terça-feira, 21 de abril de 2015

Obras da única mulher na equipe de Niemeyer em Brasília marcam capital

Marianne Peretti foi a única mulher a integrar a equipe de Oscar Niemeyer que atuou em Brasília (Foto: Breno Laprovitera/Divulgação)Marianne Peretti fez vitrais da Catedral e painéis de prédios do governo. Para a artista, de 87 anos, Brasília tem de manter 'espírito de grandeza'.

 Quem visita a Catedral de Brasília costuma ficar encantado com os vitrais modernistas, coloridos e harmônicos. Em prédios públicos, como o Congresso, Palácio do Jaburu, Memorial JK e Teatro Nacional, esculturas e painéis majestosos estão espalhados pelos salões. Essas obras foram desenhadas e produzidas pela única mulher na equipe de Oscar Niemeyer, a franco-brasileira Marianne Peretti, de 87 anos.  Ela é a responsável pelos vitrais da Catedral, da Câmara dos Deputados, do Panteão da Pátria, do Superior Tribunal de Justiça, do Palácio do Jaburu e do Memorial JK. Marianne também fez o mural do Museu do Carnaval, no Rio de Janeiro, e esculturas e vitrais em Recife, Belém do Pará e Paris. Nascida em Paris de mãe francesa e pai pernambucano, Marianne se mudou para São Paulo já adulta, em 1953, após se casar com um inglês que trabalhava na capital paulista e que conheceu em uma das inúmeras viagens de navio que fazia do Rio para a Europa, e vice-versa, para visitar a família.

Vitral da capela do Palácio do Jaburu, do vice-presidente da República, em Brasília (Foto: Marianne Peretti/ Arquivo Pessoal/Breno Laprovítera)
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Um ano antes, em 1952, ela realizou a primeira exposição na Place Vendôme, na capital francesa, onde morava na época, e contou com a presença do pintor surrealista espanhol Salvador Dalí na abertura. "Tive o prazer de ter ele lá. Era amigo dos donos da galeria e me falou: 'Você não é uma burguesa'. Fiquei extasiada de felicidade."
O gosto pela arte está presente na vida de Marianne desde criança, mas o trabalho com vitrais e obras em escalas monumentais se deu por acaso. "Eu pintava. Teve uma hora que deixei a arte de lado, mas não vi que não dava. Eu tinha uma filha quando me separei. Para nos sustentar, fazia vitrines de joias da H. Stern de São Paulo. Tinha que montar tudo direitinho, harmonizar as peças e criar. Logo comecei a fazer as vitrines para toda a rede. Trabalhei durante oito anos com isso. Mudei de emprego depois, criava estandes para exposições. Foi aí que comecei a ter contato com coisas grandes. Eu amei."
Eu simplesmente bati na porta dele [Niemeyer] e disse que gostaria de trabalhar com ele. Depois de três meses, voltei ao Rio e o encontrei de novo. Ele deve ter gostado muito de mim, porque já me deu um monte de trabalho, todos de Brasília"
Marianne Peretti, artista plástica
Conhecendo Niemeyer
Para conhecer e conversar com Niemeyer, Marianne diz ter sido "cara de pau". Ela ficou impressioanda com os traços do arquiteto ao ler uma reportagem em 1971 sobre um prédio projetado por ele em Milão, na Itália.
"Achei o desenho dele maravilhoso. Gostei tanto que pensei: 'Tenho que ver esse prédio imediatamente'. Peguei um avião no dia seguinte e fui para Milão."
No retorno a Recife, no mesmo ano, ela teve de fazer uma escala no Rio e então aproveitou a oportunidade para se apresentar a Niemeyer. "Aviões grandes não pousavam em Recife. Tinha que pegar um menor no Rio. Eu simplesmente bati na porta dele e disse que gostaria de trabalhar com ele. Depois de três meses, voltei ao Rio e o encontrei de novo. Ele deve ter gostado muito de mim, porque já me deu um monte de trabalho, todos de Brasília."
Interior da Catedral de Brasília (à esq.) e Marianne planejando vitrais do local (Foto: Marianne Peretti/ Arquivo Pessoal/Breno Laprovítera e Jarbas Jr)Desenvolvimento das obras
As obras de Brasília foram "pensadas" no Rio de Janeiro, onde Marianne morava. A artista viajava para a nova capital quinzenalmente para desenvolver e acompanhar os trabalhos. Quando pisou em Brasília, a capital já havia sido inaugurada, mas continuava em construção.
"Foi extenuante. A Catedral é minha obra favorita, mas foi a que mais me cansou. Era tudo muito grande e deu muito trabalho, cansaço e responsabilidade. Eu não morava nem nunca morei em Brasília, passava pequenas temporadas apenas. Em relação à cidade, me lembro da sensação de grandeza e gostei muito. Só que faltava alguma coisa e eu acho que dei isso. Tinha muito barro vermelho também."
Os vitrais da Catedral refletem uma característica da obra da artista plástica: a combinação entre grandeza, leveza e transparência das peças. "Eu não penso como fazer, eu simplesmente faço. Não tem preparação. Quem manda é o lugar e o tamanho. Para quem, onde... Tem gente que não gostava dos meus vitrais. Tem gente que falou que ia embora de Brasília. Eu disse então: 'Pode fazer suas malas'. Estava nem aí. Recebo até hoje carta elogiando a Catedral."
Da esquerda para a direita: Marianne Peretti, Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti, Oscar Niemeyer, José Sarney e Burle Max (Foto: Marianne Peretti - A ousadia da invenção/Arquivo Pessoal) 

