segunda-feira, 10 de junho de 2019

O primeiro longa de animação dirigido por uma mulher negra no Brasil

APIÁRIO/DIVULGAÇÃO 

 A produção mineira “Ana, En Passant” deverá ser o primeiro longa-metragem de animação do país assinado por uma diretora negra. Previsto para estrear em 2022, o filme de Fernanda Salgado já começa a trilhar seu caminho, sendo o único projeto brasileiro selecionado para participar do Feature Films Mifa Pitches, área de mercado do Festival Internacional de Annecy, na França, o mais importante da animação no mundo.

Estamos muito felizes com a seleção. Hoje em dia o panorama das produções se baseia em conexões em redes internacionais, que começa no desenvolvimento e vai até a distribuição”, observa Fernanda, que já está em Annecy para as rodadas de negócio ao lado de animações da França, EUA, China, Dinamarca e Itália. O festival tem início hoje e, nos últimos anos, teve participação destacada de filmes brasileiros (“Uma História de Amor e Fúria” e “Menino e o Mundo”).

Em fase de desenvolvimento pela produtora mineira  Apiário, a animação terá 80 minutos e acompanhará a história de Ana, uma mulher negra que, em busca de um apartamento, encontra Alice, que é idêntica a ela. Face a face, elas descobrirão o que significa se tornar quem são, enquanto descobrem novos caminhos em meio às memórias, linguagens e imagens de inúmeras cidades inventadas.

Reconhecimento
“É a história de uma mulher em jornada de reconhecimento, buscando conhecer a si mesma, quem é ela em relação aos outros e o espaço que ela ocupa”, registra Fernanda, que estreará na direção de uma animação. 

Antes, a mineira participou como produtora do curta “Balanços e Milkshakes”, considerado, no ano passado, um dos 100 melhores filmes brasileiros na história desta técnica, em votação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

O fato de contar com duas protagonistas negras não significa que o filme se debruçará sobre a temática, como frisa Fernanda. “Para mim, como mulher negra, é fundamental possibilitar a criação de histórias com protagonistas negras. Sem, necessariamente, querer discutir questões de gênero e raça. Ao colocar personagens vivendo e construindo suas próprias questões, estamos dando visibilidade a estas mulheres negras”, assinala.

Belo Horizonte na tela

Outra curiosidade de “Ana, En Passant” é a questão geográfica, com Belo Horizonte surgindo como um “personagem” à parte na animação. “A gente verá a cidade como um polo cultural, com a presença do Carnaval, que se tornou um dos mais destacados do país, e de importância política. É inevitável que pontos emblemáticos, como a rua Sapucaí e a Praça Sete, façam parte desta narrativa”, revela Fernanda.

Apesar de ser francesa, Ana tem raízes no Brasil, terra natal da avó. “Após a morte dela, Anna virá a Belo Horizonte para encontrar uma história que é dela também”, comenta a realizadora, que misturará várias técnicas de animação no filme, entre elas a rotoscopia, em que o modelo humano é filmado ou fotografado em sequência e o desenho é feito com base nessa “captura”, a partir de um aparelho chamado rotoscópio. 


Outra mineira também de Belo Horizonte, Adélia Sampaio, foi a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. “Amor maldito” (1984). Baseado em fatos reais, conta a história do amor entre duas jovens mulheres, a executiva Fernanda Maia (Monique Lafond) e a ex-miss, filha de um pastor evangélico, Suely Oliveira (Wilma Dias). Porém, Sueli se cansa do relacionamento e envolve-se com um jornalista. 

Durante toda a carreira, Adélia vivenciou inúmeras situações de machismo e racismo dentro do set, principalmente ao tentar dar mais visibilidade para profissionais negros.


Representatividade 


A representatividade das mulheres negras no cinema reflete esse preconceito até hoje. Uma pesquisa recente realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), com filmes de grande público (mais de 500 mil espectadores) no Brasil, entre os anos de 1970 e 2016, indica que, na direção, apenas 2% eram mulheres. Isso apenas mostra o tamanho da batalha de Adélia, cujo último trabalho é um documentário de 2004 chamado AI5, o dia que não existiu, que codirigiu com Paulo Markun.

