A tradução em Iorubá,
Atinúké significa "aquela que merece carinho desde a gestação".
Assim como a história e a cultura da matriz africana de
valorização dos legados, a semente das Atinúkés germinou; sua luta criou raízes
africanas em Porto Alegre, e a sua influência fez florescer o Grupo de Estudos
sobre o Pensamento de Mulheres Negras Atinúké e, posteriormente, o Coletivo
Atinúké. "O que as mulheres negras escrevem é a partir de suas
vivências", aponta Nina Fola, mestranda em Sociologia e uma das
idealizadoras do curso.
Com essa perspectiva, o grupo busca unir a propriedade
intelectual e as experiências de ser uma mulher negra para fortalecer os
objetos de estudo do grupo. Criado em 2015, o Grupo de Estudos sobre o Pensamento
de Mulheres Negras surgiu do encontro de Giane Escobar, Fernanda Oliveira e
Nina Fola na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A ideia de
formalizar um grupo de estudos para abordar perspectivas que foram
negligenciadas pela academia, culminou na criação do Curso Atinúké, que
encontrou seu espaço físico no Ponto de Cultura Áfricanamente, no bairro
Independência, na capital gaúcha.
O curso teve inicio em 2016, com o
objetivo de extrair intelectualidade de mulheres negras, inserindo-as nas
discussões, acadêmicas ou não, através do entendimento de pluralidade do
pensamento.
Distanciando-se da sistemática clássica das universidades, a
metodologia utilizada nas aulas experimenta música, dança, teatro, textos
acadêmicos e todas as relações possíveis de produção artística e científica.
Já
o coletivo Atinúké surgiu há dois anos para suprir demandas organizacionais do
grupo de estudos e conta com 20 participantes atualmente. "Buscamos
refletir um pensamento diferente, distanciando-nos da visão eurocêntrica da
academia, de forma que as pessoas consigam entender a pluralidade no pensamento
de mulheres negras", explica Fernanda.
De um modo geral, as autoras
trabalhadas são majoritariamente afro-brasileiras, mas algumas africanas também
são objetos de estudo. Nas quatro edições até hoje, o Atinúké ensinou e
aprendeu com mais de 120 mulheres que compartilharam seus conhecimentos e
vivências através da produção teórica e cultural.
Para participar do grupo de
estudos é necessário passar por um processo seletivo, no qual as organizadoras
utilizam de critérios afirmativos para compor a turma. Embora as temáticas
trabalhadas nas aulas tenham grande parte de influência da turma que a compõe,
o plano metodológico conta com seis módulos, nos quais os temas pluralidade,
religiosidade, afetividade, política e saúde são abordados pelo grupo, bem como
um apanhado geral dos temas expostos.
Para Fernanda, a definição de eixos de
reflexão serve para entender a complexidade do pensamento, mas o
compartilhamento de experiências torna cada turma única.
A Lei nº 12.711,
sancionada em 2012 e conhecida popularmente como Lei de Cotas, abriu caminho
para a inserção dos negros no Ensino Superior, mas isso evidenciou outros
pontos a serem trabalhados dentro dessa questão. Como Nina expõe: "já
estamos vivendo o resultado da lei de cotas, e nessa inserção maior da
comunidade negra na universidade, a gente percebe a dificuldade em falar dos
nossos temas".
Esse distanciamento serviu como uma motivação para a
criação do projeto, que atua como uma via de mão dupla, tanto no sentido de
aproximar quem não está inserida no meio universitário, quanto as acadêmicas
que buscam aprofundar seus conhecimentos de forma plural e reforçada na base da
troca de experiências.
Na questão de fortalecer referenciais teóricos
relacionados aos objetos de estudo do grupo, o Atinúké firmou parceria com o
Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS), da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), e a Festipoa Literária para a criação de
um curso de extensão sobre a obra da escritora e ativista antirracista Sueli
Carneiro.
A realização de uma leitura sistêmica, e de um estudo direcionado
sobre a obra de um pensador, é algo bastante comum no universo acadêmico, como
interpreta Nina, mas trabalhar uma mulher negra com vasta produção é a
confirmação desse novo momento do pensamento brasileiro. Por meio desse
fortalecimento de propriedade intelectual, a atuação do grupo de estudos e do
coletivo também reflete a evolução acadêmica das participantes: "Nós
mesmas começamos como uma doutora, uma doutoranda e uma mestranda no grupo.
Hoje temos uma pós-doutora, quatro doutorandas e oito mestrandas nas mais
diversas áreas", conta Nina.
Fontes: Jornal do Comércio /Folhanobre
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