quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Alunos que ingressam na UFMG pela cota já supera a dos não cotistas

Cotistas que garantiram uma vaga na UFMG neste ano obtiveram notas superiores às de não cotistas que fizeram o vestibular em 2013. Exceção foi apenas um curso
Co­tis­tas que che­gam à Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Mi­nas Ge­rais (UFMG) ob­ti­ve­ram no­tas su­pe­rio­res às dos não co­tis­tas in­gres­san­tes em 2013, último ano em que o ves­ti­bu­lar foi a por­ta de en­tra­da pa­ra uma das maio­res ins­ti­tui­ções pú­bli­cas do Bra­sil, se­gun­do le­van­ta­men­to das no­tas de cor­tes dos úl­ti­mos qua­tro anos a que o Es­ta­do de Mi­nas te­ve aces­so, em pra­ti­ca­men­te to­dos os cur­sos. A úni­ca ex­ce­ção foi en­ge­nha­ria de pro­du­ção, ain­da as­sim, com di­fe­ren­ça de me­nos de um pon­to. Em um dos cur­sos mais con­cor­ri­dos da Fe­de­ral, os co­tis­tas ti­ve­ram que al­can­çar a no­ta mí­ni­ma de 750,02 pon­tos pa­ra ga­ran­tir uma va­ga em me­di­ci­na, pon­tua­ção su­pe­rior à que a am­pla con­cor­rên­cia con­quis­tou em 2013, de 685,3 pon­tos (ve­ja abai­xo).
Nes­te ano, pri­mei­ro em que a re­ser­va de va­gas foi apli­ca­da na to­ta­li­da­de – 50% das va­gas, con­for­me pre­vê a Lei das Co­tas apro­va­da em agos­to de 2012 –, os co­tis­tas en­fren­ta­ram maior con­cor­rên­cia en­tre eles. “Os co­tis­tas en­tram na UFMG mais bem pre­pa­ra­dos que os não co­tis­tas de pou­cos anos atrás”, afir­ma o pró-rei­tor de Gra­dua­ção, Ri­car­do Takahashi. Em 2013, a re­ser­va de co­tas era de ape­nas 12,5% do to­tal de va­gas.
Das 6.279 va­gas, 3.142 fo­ram des­ti­na­das às co­tas de es­co­la pú­bli­ca, le­van­do em con­ta re­ser­va pa­ra ne­gros e in­dí­ge­nas. Uma de­las foi con­quis­ta­da pe­la es­tu­dan­te Ta­li­ta Bar­re­to, de 20 anos. “To­do ano a no­ta de cor­te mu­da e ti­ve­mos mui­to mais ins­cri­ções pa­ra o Enem. Quan­do vi mi­nha no­ta fi­quei com me­do de não pas­sar, prin­ci­pal­men­te em en­ge­nha­ria, que é um cur­so mui­to con­cor­ri­do.” A ação afir­ma­ti­va foi fun­da­men­tal pa­ra que a jo­vem, fi­lha da dia­ris­ta He­le­na Bar­re­to, se tor­nas­se a pri­mei­ra em sua fa­mí­lia a ser apro­va­da pa­ra o en­si­no su­pe­rior nu­ma uni­ver­si­da­de fe­de­ral. “Era um so­nho fa­zer fa­cul­da­de. Mi­nha mãe sem­pre in­sis­tiu pa­ra que eu e meus ir­mãos es­tu­dás­se­mos. As co­tas nos pos­si­bi­li­tam aces­so a al­go que é nos­so”, afir­mou. A jo­vem tam­bém foi apro­va­da, por meio das co­tas, pa­ra mú­si­ca na Uni­ver­si­da­de do Es­ta­do de Mi­nas Ge­rais (Ue­mg).
