quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um sistema racista, punitivo e letal ao jovens e crianças negras no Brasil.

O Coletivo Nacional de Juventude Negra
Enegrecer lançou em 12 de outubro a campanha nacional
 #SemCriançasNãoHáDiaDasCrianças,
“Brasil, Pare de Matar Crianças Negras”

Por Mônica Aguiar

O que tudo indica que as novas práticas racistas institucionais e estruturais já provocam o retrocesso dos avanços obtidos no combate ao racismo e suas mazelas

Políticas e ações conquistadas a passos lentos pelo movimento negro e de mulheres negras para garantir minimamente as reparações dos danos causados pela escravidão e igualdade entre negros e não negros no Brasil estão sendo rejeitadas.

A população negra sofre diariamente com o racismo. Existe uma ineficiência interpretativa proposital nas Leis que punem práticas do racismo.

Leis como a  7.716/89 Caó, que classifica o racismo como crime inafiançável, e prevê prisão de até cinco anos e multa, é pouco aplicada e muito tipificada.

 A Lei nº 12.288/10O Estatuto da Igualdade racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica esta sendo totalmente ignorado;

A Lei 10639, estabelece a obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira" e estabelece o dia 20 de novembro como o dia da consciência negra no calendário escolar. Não é implementada.  Dentre tantas outras, tratados e convenções;

Datas históricas de manifestações e debate com a sociedade sobre o racismo, discriminações, preconceitos, xenofobia, homofobia e intolerância correlatas, estão sendo desqualificados .

As desigualdades socioeconômicas com variáveis, assimetrias é a grande realidade que se impõem entre o povo negro.

Os índices alarmantes de vulnerabilidades traduzem e estabelecem os formatos de pobreza no Brasil, somam-se as desigualdades existente que se mantém mesmo considerando o recorte por nível de instrução.

A falta de responsabilidade, vontade política e intolerância, estão cavando um grande abismo socioeconômico em relação à cor ou raça no Brasil.

Altas taxas de analfabetismo principalmente entre jovens :3,9% são brancos e 9,1% são negros, com maior gargalo aos que residem na área rural, onde a taxa chega a 20,7%.

A violência é um fator alarmante entre os jovens e crianças negras. O estudo do IBGE mostra que os negros lideram o pico da taxa de homicídios entre pessoas de 15 a 29 anos, sendo os homens a maioria. 
A taxa de homicídios foi 16% entre as pessoas brancas e 43,4% entre as pretas ou pardas a cada 100 mil habitantes em 2017.

Os números só crescem no Brasil.

Uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio intencional do que uma pessoa branca.

No Brasil, os registros apontam que em cada 10 assassinatos praticados por ano, 7 são contra a população negra.

Mesmo que negada, dados oficiais comprovam a existência de filtragem racial nas instituições policiais do país, chanceladas pelo próprio sistema de Justiça.

Ágatha, Miguel, Juan, Davi, João Pedro são algumas das crianças assassinadas pelas mãos e aparelho de segurança pública do Estado.

Situações de vulnerabilidade e de discriminação, extermínio da juventude pobre, negra e periférica, traduzem a falta de uma segurança pública adequada.

A construção de uma fundada suspeita que se dá : através do comportamento suspeito, da roupa suspeita, relacionado ao horário, principalmente na busca por drogas e armas.

Um sistema racista, punitivo e letal ao jovens e crianças negras no Brasil.

O Brasil tem hoje a polícia que mais mata e que mais morre no mundo. 

violência contra a mulher segue igual tendência. Dos 4.939 assassinatos em 2017, o maior número em dez anos, 66% das vítimas eram negras. A cada dia se registrou 13 mortes de mulheres, nove delas negras. Em dez anos, as taxas subiram 30% para mulheres negras e, para as não negras, 4,6%.

A violência contra a mulher não é um fato novo. Muito pelo contrário, é tão antiga quanto a humanidade. Mas é muito recente, pensamentos e defesa libertárias das condições de opressão e violência que as mulheres sofrem e são impostas.

A superação da violência como condição necessária para a construção da humanidade, deveriam ser ações prioritárias de todos os governantes e gestores no Brasil.

