segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Elza Soares: a eternidade da Mulher do Fim do Mundo : Por Thais Rodrigues

 Ícone da música popular brasileira e inspiração para o movimento negro no país, Elza Soares produziu até o final da vida e deixa um legado de luta


"Elza Soares é herdeira e representante de uma luta anterior ao feminismo. Ela representa as mulheres negras, todas, que somos convocadas a lutar para sobreviver", declara a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, em entrevista a Alma Preta Jornalismo. Na última quita-feira (21), o país recebeu a notícia do falecimento de um dos maiores ícones da música e da luta antirracista da história. 

Elza se foi em casa, aos 91 anos de idade, após fazer fisioterapia, conversar com a família e gravar, dois dias antes, um DVD, segundo o seu empresário Pedro Loureiro. "Eu sei que a Elza descansa, ela foi do jeito que ela queria: em casa, tranquila, chegou o momento, chegou o dia. A gente só lamenta essa perda, mas sei que o seu legado fica conosco", ressalta a deputada federal Benedita da Silva (PT - RJ).

Uma legião de mulheres negras de várias gerações que cresceram, evoluíram, consumiram e se emocionaram com Elza Soares, agora reverenciam e espalham o seu legado. Ela não apenas deixou mais de 30 discos gravados com os mais variados estilos e ritmos da cultura negra, como o funk, o jazz, o hip hop e o samba, como foi ponta de lança no enfrentamento à violência contra a mulher, o racismo, a misoginia e ao conservadorismo.

"Nós conhecemos as tragédias que sua história narrava repetidas vezes: a fome, a morte, as barreiras incontáveis. Nós mulheres negras vivemos isso. Sabemos o quanto dói. Uma das poucas entre nós a ocupar a esfera pública, ela nos representou ao longo das décadas, caindo e levantando e saindo de cada baque cada vez maior. Superação, mas também aposta no futuro inovador. Mas ela era, e é uma gênia maior do que nós", afirma Werneck.

Legado para novas vozes negras - A cantora baiana Luedji Luna afirmou à Alma Preta que Elza inspirou sua carreira desde o início. Ela salienta que a precursora representou o feminismo negro na prática e contribuiu "generosamente" com várias artistas negras da nova geração.

"Elza fez tudo! Demarcou seu lugar de majestade na música brasileira, gravou discos históricos, foi homenageada em vida, se posicionou politicamente. Elza é referência não só na música, mas também de como se deve viver e morrer. Assim como ela, quero até o fim cantar", diz  Luedji.

Luna ressalta que a trajetória de Elza faz refletir sobre a dificuldade de ser artista negro no Brasil. Ela mostra que enfrentar as barreiras do ostracismo teve um custo muito alto. Elza não parava de interpretar, gravar, desfilar em escolas de samba e nem de se reinventar. Aos 85 anos, por exemplo, Elza Soares, que já somava dezenas de premiações, recebeu um Grammy Latino pelo álbum "A Mulher do Fim do Mundo". A sambista brasiliense Dhi Ribeiro conta que Elza foi uma mulher que lutou por sua liberdade e independência. Segundo a artista, ela lutou para manter sua individualidade como cantora e sua autenticidade.

"Ela não se dobrou aos apelos da massificação. Não se deixou enquadrar. Posicionou-se todas as vezes que precisamos de representação. Ela foi nossa voz em uma sociedade que sempre tentou silenciar a mulher negra", afirma a cantora.

História de luta - Com uma história de vida de superação e ausências, Elza enfrentou a morte dos filhos, a fome e a violência doméstica. Por volta dos 20 anos, fez seu primeiro teste como cantora e, após ficar viuva, decidiu tentar a sorte em um show para calouros apresentado por Ary Barroso.

"De que planeta você veio, minha filha?", perguntou o apresentador tentando ridicularizar a cantora por sua aparência humilde. "Eu vim do planeta fome", disse Elza, que recebeu nota máxima do júri, abrindo espaço para a sua carreira de uma forma genuína.