Fontes: Hoje em Dia/ Geledes/ Catraca Livre...

terça-feira, 4 de junho de 2019

Sephora fecha suas lojas nos EUA por um dia após incidente racista com a cantora SZA

Por Elpais Nova York

A artista afro-americana denunciou no começo de maio que uma funcionária de uma filial da marca na Califórnia chamou um segurança para se assegurar de que ela não estava furtando cosméticos

A cantora SZA acena no tapete vermelho do
Oscar-2019  (REUTERS)

A rede de beleza Sephora, pertencente ao grupo LVMH, anunciou que fechará nesta quarta-feira, 5, todas as suas lojas dos Estados Unidos (são mais de 400), além de seus centros de distribuição e escritórios corporativos, para realizar um curso de formação sobre diversidade para seus funcionários, um movimento que ocorre após um caso de racismo envolvendo a cantora de rhythm and blues SZA.
A artista afro-americana, indicada a vários prêmios Grammy em 2017, denunciou através de sua conta no Twitter, com 2,6 milhões de seguidores, que uma funcionária da loja Sephora em Calabasas (Califórnia) chamou o segurança para comprovar que ela não estava roubando nada. "LMAO [‘me cagando de rir’]. A Sandy, da loja Sephora no [shopping center] Calabasas [loja] 614, chamou o segurança para assegurar que eu não estava roubando. Tivemos uma longa conversa. Tenha um bom dia Sandy", escreveu SZA em 1º de maio, o que um mês depois levou a Sephora a decidir fechar a empresa por um dia para instruir seus funcionários e evitar novos incidentes racistas no futuro.
Os diretores e porta-vozes da Sephora e LVMH não quiseram responder sobre os motivos do treinamento a seus funcionários, que a empresa descreveu como "oficinas de inclusão". A Sephora respondeu a SZA, também via Twitter, logo depois da postagem original. "Você é parte da família Sephora, e estamos comprometidos para assegurar que cada membro de nossa comunidade se sinta bem-vindo e incluído em nossas lojas", disse a companhia. SZA trabalhou em uma loja da Sephora no passado. Em seu site, a empresa anunciou a formação da seguinte forma: "Nunca deixaremos de construir uma comunidade onde a diversidade seja esperada, a liberdade de expressão seja honrada, todos sejam bem-vindos e você seja incluído".
Depois do tuíte de SZA, as buscas pela Sephora no Google subiram, e muitos usuários da rede criticaram a empresa de cosméticos pelo incidente. O fechamento das lojas ocorre um ano depois de outra companhia, a norte-americana Starbucks, fechar suas 8.000 lojas nos EUA por um dia para um treinamento antirracista, depois de um incidente em uma de suas cafeterias em Filadélfia, cujo gerente chamou a polícia para deter dois homens negros que simplesmente estavam esperando um amigo para tomar um café.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Livraria Africanidades promoveu debate sobre descolonização do currículo escolar

Encontro contou com a presença da pesquisadora, professora e escritora Sirlene Barbosa
Foi dia na primeira semana de maio na Livraria Africanidades palco do  debate “A Descolonização do Currículo Escolar e Carolina Maria de Jesus” e contou com a presença da pesquisadora, professora e autora Sirlene Barbosa, em uma roda de conversa.
O evento teve como objetivo promover um debate sobre as tensões e os processos de descolonização dos currículos escolares e também falou de uma das principais escritoras brasileiras, que é a Carolina Maria de Jesus. 
No local houve a venda do livro HQ Carolina, escrito por Sirlene Barbosa e João Pinheiro, publicado pela editora Veneta e premiado no Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França. O livro com roteiro e desenhos de João Pinheiro, baseado na pesquisa de Sirlene Barbosa, conta a história da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), a autora de Quarto de Despejo, livro publicado em mais 13 países nos anos 1960, e que narra seu cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo.
A ação foi aberta ao público em geral, principalmente para docentes, pesquisadores e profissionais nas áreas de educação e cultura. 