Na ava­lia­ção do pró-rei­tor, o au­men­to da no­ta de cor­te es­tá re­la­cio­na­da à ado­ção do Sis­te­ma de Se­le­ção Uni­fi­ca­do (Si­su). Em 2013, cer­ca de 60 mil can­di­da­tos dis­pu­ta­ram as va­gas na UFMG. Em 2016, o nú­me­ro mais que tri­pli­cou, pas­san­do pa­ra 195,6 mil can­di­ta­tu­ras. Ao to­do, fo­ram 158,3 mil can­di­da­tos que ti­nham a op­ção de se ins­cre­ver em até dois cur­sos di­fe­ren­tes. “O Si­su tem es­se efei­to de fa­ci­li­tar o aces­so à dis­pu­ta pe­las va­gas nas uni­ver­si­da­des”, diz.
Nes­ta edi­ção, as di­fe­ren­ças en­tre no­tas de cor­te pa­ra co­tis­tas e não co­tis­tas va­riam en­tre 4,8% (me­nor di­fe­ren­ça, ob­ser­va­da no cur­so de bi­blio­te­co­no­mia) e 11,4% (maior di­fe­ren­ça, no cur­so de his­tó­ria). A di­fe­ren­ça mé­dia foi de 8,2%. “Por de­fi­ni­ção, as no­tas de cor­te dos co­tis­tas de­vem ser me­no­res que as da am­pla con­cor­rên­cia. Do con­trá­rio, as co­tas não te­riam ne­nhum efei­to”, diz Takahashi. Em 2014, po­rém, a no­ta de cor­te de co­tis­tas no cur­so de his­tó­ria foi maior do que os não co­tis­tas. Na­que­le ano, a di­fe­ren­ça mé­dia foi de 6,9%.
A ex­pec­ta­ti­va do pró-rei­tor é que a im­plan­ta­ção das co­tas em sua to­ta­li­da­de pos­sa re­cu­pe­rar a pro­por­ção de es­tu­dan­tes de bai­xa ren­da vin­cu­la­dos à UFMG até 2013. Na­que­le ano, 49% de es­tu­dan­tes eram pro­ve­nien­tes de fa­mí­lias com ren­da de até cin­co sa­lá­rios-mí­ni­mos. Es­sa pro­por­ção caiu de­pois da ado­ção do Si­su pa­ra 42%, em 2014, e pa­ra 46%, em 2015.
Desempenho
Com a am­plia­ção do per­cen­tual de va­gas des­ti­na­das às co­tas, um dos fa­to­res es­pe­ra­do por Takahashi é que o in­gres­so de es­tu­dan­tes de es­co­las mu­ni­ci­pais e es­ta­duais se­ja am­plia­do. Nos pri­mei­ros anos das co­tas, ha­via um do­mí­nio de es­tu­dan­tes vin­dos de es­co­las fe­de­rais – es­sas ins­ti­tui­ções ocu­pam os pri­mei­ros lu­ga­res no ranking do Exa­me Na­cio­nal do En­si­no Mé­dio (Enem) 2015. “É pro­vá­vel que au­men­te um pou­co a pro­por­ção de es­tu­dan­tes de es­co­las es­ta­duais e mu­ni­ci­pais em re­la­ção aos es­tu­dan­tes egres­sos de es­co­las fe­de­rais de en­si­no mé­dio”, afir­mou. Es­sa pre­vi­são só po­de­rá ser con­fir­ma­da de­pois que os alu­nos efe­ti­va­rem a ma­trí­cu­la.
Os da­dos da uni­ver­si­da­de têm de­mons­tra­do que não há di­fe­ren­ça no de­sem­pe­nho de co­tis­tas e não co­tis­tas. “No que diz res­pei­to à qua­li­da­de, tu­do in­di­ca que não exis­ta ne­nhu­ma ra­zão pa­ra preo­cu­pa­ção”, dis­se Takahashi. O pró-rei­tor rei­te­ra que o au­men­to da com­pe­ti­ção pe­las va­gas na maior uni­ver­si­da­de pú­bli­ca do es­ta­do, de­cor­ren­te do Si­su, tam­bém cau­sou um au­men­to da com­pe­ti­ção en­tre os co­tis­tas.