Seu início no samba foi estrondoso, mas sempre lutando contra todas as formas de opressões que uma mulher preta podia suportar. Devido a fase de menos sucesso nos anos 80, ela pensou até em desistir da carreira, mas resolveu procurar Caetano Veloso, com quem gravou o samba-rap 'Língua'. Essa participação mostrou a bossa negra de Elza Soares a uma nova geração e abriu caminho para que a cantora conhecesse outras influências além do samba. No ano 2000, foi eleita pela BBC de Londres a 'Voz do Milênio'.

Ellen Oléria, cantora brasiliense declarou que Elza ocupa o seu imaginário como os próprios "dreads": "Ela simboliza raízes, cordas e antenas", disse à Alma Preta Jornalismo. Oléria contou que está grata pela oportunidade de ter sido contemporânea de Elza e trata a sua passagem como uma grande festa da memória do povo preto. "O luto é o sentimento de quando uma vida valeu a pena", diz.

A deputada federal Áurea Carolina (Psol-MG) reitera que a cantora moveu e seguirá movendo as estruturas que fazem as mulheres negras acreditarem que não somos merecedoras de todo o poder e sucesso.

"Com carreira já consolidada, levantou-se contra o machismo e o racismo, fez ecoar com seu vozeirão rouco e magnético as reivindicações de tantas nós, enamorou-se do rap e seguiu se reiventando, nos reiventando, anunciando que jamais aceitaremos sermos a carne mais barata do mercado", afirma a parlamentar.

Músicos, pensadores, jornalistas, artistas de todas as vertentes, pesquisadores e diversas gerações de pessoas pretas celebram a grandiosidade de Elza Soares. Seu corpo foi sepultado, nesta sexta-feira (21) no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio.

 Nova série do YouTube Originals, apresentada por Agnes Nunes, celebra Elza Soares e outras grandes cantoras negras

Fonte: 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

EUA estampa pela primeira vez a imagem de mulher negra na moeda de dólar . A imagem é da escritora Maya Angelou

Por Mônica Aguiar 


A mulher negra, ativista e escritora Angelou Maya é a primeira mulher negra homenageada com sua estampa e nome gravada na moeda norte-americana. Sua imagem estampada no verso de uma nova série das populares quarters - as moedas mais utilizadas no país, com valor de 25 centavos de dólar.

RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida da guerreira Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. 

A frente de seu tempo e exemplo de resistência e de luta contra o racismo e a sefregação, aos 16 anos foi a primeira mulher negra  a trabalhar como motorista em transporte público. Também foi a primeira mulher negra a emplacar um beste seller nos Estados Unidos.  Fez carreira no cinema e na TV, ela foi diretora, roteirista, produtora e atriz. Venceu cinco vezes o Grammy e foi indicada uma vez para o Prêmio Pulitzer. Foi indicada ao prêmio Tony, considerado o Oscar do Teatro, após atuar na peça Look Away.

A homenageada Maya Angelou, faleceu  em 2014 com 86 anos, ganhou proeminência internacional após a publicação de sua autobriografia “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, que traz um forte relato sobre estupro e racismo na segregada região sul dos EUA. É o primeiro de cinco volumes da autobiografia vai aproximadamente de 1930 até 1970. É o mais popular.


 A jovem negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos.


A ativista também foi a primeira mulher afro-americana escreveu e apresentou um poema em uma posse presidencial. Foi responsável por ler o poema “No pulso da manhã” (On the Pulse of Morning, em inglês) na posse de 1993 do ex-presidente Bill Clinton.

Em 2010, o então presidente Barack Obama concedeu a Angelou a Medalha Presidencial da Liberdade, e ela recebeu em 2013 o Literarian Award, um prêmio honorário do National Book Award por contribuições à comunidade literária.

O programa American Women Quarters também apresenta Wilma Mankiller, a primeira chefe principal feminina da Nação Cherokee, Adelina Otero-Warren, líder do movimento sufragista do Novo México e Sally Ride, astronauta e física que foi a primeira mulher americana no espaço.