Nesta conjuntura política, vivenciamos várias atitudes deste Governo, reafirmam direta e indiretamente costumes que naturalizam a violação de corpos, mentes e vidas de mulheres e crianças.

Um artigo da socióloga Rachel Barros na Fase ( mulher negra e desejosa em ser mãe, convida a reflexão sobre o extermínio da infância negra e periférica),  desenvolveu uma pergunta para refletir sobre os assassinatos de crianças que fazem parte do crescimento escandaloso do número de mortes causadas por intervenções policiais em 2019, no Rio de Janeiro. 

Barros pergunta:
- O que fazer no momento político em que nenhuma normativa legal, nenhum princípio democrático estabelecido por lei, é suficiente para proteger a existência digna de crianças que moram em favelas e periferias?

É cruelmente contraditório ver que em termos populacionais, o país avançou no aumento da expectativa de vida, e ao mesmo tempo criou práticas para ceifar o desenvolvimento de determinadas vidas ao permitir o crescimento do número de assassinatos de crianças e adolescentes. Afirma Rachel Barros

A violência se alicerça na estrutura patriarcal e no racismo.  

O que vem sendo reconsolidado como Segurança Pública, não pode ser considerada uma política pública de verdade: privilegia uma minoria branca, elitizada e seu vasto patrimônio. 

Nota-se que o Estado - com apoio da mídia e da opinião pública formada pela elite, boa parte seguidores defensores e adeptos da ideologia do armamento e da letalidade como ação policial, estão apresentando ao longo de um bom tempo, um modelo de segurança pública direcionado para medidas que criminalizam negros, comunidades e a pobreza, justificadas no combate as drogas em detrimento de programas sociais e de medidas preventivas que não sejam controladoras.

No Brasil ainda prevalece uma mentalidade que não existe práticas e condutas demarcatórias a partir da cor. A chamada filtragem racial.

Com esta negativa, as condutas racistas ficam muito difícil de ser identificadas, devido a existência do paradigma de como muitas pessoas querem, acham ou ditam, a partir de seus valores como deve ser identificado o racismo. 

As práticas racistas, vem apresentando adaptações, mudando de estratégia conforme as circunstâncias. Na maioria das vezes até chegam assumir configuração e discurso do politicamente correto.

Fato exposto publicamente nas declarações do presidente da Fundação Palmares desse governo Bolsonaro.  

Centenas de setores do movimento negro chamam para assinar uma  nota de repúdio à gestão da Fundação Palmares e pedido de exoneração do atual presidente do órgão, justificados pelas publicações feitas no site institucional e nas redes sociais da Fundação Cultural Palmares por ocasião do dia 13 de maio. 

As publicações feitas pelo Presidente da Fundação Palmares, distorcem a história e minimizam a luta de Zumbi dos Palmares, herói nacional. Atentam contra a imagem de Zumbi, dignidade, ferindo a pátria brasileira e o povo negro. 
Para o Movimento Negro tal postura do Presidente da Fundação Palmares caminha na direção contrária da missão para a qual foi criada em 1988, de atuar “para promoção e preservação dos valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. Pedem que assinem a petição: http://chng.it/VXTv2Y8c

Mas eu farei a seguinte pergunta para reflexão:

-Qual a relação entre as declarações do Presidente da Fundação Palmares, as declarações do Presidente Bolsonaro, as declarações da Ministra dos Direitos Humanos e da Família, com a violência e extermínio que acontecem com as mulheres, jovens e crianças negras? 

O desprezo, a desconsideração, a desqualificação às regras e princípio dos direitos humanos, sempre mantendo a aparência técnica e política com traços criminogênicos, fortalecem e legitima condutas finais tomada por agentes da segurança pública a partir da cor.

Esta institucionalização e práticas racistas veladas, estão levando tanto a sociedade quanto as instituições públicas, ficarem isentas das responsabilidades quanto à acusação de cometer a filtragem racial. Protegem e fortalecem a disseminam do ódio e a superioridade racial através das redes sociais.

Precisamos lutar por uma reforma profunda da política de segurança pública. Se faz necessário que tenhamos uma política de segurança pública que privilegie a vida, respeito aos direitos, igualdade e seja pautada nos direitos humanos. 