Quem é Sirlene Barbosa ? 
Sirlene Barbosa é professora de língua portuguesa da Rede Municipal Paulista. É mestra em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP; coautora de “Carolina”, indicada ao Jabuti 2017 e ganhadora do maior prêmio de HQ da Europa, o francês Angoulême. Suas pesquisas atuais abrangem os seguintes temas: literatura negra brasileira (a que tem o negro como protagonista da narrativa e não como mero objeto de pesquisa); e relações étnico-raciais na educação básica da cidade de São Paulo. Em suma, trabalha com foco na descolonização do currículo educacional, ou seja: inserir vozes de grupos tidos como minorias, mas que são uma maioria calada, no caso do recorte desta pesquisadora, o foco está na questão dos negros.
Vale destacar que a Livraria Africanidades e Do Morro Produções advertem que o espaço que será realizado o evento é um território livre de racismo, gordofobia, sexismo, machismo, lesbofobia, transfobia, homofobia, fascismo e qualquer outra forma de opressão.

Fonte:Margens 
Reedição :Mônica Aguiar 

Mulheres que cumprem pena na Penitenciária Feminina da Capital lançam livro de poesias em SP

Projeto batizado como ‘Sarau Asas Abertas’ realizou oficinas de leitura e escrita criativa e reuniu textos produzidos em antologia inédita
Ocorre na próxima quarta-feira (29) às 16h30 o lançamento do livro “Sarau Asas Abertas – Mulheres Poetas – Penitenciária Feminina da Capital” na Penitenciária Feminina da Capital com a participação de 48 poetas que são reeducandas do espaço, no Carandiru, na zona norte de São Paulo (SP) pela Edições do Tietê, através do Coletivo Poetas do Tietê.
O lançamento conta também com um sarau e apresentação das mulheres que cumprem pena, porém, é fechado a convidados. Ao todo, o Coletivo Poetas do Tietê, que é quem encabeça a ação há três anos e realiza, semanalmente, oficinas de leitura e escrita criativa, imprimiu mil exemplares da obra e a maior parte será distribuída gratuitamente, sendo que 250 serão doados às autoras, 200 à unidades da Fundação CASA, 100 para a Secretaria Municipal de Cultural, 50 à biblioteca e direção da Penitenciária Feminina da Capital e o restante será usado em ações do coletivo.
É importante destacar que quem criou o Sarau Asas Abertas foi Jaime Queiroga em 2015, no Semiaberto do Butantã. Em seguida, os Poetas do Tietê abraçaram e desde então já fizeram mais de 50 saraus em Fundações CASA, e desde, 2016 também na Penitenciária Masculina Adriano Marrey e na Feminina da Capital (PFC). Nessas duas penitenciárias o trabalho é semanal.
“Temos uma afeição especial por este projeto, pois além de acreditarmos na arte como instrumento de promoção de autoestima e conscientização, construímos ao longo dessas mais de 80 visitas que já realizamos aqui, uma relação de troca de aprendizados e afetos com estas mulheres. O projeto nos transformou”, explicam o poeta Paulo D´Auria, a atriz Cissa Lourenço e a advogada e ativista do movimento negro, Mayara Silva de Souza, alguns dos integrantes do Sarau Asas Abertas na PFC que semanalmente trocam saberes com as mulheres que cumprem pena no espaço.
“Muitas das mulheres que participam do sarau foram abandonadas por seus maridos e familiares, muitas são de outros países e não têm parentes ou amigos no Brasil, estão sozinhas aqui e estão psicologicamente vulneráveis. Para elas, nossa entrada semanal é mais do que uma oficina, é uma prova de que elas são importantes. Juntos, construímos uma relação de confiança, como uma família e que agora ganha um álbum, que é nosso livro”, disseram os organizadores.
A obra conta com apresentação de Jaime Queiroga, criador do projeto, mas todo restante do livro foi produzido pelas reeducandas: a colagem da capa, as ilustrações internas e as outras três apresentações, feitas por algumas das mulheres que participam do sarau, Talita Bomfim, Edivânia e Divina Moura.
Entre as curiosidades do livro estão alguns que tiveram poemas escritos com palavras em português e espanhol, misturando os dois idiomas. Entre as autoras há mulheres argentinas, venezuelanas e peruanas. “São mulheres latino-americanas que se encontram no cárcere brasileiro há anos e nele têm desenvolvido esse linguajar peculiar. Nestes casos, optamos por manter os textos originais, só lançando mão da tradução para o português quando o texto foi escrito predominantemente em espanhol”, explicaram os organizadores.
Vale destacar que além do livro, o coletivo lançou a revista Poesia Sem Medo, distribuída de forma gratuita nos saraus paulistanos e também em saraus realizados nas unidades da Fundação Casa.
Confira três poemas de autoras da antologia