Escreveu a canção And so it goes, com a compositora Roberta Flack e sabia falar cinco línguas diferentes: francês, hebraico, italiano, espanhol e fanti – um dos idiomas de Gana.


Em 2018, o Google prestou homenagem a  Maya com um Doodle . No doodle é possível ouvir a própria escritora recitando o poema And still I rise junto às vozes de Alicia Keys, America Ferrera, Martina BcBride, Guy Johnson, Laverne Cox e Oprah Winfrey. O texto busca mostrar a força do povo negro contra o preconceito racial.

 

(Com a Agência AFP/Administradores.com/Folha SP/Amazon/CNNBrasil/Blogestantevirtual/UOL)

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Ano Novo, vida nova. Sem garantia e acesso. "Mortes maternas, cesárias e violência obstétrica".

Por Mônica Aguiar 

Ato em defesa da Maternidade
Leonina Leonor, destruída em BH.  
Por mais que exista ou tenha existido uma predisposição para combater e ou erradicar as mortes maternas no Brasil, a medida que acontecem retrocessos da ordem de conjuntura política, as políticas fundamentais sofrem com várias perdas.

Uma das consequências é o crescimento de fatores que sustentam as desigualdades socioeconômicos. 

As mulheres negras grávidas são as principais vítimas da falta de investimento e assistência adequada na saúde.  

As mortes maternas que acontecem no Brasil são inaceitáveis.

Mulheres negras ainda não fazem parte do conjunto da população que conseguem acessar as políticas fundamentais. 

O exercício da cidadania é extremamente limitado, demarcando o alcance da liberdade e autonomia sobre o corpo.

“As estatísticas demonstram uma violência institucionalizada. Mulheres negras são privadas do direito e do acesso à saúde. Isso se aplica à população negra em geral, mas é mais latente com as pretas e pardas,  Rebeca Campos Ferreira, 2021”

A Precocidade de óbitos maternos ressaltado nas altas taxas de mortalidade materna e infantil, e a prevalência de doenças crônicas, infecciosas e de desnutrição, demostram os níveis de desigualdades existentes quando o assunto é a falta de acesso aos diretos fundamentais.

saúde da mulher negra no que diz respeito à gravidez é um pesadelo no Brasil. Um levantamento da ONG Criola mostrou que as mortalidade de gravidas e puérperas negras pela covid-19, desde o início da pandemia, em março de 2020, superaram em 78% os óbitos das mulheres brancas em todo o país.  Os dados revelam que a região Norte é a mais desproporcional: 87% das mortes são de mulheres negras. Na sequência aparece o Nordeste, com 71% óbitos. Na avaliação da entidade, essa é mais uma demonstração do racismo no Brasil

A pandemia escancarou todas as desigualdades sofridas por mulheres negras. Da falta de acesso a saúde pública à variáveis ainda não mensuradas e que estão sub representadas nos índices da camada social denominada como invisível.  Terreno fértil para a população que se encontra cada dia mais sem moradia, alimentação adequada e sem aceso ao saneamento básico.

Desde o início da pandemia, uma a cada cinco gestantes e puérperas mortas pelo novo coronavírus não teve acesso a unidades de terapia intensiva (UTI) e 33% não foram intubadas, perdendo assim a chance de serem salvas.

Pré – Natal

“Os indicadores de maternidade e mortalidade infantil apontam que o risco de morte na infância é três a quatro vezes maior para as crianças negras em relação às brancas, e isso mesmo quando ajustamos para indicadores socioeconômicos, Dandara de O. Ramos”.

 Dados preliminares de uma pesquisa coordenada por Dandara no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a sobre gravidez e maternidade na adolescência , que tem como objetivo demostra  que a cor da pele interfere não só no acesso ao exame pré-natal, mas também no tipo de parto realizado pelos médicos.