Fontes: Brasil Escola/IBGE/Ponte.org/Fase/ Blog Mulher negra 


terça-feira, 19 de maio de 2020

Momentos políticos de reflexões para mulheres



Por Mônica Aguiar

Na era denominada modernidades da tecnologia, valores morais são misturados propositalmente a valores religiosos e, são, depositados nas mesas pelas mãos de quem Governan o Estado democrático e de direitos.

Deparamos entre todo arcabouço anti-intelectualista os mais diversos arranjos ideológicos de dominação e de novas práticas racistas.  Sem poder contrariar a vontade de um Senhor que se resguarda entre aqueles que ainda se impõem como maioria, sustentam crises, promovem severas transições política, econômicas e administrativas.

Por um lado se torna cada mais notório os instrumentos repressivos e falta de atitude por parte do Judiciário para colocar em prática Leis.  Inversão de papeis entre poderes que buscam a todo e qualquer custo, de joelhos, com as mão estendidas, a troca de favores para garantir domínio e riquezas .São notórios.

Não importa neste longo e vasto instante, quem morre, quantos morrem e porque morrem.  

Na regra pré-estabelecida, mesmo com todos os avanços e desenvolvimento cientifico, econômico e social, vale ressaltar que as mulheres continuaram a carregar o fardo da pobreza, das desigualdades raciais e da violência.

Mas a quem recorrer para que as poucas mudanças obtidas e direitos como tolerância, igualdade, oportunidade e sobrevivência prevaleçam? Tratados? Legislações? Pactos? Qual seria a medida certa para esta receita, onde um grama se tornou maior que três quilos?

Um Rei com coroa de fantasia se impõem como imperador, alimentado por abutres de plantão que massageiam seu egocentrismo e sentimentos maquiavélicos contraídos na escalada política.

Erguem-se cúmplices e mentores da falta de ética na política e justiça, para garantir que nenhuma atitude ou afirmação agite as estruturas que afiançam o espaçoso, rico e grande poderio em percurso.

Em meio a tantas balburdias, parcela do povo que tinha acesso a bens e serviços, oportunidades, acesso financeiros e econômicos que acreditaram na plataforma da mudança, foram deixados de lado, tornando refém da distribuição (esmola) de um pão que mal chega as mesas.

Faltam empregos, salários, escolas, comida, vestuários, fundo e reservas financeiras. Faltam sorrisos nos que se classificaram por um breve período ser classe média!

Entre os caminhos paulatinamente construídos e perdidos aos ventos, milhares de brasileiros começam a perceber que os tão defendidos valores familiares é ausência de conhecimento político, técnico e cultural, contrapõem e sobrepõem a ciência.

Mesmo com perdas irreparáveis, pois delas soma-se o tempo, formação acadêmicas, fome, miséria, desalento e principalmente vidas, eu acredito nas mulheres para traçar caminhos novos.

Um grande desafio estar por vim.Muitas mulheres já se manifestam com consciência que mesmo com todo sofrimento, a contribuição que fazem para construção da nossa nação é também postura e posição política. Isto pode ser considerado projeto de vida com resultados positivos.

Reeditaremos às páginas desta história, com conceitos e valores que acompanham o desenvolvimento político, intelectual, científico, cultural e social com todos seus arranjos cotidianos.