Lista do ProUni
A lista com os nomes dos candidatos pré-selecionados a bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) já está disponível na internet. O resultado da primeira chamada pode ser acessado na página do programa (siteprouni.mec.gov.br), pelo 0800-616161 e nas instituições de ensino participantes. O estudante deverá comparecer até 1º de fevereiro na instituição para a qual foi pré-selecionado e comprovar as informações prestadas na ficha de inscrição. A perda do prazo ou não comprovação das informações implicará, automaticamente, reprovação do candidato. O programa ofertou 203.602 bolsas para 30.931 cursos.
Foto : Internet / Fonte: Correio Braziliense
Edição : Mônica Aguiar 

domingo, 24 de janeiro de 2016

Microcefalia Faz Mulheres Adiarem o Sonho da Maternidade no Nordeste

Quem fez tratamento para engravidar está preferindo congelar o embrião. Ministério da Saúde diz que já houve 3893 notificações da doença no país.


Resultado de imagem para gravidez  microcefalia infantilA preocupação com os casos de microcefalia, relacionados ao zika vírus, no Nordeste, tem feito muitas mulheres adiarem o sonho da maternidade. Mesmo quem fez tratamento para engravidar, está preferindo congelar o embrião para ter o bebê mais tarde. 

Um estudo divulgado nos Estados Unidos afirma que a microcefalia associada ao zika vírus é grave em 71% dos casos. 
Estava tudo programado e 2016 era para ser o ano do nascimento do bebê da enfermeira Daniele Pinto, que agora vai esperar um pouquinho mais. A futura mamãe ficou assustada porque a irmã teve zika vírus na gravidez e o bebê nasceu com microcefalia.  

Segundo o último relatório do Ministério da Saúde, já houve 3893 notificações da doença no país, 3402 só no Nordeste. Em uma clínica de inseminação artificial no Maranhão, com filiais em várias capitais nordestinas, a procura caiu mais de 30%. 
A preocupação com a doença é tão grande que muitos casais que vêm tentando ter filhos há anos, mas têm alguma dificuldade e que, por isso, costumam ser mais ansiosos, estão preferindo esperar. 

Uma tendência nas clínicas de reprodução assistida tem sido congelar o embrião para ter o filho depois, quando o perigo passar. Em um banco de embriões em São Luís, a demanda cresceu 60% de outubro para cá. "Ele fica congelado por tempo indeterminado e, se ele quiser descongelar daqui um mês, três anos, 20 anos, pode descongelar sem problemas”, explica a embriologista Edla Fechine. 

O Ministério da Saúde orienta que as mulheres não deixem de engravidar por medo da microcefalia. A recomendação é redobrar os cuidados com as grávidas.  

A pedagoga Alice Ribeiro está grávida de três meses, passa repelente toda hora e já fez o orçamento de uma tela para evitar mosquitos no apartamento: “Fico repondo de duas em duas horas o repelente e quando vou sair de casa procuro sempre sair com roupa mais longa. A preocupação com o zika vírus existe, mas não deu pra aguentar a pressão que a caçula da família vinha fazendo. A gente, então, decidiu atender”.

O que é Microcefalia? 

Microcefalia é uma condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro da criança é significativamente menor do que a de outras da mesma idade e sexo. A microcefalia normalmente é diagnosticada no início da vida e é resultado do cérebro não crescer o suficiente durante a gestação ou após o nascimento. Crianças com microcefalia têm problemas de desenvolvimento. Não há uma cura definitiva para a microcefalia, mas tratamentos realizados desde os primeiros anos melhoram o desenvolvimento e qualidade de vida. A microcefalia pode ser causada por uma série de problemas genéticos ou ambientais. 

Causas - Microcefalia é o resultado do crescimento abaixo do normal do cérebro da criança ainda no útero ou na infância. A microcefalia pode ser genética. Algumas outras causas da microcefalia são:

  • Malformações do sistema nervoso central
  • Diminuição do oxigênio para o cérebro fetal: algumas complicações na gravidez ou parto podem diminuir a oxigenação para o cérebro do bebê
  • Exposição a drogas, álcool e certos produtos químicos na gravidez
  • Desnutrição grave na gestação
  • Fenilcetonúria materna
  • Rubéola congênita na gravidez
  • Toxoplasmose congênita na gravidez
  • Infecção congênita por citomegalovírus.
Doenças genéticas que causam a microcefalia podem ser:
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A microcefalia normalmente é detectada nos primeiros exames após o nascimento em um check-up regular. Contudo, caso você suspeite que a cabeça de seu bebê é menor do que a de outros da mesma idade ou não está crescendo como deveria, fale com seu médico. O Ministério da Saúde confirmou recentemente a relação entre o Zika vírus e o surto de casos de microcefalia no nordeste do país em 2015. A febre zika, ou simplesmente zika vírus, é uma infecção causada pelo vírus ZIKV, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, mesmo transmissor da dengue e da febre chikungunya. Por se tratar de algo novo, não descrito anteriormente na literatura médica, ainda não se sabe exatamente como funciona a relação entre os problemas. De acordo com o Ministério da Saúde, as investigações sobre microcefalia e o Zika vírus devem continuar para esclarecer questões como a transmissão desse agente, a sua atuação no organismo humano, a infecção do feto e período de maior vulnerabilidade para a gestante. Em análise inicial, o risco está associado aos primeiros três meses de gravidez.
Fontes: G1, Minha Vida  / Fotos: Internet, Mônica Aguiar 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

‘Mulher negra, pobre, quando chega nesse meio tem que ter muita força’, ressalta Elza Soares



por Ailma Teixeira

Aos 78 anos de idade e com mais de seis décadas de carreira, Elza Soares encarna “A Mulher do Fim do Mundo” e sobe ao palco do Teatro Castro Alves, neste sábado (23), para cantar sobre a força da mulher que enfrenta tudo e não desiste. Com a voz já afetada pela idade, a cantora conversou com o Bahia Notícias sobre a produção de seu 34º disco, as composições inéditas que interpreta e a importância de falar sobre assuntos polêmicos, como a violência doméstica contra a mulher e a situação marginalizada em que vivem as travestis – ambos temas de canções do novo álbum. Elza, que recebeu o título de cidadã soteropolitana, em 2009, comentou ainda sobre suas expectativas para o show único e sem participações na capital baiana. Confira a entrevista completa:



Quem é “a mulher do fim do mundo” e o que ela representa na sua música?
A mulher do fim do mundo é a mulher que aguenta tudo, é aquela que passa por várias, várias coisas pela vida, mas ela sustenta, ela segura, ela não desiste, ela vai em frente. Venha o que vier, ela está aí segurando e defende a outra mulher.

Tem um pouco de você nela?
Tem sim. Tem de quanto eu falo da defesa da mulher, eu falo da Elza. A mulher que não precisa mais sofrer dentro de casa, apanhar do marido, isso é grave, isso mata. Ela tem que denunciar, eu faço denúncia quando sei de algum caso.

Na canção que dá nome ao disco, você clama pelo direito de cantar, de se expressar. Em algum momento da vida, você já se sentiu desvalorizada pela classe artística da música popular brasileira?
Enfrentei vários problemas, enfrentei problemas seríssimos, então a gente sabe o que a gente passa e tem que segurar. Mulher negra, pobre, quando chega nesse meio tem que ter muita força, muita raça.


Nesse disco, você trabalha com uma equipe totalmente nova de artistas conhecidos na cena independente de São Paulo. O que te levou a se unir com tanto "sangue novo" da música para a produção do álbum? Como foi unir seu talento e experiência às aspirações desses músicos para construir o disco?
Esse trabalho a gente passou a fazer ele aos pouquinhos com muita paciência. Foram 50 músicas que fizeram pra eu gravar, mas não foi difícil, não. Eles trouxeram aqui pra casa pra eu escutar, ajudar a escolher e eu escolhi tudo com muito carinho, foi muito bacana.

As letras são fortes, mas todos os seus trabalhos anteriores tinham essa mesma ousadia para falar dos problemas sociais. “Maria da Vila Matilde”, por exemplo, fala sobre uma mulher que sofre de violência doméstica. O que é que te inspira a interpretar canções tão sofridas?
É um pouco da gente. A gente passa o que a gente é na canção também e eu acho que eu cantei a Elza ali dentro.

Então, é um disco sobre a sua história?
Mais ou menos. Mais ou menos. Eu faço muita denúncia também, dos preconceitos, das mazelas da sociedade.