Enquanto 64% das meninas brancas têm acesso adequado ao exame pré-natal, esse índice cai para 50% entre as meninas negras e 30% para as indígenas.  

Professora e pesquisadora do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA,
Dandara de Oliveira Ramos, mestre em psicologia social
e doutora em saúde coletiva pela Uerj - Arquivo pessoa
l

Meninas negras e indígenas tem o pior acesso ao tanto à saúde reprodutiva quanto ao atendimento pré-natal. São 64% das meninas brancas adolescentes com acesso ao pré-natal; as meninas pretas esse índice cai para 50% e indígenas 30%.

De fato as jovens adolescentes enfrentam um maior risco de complicações e morte como resultado da gravidez. O risco de mortalidade materna é mais alto para adolescentes menores de 15 anos e as complicações na gravidez e no parto são uma das principais causas de morte entre esse grupo em países em desenvolvimento.

A maioria das complicações que desenvolve durante a gravidez pode ser evitada e tratada. Soluções de cuidados de saúde para prevenir ou administrar complicações são bem conhecidas e já administradas. Basta:-  vontade política, transversalização das ações e implementação igualitária no pré-natal, programas específicos de atenção a saúde das mulheres e direitos sexuais e reprodutivos.  

 “O acesso ao pré-natal é o principal promotor do nascimento saudável e a principal medida de prevenção de mortalidade materna por causas evitáveis existente na atenção básica. A entrada precoce neste serviço possibilita atingir o número adequado de consultas, bem como a realização dos procedimentos preconizados e definidores de adequabilidade. A raça/cor da pele é um importante preditor do estado de saúde da população, assim como um marcador de desigualdades sociais. As mulheres negras apresentam menor acesso à assistência obstétrica e o percentual delas que não realizam o pré-natal é maior em comparação com as brancas. Além disso, para as mulheres negras, a interação entre os fatores biológicos, sociais e ambientais as tornam mais vulneráveis a alguns agravos, como a hipertensão arterial, diabetes, dentre outras consideradas de alto risco durante o período gravídico-puerperal. (PEDRO HENRIQUE ALCÂNTARA DA SILVA-NATAL/RN 2020)”

CESÁRIAS NO BRASIL

Existe uma indicação excessiva de cesárea sem necessidade, refletido também nas diferentes raças.

Painel de Indicadores de Atenção Materna e Neonatal criado em 2019, demostrou em agosto de 2021, que, 56,71% das cesárias foram realizadas antes do início do trabalho de parto. O maior percentual de cesárias (37,29) ocorreu em mulheres com idade gestacional entre 37 e 38 semanas. As cesárias, realizadas então pelos serviços privados como públicos, representavam 55,5% do total de partos no Brasil.

"Dados da pesquisa Nascer Saudável realizada pela Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] demonstram que a maioria das mulheres inicia o pré-natal optando pelo parto vaginal e mudam de opinião ao longo da gestação. As principais causas determinantes da elevada proporção de cirurgias cesarianas no Brasil incluem a forma atual de organização da rede de hospitais, que não favorece o parto vaginal, o modelo de remuneração baseado na realização de procedimentos, a preponderância de uma cultura médica intervencionista e as características psicológicas e culturais das pacientes, dentre outras, avalia a ANS.

Vários apontamentos demostram que o Brasil vive uma epidemia de operações cesarianas, com aproximadamente 1,6 milhão de cesarianas realizadas a cada ano. Nas últimas décadas a taxa nacional de operações cesarianas tem aumentado progressivamente e a cesariana tornou-se o modo mais comum de nascimento em nosso país. A taxa de operação cesariana no Brasil está ao redor de 56%, havendo uma diferença importante entre os serviços públicos de saúde (40%) e os serviços privados de saúde (85%). Estudos recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugerem que taxas populacionais de cesariana superiores a 10% não contribuem para a redução da mortalidade materna, perinatal ou neonatal”.  

