes forças políticas do movimento e conduziu mais de 70 mil ativistas a Brasília (DF), em 2015.

Para mobilizar recursos para o encontro, as organizadoras estão receberam doações até 2 de dezembro, por meio da plataforma Kickante. A campanha de financiamento coletivo teve como mobilizadoras online as defensoras dos direitos das mulheres negras da ONU Mulheres Brasil, Kenia Maria e Taís Araújo, e da embaixadora da ONU Mulheres Brasil, Camila Pitanga.


A promoção dos direitos humanos das mulheres negras é parte da estratégia de comunicação e advocacy político Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030. Esta iniciativa é desenvolvida pela ONU Mulheres em parceria com o movimento de mulheres negras brasileiras por meio de comitê integrado por organizações da sociedade civil.

A ação está alinhada com o Marco de Parceria das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável 2017-2021, que adota como diretriz o enfrentamento do racismo e a eliminação das desigualdades de gênero no país, baseada na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e na Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), e com o manifesto da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver.

A iniciativa conta com o apoio do fundo de investimento social Elas e da ONU Mulheres Brasil.

Mais informações: @mulheresnegras30anos

Fonte: UNU Mulheres 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

AUMENTA DIFERENÇA SALARIAL ENTRE MULHERES E HOMENS


Mantém as desigualdades entre negros e brancos. A mulher negra é a pessoa que tem a menor renda média no país e quem tem menor acesso à saúde e educação.

As desigualdades entre a renda das mulheres e homens cresceu nos últimos dois anos, tornando  mais distante a equiparação de renda no Brasil. Isso é o que também revela o relatório País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras – 2018, divulgado nesta segunda-feira (26) pela organização não governamental Oxfam Brasil, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua de 2016 e 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostra que, em 2016, as mulheres ganhavam em média cerca de 72% do que ganhavam homens no Brasil, proporção que caiu para 70% em 2017, o primeiro recuo em 23 anos.

Em 2017, a renda média de mulheres no Brasil era de R$ 1.798,72, enquanto a de homens era de R$ 2.578,15. Os dois gêneros tiveram aumento médio geral de renda em relação a 2016, mas enquanto o incremento entre os homens foi de 5,2%, entre as mulheres foi de 2,2%.

Entre os 10% mais ricos do Brasil, a distância entre a renda de mulheres e homens é ainda maior. As mais ricas ganharam em média 60% do que os mais ricos em 2017. Enquanto os homens mais ricos tiveram quase 19% de aumento em seus rendimentos entre 2016 e 2017, as mulheres mais ricas viram sua renda média crescer apenas 3,4%.

Tendência oposta foi observada entre a metade mais pobre do país, onde verificou-se redução da renda, especialmente entre as mulheres pobres, que perderam 3,7% de seus rendimentos. Os homens pobres perderam 2% do seu rendimento em relação a 2016.

A disparidade de renda entre grupos raciais também aumentou nos últimos dois anos. Em 2016, os negros ganhavam R$ 1.458,16 em média, o que correspondia a 57% dos rendimentos médios de brancos, que naquele ano foram de R$ 2.567,81. Em 2017, os rendimentos médios de negros foram de R$ 1.545,30 frente a R$ 2.924,31 entre os brancos, diminuindo o percentual para 53%.

  As desigualdades de renda também aumentaram nos últimos 2 anos entre grupos raciais no Brasil. População negra continua sendo mais pobres no Brasil . 


O relatório da Oxfam revela que entre a metade mais pobre da população, os negros pobres ficaram ainda mais pobres, com redução de renda média de 2,5%;  enquanto os brancos tiveram aumento na renda média de 3%. Em 2016, a média geral da renda da metade mais pobre da população foi de R$ 749,31. Entre os brancos pobres, a média era R$ 882,23, enquanto entre os negros pobres, R$ 634,66.

“Quem está na base da pirâmide social no Brasil é a população negra e, em particular, a mulher negra. A mulher negra é a pessoa que tem a menor renda média no país. A população branca, o homem branco em particular, está no extremo oposto disso. Então, se a mulher negra vai mal no Brasil, o Brasil está indo mal na área social, acho que esse é um indicador principal que a gente tem que prestar atenção”, disse Rafael Georges autor do estudo e coordenador de campanhas da Oxfam Brasil.