Para você, qual a importância de dar voz a uma letra como "Benedita", que fala sobre a realidade marginalizada em que vivem as travestis?
É grande. Eu vejo que está tudo tão difícil, tudo tão estranho. Falo de homofobia também e, junto, a gente fala também da droga. Falo a verdade. É um trabalho feito do livro que se vê hoje dentro da sociedade, é machismo. Então, esse CD tem essa levada de tocar nas feridas.


A Mulher do Fim do Mundo tem suas bases no samba, mas há outros ritmos ali. De onde vêm as influências para esse trabalho? 
São vários estilos, é uma mistura louca, uma mistura meio rock and roll, funk, tem valsa.




Depois de anos sem lançar um trabalho novo, qual o significado desse álbum para a sua carreira? 

Tudo. Pra mim, é tudo. É um trabalho feito só de músicas inéditas, então pra mim significa muito .


Você trabalha a turnê do disco agora e está envolvida nesse projeto, mas o que vem depois d'A Mulher do Fim do Mundo? 
Por enquanto só A Mulher do Fim do Mundo já é o bastante. Acho que o show está belíssimo, está riquíssimo.


E qual a sua expectativa para o show aqui em Salvador?
Imensa. É uma cidade... Eu sou irmã de vocês, não é? Eu ganhei o título aí na Bahia, então, pra mim, cantar aí é muito grande, é muito forte. A gente colocou no show mais algumas músicas antigas, “A Carne”, “Malandro”... Umas três para completar. Vai ser “Pra Fuder”! Pra fuder, pra fuder, pra fuder mesmo.

Fonte: Bahianotícias


Mulheres Negras, da História para os Cordéis !

Talvez você nunca tenha conhecido a trajetória de sequer uma mulher negra na história do Brasil. Mesmo na escola, nas aulas sobre o período da colonização e da escravidão, é provável que você não tenha lido ou ouvido falar sobre nenhuma líder quilombola, nem mesmo sobre líderes que foram tão importantes para comunidades enormes.


Essa ausência de conhecimento é um problema profundo no Brasil. Infelizmente, na escola não temos acesso a nomes como o de Tereza de Benguela, por exemplo, que tornou símbolo nacional, quando o dia 25 de Julho foi oficializado como o Dia de Tereza de Benguela. Ainda assim, há grandes chances de que essa seja a primeira vez em que esse nome lhe salta aos olhos.

Para conhecer as histórias de luta dessas mulheres, é preciso mergulhar em uma pesquisa pessoal, que antes de tudo precisa ser instigada. Mas se as escolas e Universidades nem mesmo mencionam a existência de mulheres negras que concretizaram grandes feitos no Brasil, como a curiosidade das pessoas será despertada?

Na prática, as consequências dessa ignorância são muito graves. Não  aprendemos que mulheres negras foram capazes de conquistas admiráveis ou que lutaram bravamente, até mesmo em guerras contra a escravidão, e crescemos acreditando na ideia de que as mulheres negras nunca fizeram nada de grandioso e nem marcaram o país como outros grupos de pessoas. A tendência de muita gente é associar a bravura, a inteligência e a estratégia somente a figuras masculinas, sobretudo aos homens brancos, que são notavelmente mais registrados, memorados e citados em aulas de História.

Com essa falta de referências a mulheres negras, muito racismo continua a ser perpetuado. Mas como podemos reparar os imensos estragos causados por essa omissão? Neste início de ano, como parte de uma tentativa de espalhar informação sobre as histórias de grandes mulheres negras, lancei mais cordéis biográficos que contam suas trajetórias e conquistas. Em sala de aula ou passando de mão em mão, a Literatura de Cordel pode servir como um rico material para que essas histórias sejam repassadas e discutidas.

Nos novos cordéis, é possível conhecer Zeferina, líder do quilombo de Urubu, Anastácia, uma escrava que até hoje é cultuada como santa, Maria Felipa, que foi líder nas batalhas pela independência da Bahia, e Antonieta de Barros, a primeira deputada negra do Brasil. Passo a passo, grandes injustiças históricas podem ser eliminadas, trazendo à tona a memória de guerreiras e mulheres negras brilhantes que foram de enorme importância para o Brasil.

Para começar, leia aqui no Questão de Gênero o cordel que conta a história de Tereza de Benguela, disponível gratuitamente.