VIOLENCIA OBSTÉTRICA  

“A dor das mulheres negras é vista pelos profissionais de saúde de forma hierarquizada, como uma dor que pode esperar. Temos uma situação na qual o racismo determina a forma como vamos nascer, viver e morrer. Larissa Borges ”

As mulheres negras são principais vítimas das práticas racistas na saúde, se tornam reféns  deste sistema considerado abstrato de normas culturais e que se move a partir da concepção racial de cada um, “claramente” detectada nas linguagens, abordagens, acolhimento, tempo de consulta, desinteresse a escuta, quebra de sigilo, dificuldade de consultas e exames específicos, erros nos diagnósticos e dos  preenchimento de prontuários até a dificuldade de apresentação de dados em comitês e Fóruns mortalidade materna/saúde da mulher separadas por grupos étnicos/racial.

Não acredito que certas práticas profissionais devam ser consideradas como racismo institucional ou estrutural.  As relações interpessoais se dão em breves momentos com formatos e foro íntimo.  Comportamentos discriminatórios e preconceituosas produzidos a partir da concepção pessoal que cada profissional tem ao ver, enxergar o outro principalmente, aqui reafirmo, a mulher negra como semelhante, igual.  

A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz Maria do Carmo Leal, em 2014 ela coordenou a pesquisa Nascer no Brasil,  um retrato sobre como as mulheres geram e parem no Brasil.  Desta primeira pesquisa, surgiu a Nascer nas Prisões cujos dados foram utilizados na argumentação a favor do habeas corpus coletivo para que as grávidas e mulheres que têm filhos até 12 anos fiquem em prisão domiciliar.  Também fruto deste estudo, foi publicado em 2017 o artigo A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil, que comprova como mulheres negras sofrem mais no parto – pelo mito de que são mais fortes.

Emanuelle Goés, pesquisadora da Fiocruz Bahia, com trabalho dedicado as desigualdades raciais no acesso aos serviços de saúde, direitos reprodutivos e racismo, interseccionalidade e saúde das mulheres diz:- “A violência obstétrica é um conceito usado para definir as violências sofridas pelas mulheres na procura por serviços de saúde durante todo o período da gestação, parto, puerpério e também em casos de aborto. Ela pode ser psicológica, física ou moral Essa forma de violência inclui abusos que podem estar relacionados ao não exercício da autonomia da mulher e à exploração do seu corpo”.

"Além do pré-natal, os indicadores de violência obstétrica para a população negra e indígena são elevadíssimos, Dandara de Oliveira Ramo 2021 “.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Pesquisas apontam : Crianças que morrem por Covid são maioria negras e indígenas .

 Por Mônica Aguiar 

Brasil é 2º país com mais mortes no mundo e reflete a triste realidade da população negra. São mais de  3 mil mortes de  crianças em decorrência da covid.  

O aumento da vulnerabilidade social entre as famílias chefiadas por mulheres negras neste período da pandemia se destacam com piora das condições econômicas, perdas de emprego e rendas, precariedade das moradias e, a falta de acesso aos serviços públicos de saúde e do saneamento básico.

Existe uma avaliação em comum entre os cientistas pesquisadores:-  as crianças apresentam menos riscos de pegar covid-19 da forma grave. Porém as chances mais baixas não significa risco zero de óbitos. 

Pesquisas também apontam que crianças negras e de baixo poder aquisitivo são as que mais morrem pela doença. 

Partindo deste ponto, várias pesquisadoras tem se debruçado para chamar a atenção dos altos índices de mortes entre as crianças e o reflexo das desigualdades socioraciais.

A epidemiologista Fatima Marinho, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e da Vital Strategies, organização de saúde realizou um levantamento sobre crianças e covid-19 destacando  que       “A criança que está morrendo de covid-19 é a pobre, negra, que mora em favelas ou cidades menores. De famílias que são obrigadas a continuar trabalhando".