SORRISO
FIONA CHRISTINA VAN DE WALLE
Quem é essa pessoa com um sorriso?
Alguém com muitas emoções
que está lutando para se manter forte e calma
e, acima de tudo, positiva.
É uma mulher usando uma máscara para encarar estranhos
que demora para revelar sua personalidade verdadeira,
oque sente.
Apenas aqueles que realmente a conhecem
sabem quando ela está bem ou não
apenas para esses, a máscara é retirada, e o estrago é revelado.
Que passou por tanto na vida e ainda
se mantém de pé,
a perda de seu filho, a necessidade de lidar com sua morte
e, às vezes, ela está feliz mesmo sem a máscara
então, está em um dia bom.
Eu aprendi muito aqui
aprendi a me manter calma
a não deixar a bomba-relógio explodir
e um dia não precisarei mais da máscara
e meu sorriso não será disfarce
para meus sentimentos verdadeiros
UM LUGAR SOMBRIO
SANDRA C. MARQUES
Um lugar sombrio
mas onde a luz se faz presente em seu coração.
A saudade nos traz lembranças que doem no peito,
a liberdade traz oportunidades que temos que aproveitar, o mundo não vai parar.
Aprenda que a vida traz chances
e só você faz o seu mundo ser livre.
Não quero ter coroa, mas vou ser rainha neste castelo de pedra.
A liberdade não precisa ser só na palavra,
mas sai com a mente livre para conquistar o mundo.
Seja como eu: Venha para fora para conquistar
COMUNIDADE NO RIO AMAZONAS
KETLEM CRISTINA FARIAS DE OLIVEIRA
Ela filha da terra
dadivada pelos deuses,
ela nasceu na cidade
mas frequenta as comunidades.
Desce da canoa, lá vêm eles,
os caboclinhos mirim
descalços,
curiosos,
tímidos,
os motivos são claramente visíveis
e chegar é ter o prazer de sentir-se
uma obra-prima.
Se vê a honestidade.
Olhar nos olhos castanhos:
se confiável, há proximidade,
chega perto
toca
alisa
admira.
Íntimos sentimentos da natureza
ao voltar da comunidade
pra cidade
no silêncio suave
no vento, sede do rio
escutando o pulsar das águas
do coração ribeirinho.
Após este lançamento, está previsto outro lançamento para o mês de julho, desta vez aberto ao público, na Biblioteca Mário de Andrade.
Serviço
Lançamento “Sarau Asas Abertas – Mulheres Poetas – Penitenciária Feminina da Capital”
Quando: 29 de maio às 16h30
Onde: Penitenciária Feminina da Capital
Realização: Poetas do Tietê e Prefeitura Municipal de São Paulo


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Mulheres negras: Racismo, preconceito, violência e até feminicídio