Apesar de ter sido a única mulher a trabalhar em Brasília com Niemeyer, Marianne diz nunca ter sofrido preconceito por parte dos colegas. "Eram normais, não eram desagradáveis."



Nas palavras de Niemeyer

Oscar Niemeyer deu liberdade para Marianne trabalhar e falava que se emocionava ao ver a artista debruçada sobre as folhas de papel vegetal, elaborando as obras. Para ele, os feitos são comparáveis aos da Renascença e reconheceu isso em uma carta escrita à mão.
 "Marianne Peretti é uma artista de excepcional talento. Os vitrais maravilhosos que criou para a Catedral de Brasília são comparáveis, pelo seu valor e esforço físico, às monumentais obras da Renascença. Sua preocupação invariável é inventar coisas novas, influir com seu trabalho no campo das artes plásticas."

Filosofia
Entre idas e vindas pelo Brasil, a artista não acredita que mudanças de endereço tenham influenciado a maneira dela de se expressar. "Eu sou sempre a mesma pessoa. Isso não importa. Pode ser que tenha alguma coisa, mas você tem sempre as mesmas ideias."
Além dos vitrais e painéis, outros "xodós" de Marianne são as esculturas, os nanquins e os desenhos para livros que criou. Em 1959, ela participou da 5ª Bienal de São Paulo e ganhou um prêmio no evento com a capa do livro "As palavras", de Jean-Paul Sartre.
"Não tenho uma preferência. Adoro eles, porque, em geral, são grandes. Só quero que me deêm espaço para trabalhar. Hoje tenho uma equipe que me ajuda e um jardim grande em casa. Gosto muito disso tudo."
 Para Marianne, a capital se destaca de todas as outras cidades pela "escala monumental das obras". "É a marca da cidade. Me sinto bem e espero que as outras pessoas também. É uma capital pensada por gente muito interessante, com visão de grandeza. Tem que manter esse espírito."
Um dos pontos negativos apontados por ela é o aumento não planejado da população brasiliense. Pensado para 500 mil habitantes, o Distrito Federal conta com quase 2,5 milhões de pessoas. "Não sei como é atualmente, muda muito, mas sei que tem muito mais gente do que o imaginado. É importante guardar a ideia original e o gramado da Esplanada. Tem muito show, evento e carro, né? Tem que guardar a beleza do lugar."

Fonte e foto: G1

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