Em 2017, a renda média geral dos mais pobres foi de R$ 804,35, e enquanto a renda média dos brancos mais pobres subiu para R$ 965,19, a dos negros foi para R$ 658,14.
Entre os 10% mais ricos, a renda média mensal dos brancos em 2017 foi de R$ 13.753,63, enquanto a média dos negros foi R$ 6.186,01 por mês, o equivalente a 45%. Entre 2016 e 2017, os negros que fazem parte dos 10% mais ricos tiveram aumento de renda de 8,1%, enquanto os brancos incrementaram suas rendas em 17,35%.

 Revogação do teto de gastos

O relatório também destaca a necessidade de melhora nos gastos sociais. "Melhorias podem ser alcançadas com um aumento da qualidade do gasto em geral (transparência, progressividade e efetividade)", diz o texto.
Considerando os principais gastos sociais – previdência, assistência, saúde e educação – o Brasil destinou a eles, em 2016, 22,8% de seu PIB. Mais da metade desse valor - o que equivale a 12,25% do total do PIB - foi para benefícios previdenciários, enquanto 1,55% foi para assistência.
Segundo a Oxfam, é urgente a revogação do teto de gastos, que considera um "limitador para a retomada da redução de desigualdades estruturais no Brasil".
Na questão fiscal, o sistema tributário "retroalimenta desigualdades de renda, raça e sexo", diz o relatório. Por outro lado, a ONG destaca que algumas medidas legislativas referentes à reforma tributária poderiam ter impacto expressivo e de curto prazo na redução de desigualdades.

Seminário debate desigualdades 

FOTO: Najara Araujo/Câmara dos Deputados
 No Seminário convocado pela deputada federal Benedita da Silva-PT,  “Mulheres Negras Movem o Brasil: visibilidade e oportunidade”. O  evento ocorreu na Câmara dos Deputados, para lembrar o Dia da Consciência Negra .

O seminário abordou, entre outras questões, as dificuldades que as mulheres negras têm para acessar direitos básicos como saúde, educação, justiça e renda. São 55,6 milhões de mulheres negras no Brasil, que chefiam 41,1% das famílias e recebem, em média, 58,2% da renda das mulheres brancas. Em contrapartida, no quadro diretivo das maiores empresas no Brasil, as negras são apenas 0,4% das executivas – apenas duas em um total de 548 executivos e executivas. Os dados apresentados no seminário foram extraídos do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça de 2015.
Fontes: EBC /Bem paraná/Huffpost/Patríciagalvão

(Agência Brasil, 26/11/2018 – acesse no site de origem)

domingo, 25 de novembro de 2018

Conceito do Afro Fashion Day 2018 afirma identidade através das cores

Cores de conceito possuem a ancestralidade na referência.
 Fotos: Thiago Borba/Divulgação

 A quarta edição do Afro Fashion Day (AFD), maior passarela negra do Brasil, levou cerca de 1,2 mil pessoas ao Museu Du Ritmo, no bairro do Comércio neste sábado (24). 

“Usar vermelho diziam que era coisa ruim. O amarelo? Era muito forte, cor berrante. Quando Ilê veio, mudou. O vermelho simbolizou o nosso sangue derramado. O amarelo? O ouro e a independência que a gente busca: o sucesso e vitória. O branco, a paz e tranquilidade. E o preto: nossa cor. Cores trazem felicidade, empoderamento e ancestralidade”, conta Dete Lima, 65, estilista e uma das fundadoras do Bloco Afro Ilê Ayiê, ao relembrar que o uso de cores era uma dificuldade para as mulheres negras. É justamente para reafirmar a liberdade que o Afro Fashion Day, projeto do CORREIO que celebra o mês da Consciência Negra, elegeu como tema deste ano Cor e Identidade. 