terça-feira, 12 de maio de 2020

CULTURA DE VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES SERÁ DEBATIDA DURANTE SEMINÁRIO INTERNACIONAL

Representantes de diversos países estarão presentes em evento que acontece nos dias 20 e 21 de maio, em São Paulo. As inscrições estão encerradas, mas haverá transmissão simultânea nos dois dias do evento a partir das 10h pelo site oficial do Seminário
(Tatiana Merlino para Agência Patrícia Galvão) 
Especialistas, ativistas, representantes de organismos e instituições nacionais e internacionais estarão reunidos durante o 1º Seminário Internacional Cultura da Violência Contra as Mulheres para debater questões fundamentais para o enfrentamento da violência em suas diversas formas e abordagens.
O seminário, organizado pelo Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Vladimir Herzog, em parecia com a ONU Mulheres, Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e Fundação Ford, ocorrerá no Sesc Pinheiros, nos dias 20 e 21 de maio, em São Paulo.
“Nossa expectativa é que, ao longo dos dois dias do Seminário, realizemos um esforço coletivo de revisitar o tema da violência contra as mulheres tendo em perspectiva suas causas mais profundas e os mecanismos que constroem, disseminam e perpetuam uma cultura de desrespeito aos direitos humanos das mulheres que atravessa gerações e fronteiras geográficas e ignora diferenças de níveis de desenvolvimento socioeconômico”, aponta Jacira Vieira de Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão. “Iremos discutir a violência contra a mulher e seus aspectos culturais. Queremos fortalecer a troca de experiências e defender o direito à vida em todas as suas dimensões”, afirma Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog.
Pacto global
Para a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci, o seminário será uma oportunidade de desnaturalizar práticas que estão nas raízes da violência. “É mais do que discutir a violência contra as mulheres, que é um problema lamentável e uma chaga que nenhuma sociedade que pretenda ser democrática pode conviver, é olhar para a cultura, para valores enraizados”, frisa.
A representante da Fundação Ford no Brasil, Nilcéa Freire, avalia que o evento será ainda um momento “em que teremos a oportunidade de discutir odesequilíbrio de poder que existe entre homens e mulheres – e a violência talvez seja a evidência mais cruel desse desequilíbrio de poder”.
Nadine Gasman, Representante da ONU Mulheres no Brasil sustenta a necessidade de trabalhar com as questões determinantes da cultura da violência contra as mulheres. “Sabemos que há uma relação com a cultura patriarcal em que vivemos, mas queremos ir além da denúncia. Queremos pensar como acabar com ela. O grande desafio da humanidade é construir uma cultura de igualdade”, define.  Entre os elementos para desconstruir tal cultura, ela destaca a necessidade de desnaturalizar coisas que parecem normais “nas relações, nas instituições, trabalhar com educação formal, das famílias e das comunidades”.
A Ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, fará a palestra de aberturado evento.
Eixos temáticos
Buscando alcançar um pacto global de não-tolerância à perpetuação da violação dos direitos humanos das mulheres, os debates foram organizados em quatro eixos, que serão debatidos ao longo dos dois dias entre especialistas do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Costa Rica, Argentina, Inglaterra e México.
A primeira palestra, “As Perspectivas Propositivas para uma Cultura de Não Violência Contra as Mulheres”,  será realizada por Lori Heise, diretora-executiva da Strive Research Consortium. Em seguida, os debates do painel 1  devem, não apenas para estimular o aprofundamento da compreensão sobre os fatores que determinam a construção e perpetuação da cultura da violência contra as mulheres, mas principalmente apresentar análises e experiências voltadas ao questionamento e desconstrução dessa cultura nos âmbitos local e global.
A segunda palestra e painel irão abordar  “A Juventude e a Cultura da Violência contra as Mulheres”, buscando refletir sobre quais normas e ideais de gênero, e também sobre quais concepções de violência e direitos que circulam entre os jovens, visando, sempre, elaborar estratégias para a construção de uma cultura de respeito aos direitos humanos das mulheres.
Já o terceiro eixo será sobre “O Papel da Mídia na Cultura de Violência Contra as Mulheres”. Colocará em debate o papel da mídia na construção e disseminação de estereótipos de gênero que naturalizam a violência contra as mulheres, por um lado, e ações de comunicação que contribuem com o enfrentamento da questão, por outro.
A última palestra, “Por uma Cultura de Respeito aos Direitos Humanos das Mulheres” será realizada por Tracy Robinson, presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Em seguida, o painel “Desafios para Mudar a Cultura da Violência contra as Mulheres” buscará refletir sobre como construir uma cultura de paz em toda a sociedade, considerando que a igualdade de gênero é central nesse sentido.
Na última sessão do Seminário, as pessoas e representantes das organizações presentes irão construir um pacto que sintetizará as questões apresentadas e as ações a serem tomadas para mobilizar a sociedade, sensibilizando e engajando novos atores no enfrentamento à violência contra as mulheres.
As inscrições estão encerradas, mas haverá transmissão online do Seminário no site do evento: www.scovaw.org.

