quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Escritoras Negras no Brasil

Escrito por Luciana Barreto
Uma luta contra a invisibilidade.
Escritoras
Há alguns anos, Toni Morrison, a única escritora negra a ganhar o Nobel de Literatura, esteve na Flip, a Festa Literária de Paraty. Causou muito furor. Façam uma busca rápida pela web e vão descobrir que os fotógrafos e fãs se amontoavam para conseguir um registro qualquer.  Em meio ao assédio, uma cena causou impacto. A americana premiada parou a agenda por um tempo para receber as colegas brasileiras. Estavam ali nomes conhecidos internacionalmente,  Conceição Evaristo Lia Vieira. Digo, internacionalmente, porque as duas escritoras não foram convidadas uma única vez sequer para compor a Festa Literária mais importante do Brasil. Como Lia prefere dizer, são muito celebradas fora do país, com dezenas de livros e filas enormes para autógrafos em salões do livro. Mas, por aqui…
Este já é um costume abrasileirado. O que dizer do fenômeno Carolina Maria de Jesus. A catadora de lixo negra e favelada, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2014, é uma das escritoras mais traduzidas do Brasil. Conseguiu projeção mundial. Já foi peça de teatro e tese acadêmica. E caiu no esquecimento. “O mercado é macho, branco e rico. Eles vão se interessar pela história que os homens contam. Primeiro vêm os homens, depois a mulher branca e, por último, as escritoras negras”, afirma Lia Vieira.
O universo da literatura feminina negra é recheado de estórias que celebram o ser negro. Trata-se de comprometimento, memória, ancestralidade, perdas, pobreza e superação. Um Brasil muito distante da Academia.  É uma literatura que incomoda. “Como diz [o escritor]Éle Semog, rimar amor com flor é mole. Agora, rimar flor com Vigário Geral é que é difícil. Só nós podemos”, explica Lia.
Escritoras já conhecidas do mercado editorial, como Ana Maria Gonçalves, Elisa Lucinda, Helena Theodoro, Miriam Alves e Cristiane Sobral, além de Conceição Evaristo e Lia Vieira trabalham com afinco pelo reconhecimento no Brasil. Lutam contra a invisibilidade. Para Lia Vieira, “a academia, a mídia e o marketing têm muita responsabilidade nisso. Os programas de TV, por exemplo, não convidam escritores negros”.
Quem está começando a se aventurar na mesma trajetória já reconhece as dificuldades. Clarissa Lima acaba de publicar seu primeiro livro, “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais”, e resume os obstáculos para a escritora negra. “Quando chegamos com a temática étnico-racial, mulher, jovem, preta, sem nunca ter publicado e vendido nada, é muito complicado”, lamenta.
Dificuldade, complicação, obstáculos e superação são a matéria prima da literatura afro-brasileira. “Nosso texto tem essa transversalidade. De onde saí e para onde vou. Mas sempre com olhar de esperança”. Bravo, Lia Vieira!
Algumas sugestões: Conceição Evaristo: “Poncia Vicencio”, “Becos da memória” e “Olhos d´água”. Lia Vieira: “Eu, mulher”, “Chica da Silva” e “Só as mulheres sangram”. Carolina Maria de Jesus: “Quarto de despejo”. Ana Maria Gonçalves – “Um defeito de cor”. Elisa Lucinda – “A fúria da beleza”, “Parem de falar mal da rotina”. Esmeralda Ribeiro – “Malungos e Milongas”. Helena Theodoro – “Os ibejis e o carnaval”, “Mito e espiritualidade – mulheres negras”. Miriam Alves – “Mulher Mat(r)iz”. Cristiane Sobral – “Não vou mais lavar os pratos”. Lívia Natália – “Preciosa”. Nina Silva – “InCorPoros – Nuances de Libido”. Íris Amâncio – “África para crianças”. Clarissa Lima – “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais”. Toni Morrison: “O olho mais azul”, “Song of Solomon” e “Amada”. 
Fonte: Site Luciana Barreto

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