Por:  Cinthia Abreu/ Ascom DPE-TO
Joelma Evangelista, moradora da cidade de Sucupira, foi morta com dois tiros pelo ex-marido que não aceitava o fim do relacionamento. Patrícia Alves Fernandes, 18 anos, foi morta pelo ex-namorado com cinco facadas, em Miranorte. A separação do casal teria sido motivada por constantes brigas entre os dois. Taísa Ribeiro, 34 anos, foi morta por asfixia supostamente por um vizinho – o motivo: o suspeito mantinha uma paixão não correspondida pela vítima. O que esses nomes têm em comum? São mulheres, negras e foram violentadas por ex-companheiros ou pessoas próximas. A violência contra a mulher, seja ela negra ou não, não é cercada por romantismo e, apesar de muitos justificarem-na com o amor ou a paixão, ela é trágica.
O preconceito e o racismo às mulheres negras se manifestam não só na falta de representatividade nos espaços públicos, nos guetos de exclusão e pobreza, mas também no imenso número de assassinatos que ocorrem todos os anos. O “Atlas da Violência 2018”, por exemplo, mostrou que entre 2006 e 2016 a taxa de homicídio de mulheres negras no Brasil aumentou 15,4%, enquanto que a de não negras diminuiu 8%. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, das 22 milhões de brasileiras que sofreram assédio no ano passado, 36,7% são pardas e 40,5% são pretas.
Foto: Loise Maria/Ascom DPE-TO
Tocantins
Segundo dados do IBGE (2010), a população negra no Tocantins alcança o índice de 74,2%, e em número absoluto são 970.655 pessoas. De acordo com os registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, no ano de 2014, o Tocantins apresentou uma taxa de 4,7 homicídios por 100 mil mulheres, similar à taxa média nacional, de 4,6 homicídios por 100 mil. Ao se comparar as taxas de homicídios de mulheres verificadas em 2014 com as taxas referentes ao ano de 2006, verifica-se que essa violência letal vem se agravando no decorrer dos anos. A taxa de homicídios de mulheres brancas residentes no estado aumentou em 40%, passando de 2,5 a 3,5; e a taxa de homicídios de mulheres pretas e pardas aumentou em 35%, passando de 3,7 a 5,0 homicídios por 100 mil.
Conforme os índices, as mulheres negras têm três vezes mais chances de serem vítimas de feminicídio do que mulheres brancas, o que comprova o quanto a mulher negra é subvalorizada e alvo de violência no Brasil. A defensora pública Denize de Souza Leite destaca que os dados revelam aquilo que estudiosos das questões de gênero já sabem: a violência contra a mulher não é homogênea, distribui-se de forma não igualitária entre regiões, idades e raças. Ela considera que a liberdade almejada pela Abolição da Escravatura em 1888 ainda hoje não foi plenamente conquistada e, passados mais de um século, se vivencia uma abolição inacabada, onde a realidade do “ser negro” no Brasil em quase nada se alterou. “Embora sejamos uma sociedade de maioria negra (pretos e pardos), essa parcela considerável da população tem representação inexpressiva nas camadas mais favorecidas ou nos espaços de poder, encontrando-se sua maioria cativa na pobreza, a conviver com a ausência de direitos sociais mínimos, numa engrenagem social que tem se mostrado efetiva para manutenção do ‘status quo’. Como reflexo dessa marginalização e vulnerabilidade social, a população negra sempre encabeça as estatísticas, quando o foco são as mazelas sociais”, defendeu Denize.
Falta de políticas Públicas
De acordo com a defensora pública Vanda Sueli Machado, é necessário um alerta urgente sobre a luta pelos direitos das mulheres, o combate a violência e a igualdade de gênero. “A violência de gênero é o pior tipo de violência, ela afeta não só as mulheres, mas toda a sociedade. É uma realidade triste que vivenciamos no Brasil, no Tocantins, no mundo. O machismo mata todos os dias e as políticas públicas estão longe de serem concretizadas”, destacou. Ainda de acordo com a defensora pública, no Tocantins sequer há casa de passagem e instituições que qualifiquem e forneçam condições e sobrevivência a essas mulheres. “Assim, algumas acabam voltando ao ciclo da violência, devido à falta de políticas públicas efetivas”, complementa.
