domingo, 3 de março de 2013

A vida de uma mulher equivale a uma lata de manteiga?


Por : Francisca Sena 



Em 2006, o noticiário divulgou o julgamento de uma jovem de 19 anos,

empregada doméstica, por ter tentado roubar um pote de manteiga num comércio 

em São Paulo. O roubo foi evitado pelo dono do estabelecimento. A jovem foi 


condenada a 4 anos de prisão, em regime semi-aberto. 


Em fevereiro de 2008, Antonio Francisco Araújo da Silva cometeu um grave 

crime no interior do Ceará, na cidade de Ubajara. Espancou todo o corpo e deu 

marteladas na cabeça de Francisca das Chagas Oliveira (conhecida como Fran), 

mulher com quem era casado. Fran, depois de muito machucada, inclusive com

 afundamento da caixa craniana, desmaiou em meio a tamanha agressividade. O 

desmaio fez o agressor acreditar que ela havia morrido e por isso ele parou com 

seu ataque de fúria. Fran sobreviveu, mas em decorrência desse crime brutal, até 

hoje tem sequelas que alteraram radicalmente a sua vida: toma medicamentos, 

vive submetida a tratamento psicológico, perdeu 50% da audição e sofre com 

dores no braço direito, entre outras. A dor e o transtorno na família de Fran 


também não podem ser esquecidos.




Diante da impossibilidade de apagar esse crime na história de sua vida, ao longo 

desses 5 anos, familiares e amigas/os da Fran, movimentos feministas - em 

especial o Movimento Ibiapabano de Mulheres - MIM, vem clamando por justiça, 

na tentativa desse crime não ficar impune. Esse sentimento foi alimentado ainda 

mais pelo fato do acusado não ter ficado preso um dia sequer pelo crime 


cometido. 



Ontem, 27/02, finalmente Antonio Silva foi julgado no Fórum Clóvis Bevilaqua, 

em Fortaleza. Ao final do julgamento, veio a sentença: 4 anos de condenação em 

regime aberto. O argumento absurdo de que o agressor não tem antecedentes 


criminais, funcionou mais uma vez para abrandar a pena. 




A condenação do Antonio Francisco Araujo da Silva foi mais amena do que a da 

jovem mulher que tentou roubar uma lata de manteiga, alegadamente para ajudar 

aliviar a fome do seu filho. Isso nos faz concluir que a vida de uma mulher vale 

menos do que uma lata de manteiga. Como pode haver uma mesma punição para 

dois casos tão díspares, quando o primeiro relaciona-se com a possível violação 

de uma mercadoria e o outro caso, tem relação com a violação efetiva da vida de 


uma mulher? 



Enquanto ainda estamos inconformadas com a sentença, permanece em nós os 

sentimentos ruins provocado durante o julgamento, ao rememorar os fatos da 

violência e tocar novemente nas feridas. Tudo isso diante do agressor, frio, 

calculista. Há quem o classifique como “monstro”, mas queremos considerá-lo na 

sua condição humana e por isso mesmo, tem a consciência de que a sua presença 

no mundo tem uma dimensão ética, que o torna capaz de tomar decisões, de fazer 

escolhas, de prever as consequências dos seus atos, de viver em relação com 

suas/seus semelhantes. Não, ele não é monstro! 

É um homem, adulto, machista,  que certamente aprendeu a acreditar ser o dono da 

vida das mulheres com quem se relaciona, que usa da força e da violência contra 

as mulheres para impor suas vontades e interesses, que estabelece uma relação 

desigual com uma mulher e se acha no direito de maltratá-la, de espancá-la e de 

tentar tirar sua vida 

covardemente, que usa a violência como recurso para resolução de conflitos. 

Temos que reconhecer que esse comportamento é tipicamente humano. Somente o 

considerando humano, é que podemos querer que ele assuma a consequência dos 

seus atos, que ele seja punido por ter cometido um grave crime de violência 

contra a mulher, que podemos pressionar a justiça para retirar do criminoso o 

direito de ir e vir livremente. Mas se um crime desta gravidade não é devidamente 

punido, fica um péssimo exemplo para outros homens que são ou que poderão ser 


violentos com as mulheres que estão em volta deles.



E o que tudo isso tem a ver com cada uma/um de nós? Qual a nossa 

responsabilidade em desconstruir as bases de uma sociedade marcadamente 

machista? Quando ousaremos educar nossas crianças para a igualdade e o respeito 

entre mulheres e homens? Que mudanças no cotidiano podemos fazer para que 

outros Antônios não sejam formados e outras Franciscas não sejam vítimas de 

violência sexista? Quando teremos a ousadia de semear outros valores para 

nossos meninos em formação? Quando deixaremos de presentear nossos filhos 

com revólveres e espadas de brinquedo, para que eles aprendam desde cedo a 

exercitar a violência? Quando exigiremos que a justiça brasileira não amenize os 

crimes de violência contra as mulheres, sob o pífio argumento de que o homem 


não tem antecedentes criminais? Até quando a violência contra as mulheres?



A violência sofrida pela Fran nos enche de indignação! E nossa indignação é 

porque esta sentença deixa em nós o sabor de impunidade; porque certamente este 

homem não cumprirá nem metade desta pena; porque ele permanecerá solto 

representando uma ameaça à vida de Fran, de sua família e também de outras 

mulheres que se aproximarem dele; porque a justiça é cega para os crimes 

cometidos contra as mulheres; porque esse crime não é isolado, mas engrossa as 

estatísticas da marca de 1 bilhão de mulheres que sofre com a violência em todo o 


mundo.



Mas esta indignação, aliada ao desejo de justiça, também nos mobiliza. Em nome 


delas continuaremos a ir pras ruas, a levantar nossas bandeiras, a lutar pelo fim da 

violência contra as mulheres, a tocar tambores denunciando as opressões e, 

sobretudo, a continuar lutando pela defesa, efetivação e ampliação dos direitos 


das mulheres. 




Enquanto houver injustiça, sempre haverá luta!!!


Francisca Sena – militante do Instituto Negra do Ceará e


 do Fórum Cearense de 

Mulheres

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