A pesquisa da professora Marinho afirma que 57% das crianças mortas pela Covid no Brasil, desde o início da pandemia, em março do ano passado, até abril deste ano, eram negras, 21,5%, brancas, 16% não tiveram a raça indicada, 4,4%, indígenas e 0,9 %, amarelas (de origem asiática).

O Brasil ocupa o indigesto ranking de segundo país no mundo com mais óbitos de crianças na pandemia. O país fica atrás apenas do vizinho Peru.

De acordo com o levantamento, 3.198 brasileiros, até os 14 anos, morreram devido a doença causada pelo SARS-CoV-2. O estudo chegou a essa conclusão por meio da comparação do número de mortos por SRAG (síndrome aguda grave não especificada) em 2019 com o período da pandemia. As informações foram tiradas do Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe), do Ministério da Saúde.

A Organização "A Sentidos do Nascer" lançou no Instagram pesquisa apontando que uma criança indígena de até 2 anos tem 5 vezes mais chance de óbito em casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por #Covid19 que uma criança branca na mesma faixa etária com um diagnóstico similar. 

"Desde março de 2020, o Brasil registrou 12.048 casos de SRAG por Covid em bebês de até 2 anos, mas só temos dados sobre raça/cor e desfecho da doença em 8.273 dessas crianças. Se olharmos somente para esses, vemos que 28% dos bebês indígenas que desenvolveram Covid-19 grave faleceram"( https://www.instagram.com/p/CWEdfXKrVdp/?utm_medium=copy_link ).

Em maio de 2021, vários pesquisadores apresentaram vários pontos negativos das subnotificações “Mortes de bebês por Covid-19 no Brasil podem ser o triplo do número oficial, estima levantamento”.

No ano passado, 2020, a FIOCRUZ fez uma analise dados sobre mortes de crianças por Covid-19. Os dados estratificados no SIM , permitiu a FIOCRUZ  mensurasse  o impacto da Covid-19 entre menores de 18 anos.  Com este feito, foram registrados 1.207 óbitos nessa faixa etária, sendo 110 entre recém-nascidos com menos de 28 dias de vida.

A FIOCRUZ esperava que as conclusões orientassem as políticas públicas para o enfrentamento da pandemia. Postura também apontada por outras instituições de defesa dos direitos humanos e de mulheres.

Pesquisadores do Children's National Hospital, em Washington, nos Estados Unidos, divulgaram um novo estudo sobre a Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças (MIS-C), associada à covid-19. O problema afeta, em maior número, crianças negras (46%) e latinas (35%), em comparação com crianças brancas (19%). O levantamento, publicado no The Journal of Pediatrics, avaliou 124 pacientes pediátricos – a partir de 7 anos - e descobriu que as crianças negras estão sob maior risco de desenvolver a síndrome pós-covid.

Entre os sintomas das complicações da doença observados estão problemas cardíacos, disfunção miocárdica sistólica e regurgitação valvar. Das 124 crianças, 63 foram diagnosticadas com MIS-C e comparadas com 61 pacientes considerados controlados, que apresentaram sintomas semelhantes, mas tiveram diagnóstico alternativo.

No Brasil mesmo com todos os estudos apontando para um caminho seguro da vacinação entre as crianças, o Governo Federal novamente, contraria a ciência e, faz  uma série de exigências como:- prescrição médica e assinatura de termo de consentimento pelos pais para as crianças tomar vacina. 

Tal atitude cria ainda mais dificuldades no acesso a medidas preventivas da COVID. 

Os  pais e responsáveis já são obrigados a estar presente em qualquer que seja a vacinação aplicada. Não justifica esta determinação. Ao meu ver  uma tentativa de intimidação velada.   

Com este senário, onde definições para a saúde pública deveriam primeiramente preservar as vidas,  as definições do Ministério da Saúde no Brasil se tornam cada dia mais política e ideológica.  

Uma nota técnica assinada pela secretária extraordinária de enfrentamento à Covid-19, Rosana Leite de Melo, e enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirma que a vacina contra Covid para crianças de 5 a 11 anos é segura.