Fonte: Agência Patricia Galvão 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Sudão prepara-se para criminalizar a mutilação genital feminina

Por ANGOP


Cartum - O Governo sudanês prepara-se para aprovar uma lei que passará a criminalizar a

 mutilação genital feminina (MGF), uma prática profundamente enraizada no Sudão.


Este será um novo passo na transição para a democracia e no respeito dos direitos básicos, após a queda de Omar al Bashir, há pouco mais de um ano. 
O porta-voz do primeiro-ministro Abdullah Hamdok, Al Barag al Nazir, disse hoje à agência Efe que a lei será aprovada "no final desta semana ou no início da próxima", quando o Conselho de Ministros e o Conselho Soberano estiverem reunidos, os dois principais órgãos de governo do Sudão, que ainda não tem um parlamento.
Segundo Al Nazir, o "projecto de lei" aprovado pelo Governo em 22 de Abril estipula "uma sentença de três anos de prisão" para quem pratica a MGF, além da retirada da licença do hospital, centro de saúde ou clínica particular onde a operação foi realizada.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) saudou esta semana o "gesto histórico" e afirmou que, após esta etapa, o país "entra numa nova era".
De acordo com as Nações Unidas, o Sudão é um dos países onde a mutilação genital é mais praticada, com 86,6% das mulheres entre os 15 e os 49 anos de idade submetidas a essa operação.
Até agora, na lei do Sudão, a MGF não é penalizada, embora o Conselho Estadual da Criança do governo tenha apresentado uma proposta em 2017 para criminalizar a ablação, ainda sob o governo de Al Bashir.
À época, o Parlamento "adiou a aprovação (da lei) devido à influência de radicais (deputados) e outros grupos que defendem essa prática, ao considerá-la uma herança social", disse hoje à Efe a directora do organismo, Amira Musa.
As ONG sudanesas são a favor do projecto de lei, embora com discrepâncias.
O chefe do Centro de ONG para a Protecção dos Direitos da Mulher e da Criança, Nahed Gabralá, considerou uma "vitória para as mulheres sudanesas" e um passo importante "para acabar com a MFG".
Já o secretário-geral da ONG Silmyia, Siham Omar, garantiu que a lei é "insuficiente", porque a punição deve incluir pais que permitam que as suas filhas sejam submetidas a essa forma de violência contra as mulheres.
Segundo as Nações Unidas, pelo menos 200 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo foram submetidas à ressecção total ou parcial de órgãos genitais por razões não médicas em pelo menos 30 países.
Mais da metade das vítimas estão concentradas no Egipto, Etiópia e Indonésia, países onde a ablação é proibida por lei, mas continua a ser realizada clandestinamente, apesar de instituições muçulmanas e cristãs também se terem posicionado recentemente contra essa prática.

