sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O imaginário social da mulher negra e o racismo


Por : Juliana Gonçalves 

No dia 11 de setembro, o perfil do CEERT nas redes sociais compartilhou uma carta aberta contra o programa Zorra Total, intitulada “Racismo não tem graça nenhuma!”. 

O documento, construído coletivamente e assinado por diversas entidades que compõem o Fórum Permanente de Igualdade Racial (FOPIR), manifesta o total repúdio ao quadro intitulado “Adelaide” do programa Zorra Total, veiculado semanalmente pela TV Globo. 

Desde o começo da veiculação desse quadro, ficou evidente a utilização de um suposto humor que na verdade manifesta falas e imagens racistas, sexistas e que carregam estereótipos ofensivos à mulher negra. 

Na carta, um episódio foi citado para ilustrar o quanto “Adelaide” é ofensiva. O coreógrafo Carlinhos de Jesus é convidado para o quadro na condição de padrinho da filha de Adelaide e diz à menina que vai lhe presentear com um pente de alisar o cabelo, pois assim ela ficaria mais bonita. 

Leia a carta de repúdio na íntegra,  aqui. 

Notem que esse é um discurso que há anos o Movimento Negro e de Mulheres tenta combater. A ideia de que o cabelo afro é “ruim” ainda impera em nossa sociedade, na cabeça de homens e mulheres, de pessoas brancas e negras. Adelaide para além de ofensiva é perigosa ao reforçar a discriminação e o preconceito racial e de gênero. 

A estética negra sempre foi alvo de ataques racistas. É justamente essa estética que vem se fortalecendo e hoje vemos como cabelos afros, por exemplo, são mais do que a aceitação do seu corpo, são símbolos de expressividade, militância e valorização à ancestralidade negra. 

A possibilidade de alisar o cabelo, oferecida à filha de Adelaide, não é apenas uma tentativa vã na busca de se assemelhar à estética branca, mas também de inferiorizar a estética negra da menina. 
Creio que a personagem do programa, infelizmente, faça tanto sucesso, pois apresenta ainda o imaginário social que impera sobre a mulher negra. É triste perceber que essa imagem ainda seja recheada de estereótipos racistas. O nosso desafio é mudar isso. 

No Facebook, a postagem sobre a carta foi compartilhada 1.216 vezes, mais 21 vezes na Fan Page do CEERT e recebeu mais de 30 comentários no site. Espero que mais e mais pessoas, leiam e reflitam sobre Adelaide. Dar risada de Adelaide é rir da cara, cabelo, cor e história do nosso próprio povo. 


JULIANA GONÇALVES, jornalista e consultora de Comunicação do CEERT. 
Membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – Cojira-SP. 

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