Ano passado, o tema foi ‘Os Quatro Elementos da Natureza’ e tivemos uma cartela de tons terrosos bem específica. Este ano, fomos inspirados também pela representatividade da estreia de Virgil Abloh como primeiro estilista negro a assinar a linha masculina da grife francesa Louis Vuitton e em seu desfile incrível, com monocromias em cores vibrantes”, revela Gabriela Cruz, editora de projetos especiais do CORREIO e curadora do Afro Fashion Day. A elaboração do conceito também foi dialogada com as 48 marcas que aceitaram o desafio fashion juntamente com o produtor de moda Fagner Bispo, que assina o desfile que será guiado por oito cores vermelho, azul, amarelo, laranja, verde, rosa-choque, roxo e branco. Para a jornalista, mais do que um projeto de moda, o Afro Fashion Day é uma ação focada em evidenciar as lutas da população negra em suas mais variadas formas.

O objetivo era um só: exaltar o protagonismo e a identidade cultural do povo negro.

Goya Lopes, 64, designer têxtil baiana que estudou em Florença, na Itália, na década de 70, conta que, aqui e lá, o problema incomodava, e se diz feliz com o progresso. “A mudança é visível. Hoje, o medo do que o outro iria falar deu espaço a uma estética de autoafirmação, orgulho e resistência. E os criadores estão com um forte conteúdo simbólico e uma criatividade consciente”, pontua ela. Dete lembra, ainda, a gestação do projeto do Curuzu, na Liberdade, para que a estética da população negra permanecesse altiva: “Para a gente foi difícil. Mas ao mesmo tempo não. Porque saímos de uma casa onde Mãe Hilda sempre fortalecia que somos negros e bonitos. Que podíamos ir para qualquer lugar sem ter medo. E o Ilê nos fortaleceu muito mais, trazendo as cores fortes que não usávamos antes”.

A designer de moda e pesquisadora baiana Carol Barreto, primeira brasileira a desfilar na Black Fashion Week de Paris e participante do AFD desde o primeiro ano, reconhece a importância do tema. “A nossa história foi quase apagada para construção desse território chamado Brasil. As cores como afro-referências são necessárias. É uma mudança de mentalidade, não apenas uma troca de roupa. Hoje, aparentar ser negro é uma posição de escolha e não de comodismo”, afirma a santo-amarense. 
Barreto ressalta que discorrer sobre cores é falar sobre a conexão global da população negra, mas, também, sobre a dos próprios brasileiros. “No Brasil, a gente teve uma exclusão fragmentada. Foi construído na cabeça dos negros o ímpeto de apagar em si os elementos que lembram a negritude e a cultura africana. Parte desse comportamento de eliminar essas marcas é composto pela negação”, explica a estilista. 

Considerando que a aparência é um dos elementos da identidade, o AFD valoriza as marcas baianas que são produzidas por pessoas negras ou que evidenciam a cultura dessa parte da população. Goya, que foi uma das pioneiras na discussão do silenciamento dos aspectos identitários, considera que utilizar as cores remete às adaptações da diáspora africana na Bahia, contribuindo assim para a noção de identidade e autoexpressão na sociedade. Para ela, as cores são elementos importantes. “É a ousadia nas combinações, nos adereços, nas texturas. Se apresenta na religiosidade, onde há sintonia com as cores da natureza que encantam e transmitem o Axé, ou nas formas da arquitetura, na arte, em pinturas e desenhos decorativos”.

O Afro Fashion Day é realizado pelo CORREIO com apoio institucional da prefeitura de Salvador e apoio de Salvador Shopping, Sebrae, Vizzano e Museu du Ritmo. 

Em 2018, o Afro Fashion Day chega à sua 4ª edição. Idealizado para celebrar o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, o AFD representa um importante movimento cultural e social e já marca importante presença no calendário baiano. Considerado o principal evento de moda negra no Brasil, a representatividade e valorização da diversidade são os principais trunfos deste projeto que atrai o público de Salvador.
         Muito mais que um desfile, o Afro Fashion Day é um gerador de oportunidades. Seja para apresentar ao mercado consumidor os estilistas e designers baianos, seja para revelar a beleza dos novos talentos que desfilam na passarela,
 o projeto coleciona histórias de superação.


Fonte: Correios
Foto:Thiago Borba/Divulgação

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