terça-feira, 28 de abril de 2020

QUANDO FAZ DIFERENÇA TER UMA MULHER NO COMBATE AO CORONAVÍRUS

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Líderes tendem a agir rápido para priorizar pessoas e reduzir maior vulnerabilidade feminina, diz especialista da OCD
De Agência Patricia Galvão 
Faz diferença ter uma mulher à frente do governo durante a pandemia de coronavírus? Não, se o critério for números. Por vários outros motivos, a resposta pode ser sim.
Começando pelos números, não dá para dizer que elas se saiam melhor em relação ao indicador que melhor traduz os danos do coronavírus: a taxa de mortes em relação à população.
É uma mulher, Sophie Vilmès, a primeira-ministra da Bélgica, que até este domingo (26) registrava 61,2 mortos por 100 mil habitantes —recorde entre populações maiores que 1 milhão de habitantes.
Mas à frente de 2 dos 18 países com nenhuma morte até agora, a Namíbia e o Nepal, estão a primeira-ministra Saara Kuugongelwa e a presidente Bidhya Devi Bhandari, chefe de Estado do governo parlamentarista nepalês.
Das 195 nações acima de 1 milhão de habitantes, 22 (11%) têm chefe de governo, chefe de Estado ou membro de governo colegiado do sexo feminino. Em quase um terço (7) delas, a taxa de letalidade supera a média (2,9 mortos/100 mil habitantes), nos 174 de chefia 00exclusivamente masculina, 10% estão acima da média.
Cruzar sexo do governante com impacto letal do coronavírus não quer dizer nada, porém. Para começar, não há segurança sobre os dados divulgados até agora. Nem todo governo tem estrutura de coleta, e os critérios de divulgação variam.
Mesmo que fossem exatos e comparáveis, os índices brutos diriam pouco. Os países estão em estágios diferentes da pandemia, suas populações têm parcelas diversas de velhos, desnutridos e doentes, seus sistemas de saúde têm mais ou menos hospitais, UTIs, testes, médicos, enfermeiros, e seus cofres públicos, mais ou menos dinheiro para socorrer a população.
Tudo isso afeta a mortalidade diretamente, o que já não se pode dizer do número de cromossomos X de quem está no volante.
Se as estatísticas são inconclusivas, o que tem chamado a atenção para essas líderes durante a pandemia é a atitude de algumas delas. “Também tenho vontade de abraçar meus amigos”, disse em março, a primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, depois de fechar creches e escolas em todo o país e decretar quarentena.
Não era um discurso na TV, mas uma seção de respostas a perguntas infantis.
“Por causa do coronavírus, a vida no dia a dia ficou muito diferente, e muitas crianças acham isso assustador. É ok sentir medo quando tantas coisas grandes acontecem ao mesmo tempo”, disse ela aos entrevistadores-mirins, que queriam saber se ficariam sem festa no aniversário e quanto tempo leva para aprontar uma vacina.
Sua vizinha dinamarquesa, a premiê Mette Frederiksen, também conversou com os pequenos, mas fez mais sucesso com um vídeo em que lavava louças cantando um hit do pop escandinavo, a música “Vågner I natten” (acordando à noite), do grupo by Dodo and the Dodos.
Do outro lado do planeta, a premiê da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, avisou às crianças que o coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes estavam muito ocupados com suas famílias durante a quarentena e talvez não pudessem aparecer neste ano.
O que as três manifestações têm em comum, além de percorrerem o noticiário de todo o mundo, é o que poderia ser chamado de orientação para pessoas (cuja tradução, no mundo doméstico, é cuidado maternal).
Não é exclusividade das mulheres, mas faz parte do universo cultural no qual elas são criadas e pode afetar a forma como se expressam como líderes, afirma Gabriela Ramos, chefe de equipe da OCDE, que coordenou há uma semana um documento sobre o impacto da pandemia nas mulheres.
Não se trata apenas de doçura ou empatia, mas de decisão, diz Gabriela: “Pela forma como educamos as meninas em geral, elas tendem a ser mais avessas ao risco quando a vida das pessoas está em jogo. O que vimos foi um movimento rápido para proteger a população, sem hesitar com cálculos de custo-benefício em relação à economia”.
Dinamarca, Noruega e Nova Zelândia implantaram quarentenas rigorosas num estágio inicial da pandemia, enquanto outras líderes evitaram os confinamentos, mas agiram rápido. Na ilha caribenha de São Martinho, com pouco mais de 40 mil habitantes e apenas duas UTIs, a primeira-ministra Silveira Jacobs fez outro discurso que atraiu likes na internet, no qual pede de forma enérgica que seus cidadãos adotem o isolamento: “Pare de se mexer. Se na sua casa não tem o pão de que você gosta, coma biscoitos. Coma cereais. Coma aveia. Coma…sardinha”.
Finlândia e Taiwan são outros países que mantiveram a mortalidade em níveis baixos sem impôr o confinamento, e suas chefes de governo entraram nas listas de exemplos de como líderes mulheres pareciam atuar melhor contra o coronavírus.