Ainda de acordo com Vanda Sueli, que atuou por muitos anos como coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), são poucas as casas de abrigo, que acolhem mulheres em situação de risco no Tocantins. Além das insuficientes delegacias especializadas, sendo que as que funcionam estão em situação de sucateamento, com falta de equipe técnica e sequer atendem no fim de semana. Sem contar, conforme lembrou a defensora, que não há um juizado especial, voltado em julgar casos de violência contra a mulher.
Defensoria
O Nudem da Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO) recebe, diariamente, mulheres espancadas, torturadas, estupradas e vítimas de outras formas de violências psicológicas, moral, sexual e física. Somente no ano passado, o Nudem atendeu um total de 1.831 casos de denúncia de violência doméstica. Destes, a maioria (38%) é formada por mulheres de 36 a 50 anos, pardas (61,9%) ou pretas (13,4%), com ensino médio completo (35%), com três a cinco membros na família (51,8%) e com renda individual de 0 a 1/2 salário mínimo (37,8%) ou familiar de 0 a 1/2 salário mínimo (39,5%).
Quilombolas
No que tange às comunidades quilombolas, a DPE-TO já realizou atendimento nas mais de 40 comunidades e percorreu aproximadamente 10,5 mil km para atender essa população com o objetivo de garantir seus direitos, os quais são ameaçados diariamente. O cenário encontrado é recorrente: pessoas que padecem sem ter, muitas vezes, o mínimo existencial para viver, mas que resistem para manter seu território, cultura e identidade vivas. “Nas nossas idas às comunidades quilombolas do Tocantins constatamos sérias violações reiteradas de direitos básicos, tais como famílias sem acesso à água própria para o consumo humano e sem acesso a energia elétrica, crianças sem escolas ou transporte escolar, homens e mulheres adoecendo sem qualquer serviço de saúde, práticas racistas em face da comunidade perpetradas, inclusive, por agente públicos e, ainda, intenso conflito agrário pelo território tradicional envolvendo quilombolas, fazendeiros e mineradoras”, destacou o defensor público Pedro Alexandre Conceição Aires Gonçalves, durante atuação à frente do Núcleo Especializado da Defensoria Pública Agrária (DPagra) e que, atualmente, é defensor na comarca de Pedro Afonso.
Defensoria Pública
A Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO) tem um papel essencial na defesa dos direitos das pessoas mais desfavorecidas, o que inclui a defesa das mulheres negras, vítimas de preconceito, racismo, assédio e qualquer tipo de violência, dentre outras formas de assistência jurídica, caso seja comprovada a hipossuficiência. Nestes casos, as mulheres podem procurar a Instituição mais próxima da sua cidade. Além disso, a DPE-TO oferece orientação jurídica, na promoção de direitos humanos e no ingresso de ações judiciais, quando necessário, como: alimentos, divórcio; reconhecimento e dissolução de união estável; fixação de guarda dos (as) filhos(as); requerimento de medida protetiva de urgência; encaminhamento para a rede de atendimento à mulher em situação de violência (assistência social, saúde, habitação, segurança pública, trabalho, etc), entre outras medidas necessárias.
DPE-TO também trabalha com atividades de conscientização, como palestras, debates, rodas de conversas, atos públicos, cines debates, conferências de igualdade racial, seminários e simpósios feministas, dentre outras atividades.
 Denuncie
A primeira orientação para as mulheres vítimas de violência é denunciar a agressão pelo número 180. Se a violência for sexual ela precisa passar pelo Serviço de Atenção Especializada para Pessoas em Situação de Violência Sexual (3218-7786). A mulher também deve ir a uma delegacia da mulher e registrar um boletim de ocorrência para que o agressor seja responsabilizado, ou procurar o Nudem, na sede da Defensoria Pública em Palmas, ou qualquer regional da instituição no Estado.
// Série especial //

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