Vários gestores de saúde nos Estados e municípios brasileiros se pronunciaram contra  a prescrição médica exigida pelo MS(Ministério da Saúde). Em todas as falas que eu pude ouvir e ler, ambos, apontam que tal prescrição cria uma serie de problemas de infraestrutura, impossibilitando o acesso seguro e igualitário.  

 

 Fontes: UFMG/R7/Yahoo/Google/ Sentidos do Nascer/ CRIOLA  

 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Quanto fica com as mulheres negras? Estudo traz análises das desigualdades de renda no Brasil


 


Por Mônica Aguiar 

"A partir dessas informações, salta aos olhos uma desigualdade significativa interracial, seja quando olhamos a composição de cada grupo de rendimentos, seja quando olhamos a parcela da renda apropriada por grupos demográficos".

Um estudo desenvolvido por pesquisadores Ana Bottega, Isabela Bouza, Matias Cardomingo, Luiza Nassif Pires e Fernanda Peron Pereira divulgado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) , fez a vez nas mídias do pais nesta semana.  

Ao avaliar a renda dos brasileiros  identificaram uma estatística entre aquelas que expõem o quadro da desigualdade no país historicamente denunciadas através dos movimentos de mulheres negras que : 705 mil homens brancos que integram o grupo do 1% mais rico da população detêm 15,3% da renda nacional. Este percentual significa um montante maior que o de todas as brasileiras negras adultas juntas, que compõem 14,3% da renda.

O grupo agregou informações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), da Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (POF-IBGE) e do Sistema das Contas Nacionais, também do IBGE.  

A renda média mensal dos homens brancos que integram o 1% mais rico da população é de R$ 114.944,50, enquanto entre as mulheres negras o indicador registra renda de R$ 1.691,45. Este último grupo representa 26% da população adulta do Brasil. Já os homens brancos que estão entre os mais abastados ocupam 0,56% do contingente nacional.

A concentração de renda identificada pelos pesquisadores está expressa em outros números já editados.

Os 10% mais ricos da população em geral respondem por 54% da renda nacional, enquanto o 1% mais rico da pirâmide social brasileira abocanha 24,6% da renda total. Já o grupo do 0,1% mais abastado do país representa 12,2%, o correspondente a quase um oitavo da renda.

“Não é segredo as diferenças entre homens e mulheres, que fica mais acentuada quando olhamos para os privilégios vividos por homens brancos, distantes da realidade de mulheres negras do Brasil”. 

Com base nesses números, a pesquisa sugere que é de suma importância “dar atenção especial às mulheres negras em estudos e desenhos de políticas públicas”

Mas os números não significam que não existam mulheres negras ocupando o topo. Existem, mas em proporções absurdamente menores. Homens brancos e mulheres negras estão em extremos totalmente opostos da apropriação de renda. Segundo a publicação, observando a parcela das maiores rendas do país, os homens brancos detêm aproximadamente 28% da renda, contra 4% da apropriada pelas mulheres negras. “Ou seja, a parcela da renda recebida pelos homens brancos nos 10% mais ricos é sete vezes maior que a das mulheres negras nesse mesmo decil”, revelou o trabalho. 

O quadro se inverte por completo quando analisamos os 0,1% mais ricos do Brasil: 83% são brancos e 17% negros. “A população se torna proporcionalmente mais branca quando avançamos em direção aos décimos de renda mais elevados”,

Termina sugerindo que como uma medida para o enfrentamento dessa distorção a retomada da tributação de lucros e dividendos, que representariam 22% da renda dos 1% mais ricos do Brasil. Além disso, destaca que, mesmo entre os 1% mais ricos, os homens brancos se apropriam de 55% de todo os lucros e dividendos declarados, enquanto 18% ficam com as mulheres brancas e homens e mulheres negras somados ficam com apenas 10%.

estudo divulgado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) 

 

 Fontes : Correio Brasiliense/Sul 21/Brasil de Fato/UOL 

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