Mas elas não atuaram sozinhas. Ao lado da presidente taiwanesa, Tsai Ingwen, estava seu vice, Chen Chien-Jen, que é epidemiologista, e a estrutura de um centro de combate a pandemias criado no país como resposta ao surto de Sars, em 2003.
A parceria poderia ter a mão inversa, como na Coreia do Sul, onde homens ocupam o topo dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, mas a estratégia de combate ao coronavírus foi liderada pela chefe de centro de controle de doenças, Jeong Eun-kyeong, apelidada de “maior caçadora de vírus do mundo” por seus conterrâneos.
Gabriela Ramos diz que não é possível falar em um estilo feminino de liderar, e que mulheres podem ter as mesmas falhas que homens, mas que as desigualdades de acesso à carreira política podem explicar em parte o sucesso desse grupo de dirigentes, que inclui ainda as premiês da Alemanha, Angela Merkel, e da Finlândia, Sanna Marin: “Mulheres têm que fazer o dobro do esforço e estar três vezes mais preparadas para conseguir chegar ao topo”.
O que importa, porém, mais do que o gênero do ocupante do poder, é a inclusão e a diversidade nas decisões do governo, diz a especialista em políticas públicas, principalmente quando a pandemia afeta mais duramente as mulheres em áreas como segurança, saúde e economia.
No primeiro departamento, o confinamento expõe as cidadãs à violência doméstica, cujos números explodiram em vários países. Na saúde, são mulheres 70% dos funcionários da linha de frente hospitalar e 90% dos que trabalham em asilos —maior parcela dos expostos ao contágio e dos afetados pela falta de investimento.
Quanto ao impacto econômico, trabalhadoras têm salários menoresvínculos de emprego mais frágeis e, quando são autônomas, menos acesso ao crédito. “É preciso ter mulheres à mesa de decisões, não apenas por questão de justiça, mas para ampliar os pontos de vista e não deixar desatendidas as mais vulneráveis.”
Governos masculinos que se tornaram referência no combate à violência doméstica, como Espanha, França, Portugal e Colômbia, incluíram mulheres nas tomadas de decisão: nos dois primeiros países, as ministras da Igualdade, Irene Montero e Marlene Schiappa.
Em Portugal, uma força-tarefa: a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, da Justiça, Francisca Van Dunem, a procuradorageral da República, Lucília Gago, e a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro. Na Colômbia, a vice-presidente Martha Lucía Ramírez Blanco decidiu que a ajuda financeira a trabalhadores afetados pela pandemia será suspensa se houver denúncias de que eles cometeram violência doméstica.
Na África do Sul, o pacote de ajuda também levou em conta as necessidades femininas, segundo a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, que organizou com Gabriela uma mesa-redonda de 20 líderes para levantar diretrizes de ação durante a pandemia.
“O custo de dar esse apoio a mulheres é uma fração do que está sendo usado para socorrer empresas aéreas”, afirma Phumzile, para quem as mulheres não podem ser vistas apenas como vítimas nesta pandemia, mas como fonte de soluções.
“Precisam ser projetadas publicamente como parte dos que estão fazendo os diagnósticos e encontrando saídas.” Um dos obstáculos é justamente a falta de representação. Na enfermagem, mulheres são 90% dos profissionais, mas apenas um quarto dos chefes, mostrou relatório recente da ONU.
“Não faltam mulheres na linha de sucessão, mas elas não chegam aos cargos e não estão tomando as decisões”, diz a diretora da ONU Mulheres.  E a saúde pública é uma área em que olhar abrangente é indispensável, segundo Jim Gambone, chefe do corpo docente de saúde pública da Escola de Enfermagem e Ciências da Saúde da Universidade Capella (EUA): “É uma área que engloba medicina, biologia, antropologia, políticas públicas e educação”.
A falta de pontos de vista provoca até mesmo escassez de dados que permitam analisar o impacto da pandemia sobre os gêneros, segundo
Phumzile. “Sempre que há uma crise dessa natureza e magnitude, o que sai pela janela primeiro são os serviços que protegem as mulheres da pobreza.”
Uma das principais preocupações de Phumzile e Gabriela é com as mais de 70 milhões de mulheres grávidas que precisam fazer acompanhamento pré-natal ou dar à luz durante a pandemia.
“Os bebês nascerão mesmo no meio da crise [no mundo, nascem em média 11 milhões por mês, segundo a ONU]. Já não temos mais parteiras em nossas comunidades. Que solução está sendo proposta?”, pergunta Phumzile.
Ela diz que não ficará surpresa se, passada a pandemia, descobrirmos uma tragédia ainda maior em relação a doenças e mortes entre as mulheres, não só pela falta de política específica de saúde, mas pela “pandemia silenciosa” da violência doméstica.

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