Acima de tudo, fale sobre essas mulheres, conte que elas existiram e busque por mais nomes e mais referências. Esse conhecimento é libertador e fundamental para combater o racismo e o machismo.

Para conhecer todos os cordéis, visite a página http://jaridarraes.com/cordel/


Jarid Arraes é cordelista, escritora, autora do livro “As Lendas de Dandara“ e diretora da Casa de Lua.

CORDÉIS BIOGRÁFICOS:


Biográficos - AnastáciaANASTÁCIA (novo!) – cordel biográfico que conta a história de Anastácia, uma escrava que foi punida por rejeitar os assédios de um homem branco e teve que usar uma máscara de ferro até o fim de sua vida. Anastácia é cultuada por muitos que a consideram uma santa milagreira.

ANTONIETA DE BARROS (novo!) – cordel biográfico que conta a história da primeira deputada negra do Brasil, que também era uma grande jornalista e educadora.
Biográficos - AqualtuneAQUALTUNE – cordel biográfico que conta a história da princesa africana Aqualtune, filha de um rei no Congo, que foi vendida como escrava e trazida para o Brasil. Grande ícone para as mulheres negras brasileiras, a história de Aqualtune envolve outras lideranças quilombolas como Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares.


CAROLINA MARIA DE JESUS – cordel biográfico que conta a história da escritora Carolina Maria de Jesus, suas origens e vida na favela do Canindé, até ter seu primeiro livro publicado.


DANDARA DOS PALMARES – cordel biográfico contando a história de Dandara dos Palmares, mulher negra guerreira na resistência contra a escravidão no Brasil, líder do Quilombo dos Palmares e companheira de Zumbi.





LUISA MAHIN – cordel biográfico contando a história de Luísa Mahin, mãe do poeta Luís Gama e grande liderança na luta contra a escravidão no Brasil.

MARIA FELIPA (novo!) – cordel biográfico que conta a história de Maria Felipa, uma líder na ilha de Itaparica durante as batalhas pela independência da Bahia.
  
TEREZA DE BENGUELA – cordel biográfico que conta a história de Tereza de Benguela, líder quilombola do quilombo de Quariterê. Dia 25 de Julho no Brasil é oficialmente o dia de Tereza de Benguela, uma data para enfatizar a luta das mulheres negras no país.
Biográficos - Tia Simoa

TIA SIMOA – cordel biográfico que conta a história de Tia Simoa, esposa de José Luiz Napoleão e liderança na luta contra a escravidão no Ceará. O cordel também fala do Grupo de Mulheres Negras do Cariri, o Pretas Simoa, pelo qual a história de Tia Simoa se tornou mais conhecida.
  

ZEFERINA (novo!) – cordel biográfico que conta a história de Zeferina, líder do quilombo de Urubu, na Bahia, que lutou contra a escravidão.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Ilê Aiyê Faz Homenagem para Arte do Recôncavo ao Escolher Musa do Carnaval

Ilê Aiyê homenageia arte do Recôncavo ao escolher musa do Carnaval
Larissa Oliveira, 22 anos
Uma homenagem aos 100 anos do Samba, ao Recôncavo Baiano e à beleza da cultura e da mulher negra. Com esse clima, o Ilê Aiyê realizou, neste sábado (16), a 37ª Noite da Beleza Negra, em sua sede, a Senzala do Barro Preto, na Liberdade. A jovem Larissa Oliveira, 22 anos, foi escolhida entre 15 concorrentes ao título de Deusa do Ébano 2016, musa anual do Pérola Negra.

O público marcou presença, fazendo um desfile à parte pelos espaços da Senzala do Barro Preto. Houve quem veio de longe para conferir as batidas dos tambores. "Vim para ver ao vivo tudo o que ouvi falar. As meninas, as danças e principalmente a música. 

Vovô do Ilê, presidente da organização, destacou o significado da noite e a luta do grupo 
 para fazer o concurso resistir há quase quatro décadas. "Esse é um evento pré- carnavalesco muito importante para nós [e] para a cidade. A gente encontra muita dificuldade, mas o povo negro sabe que a noite da beleza negra é uma festa que nós fazemos com muito esforço para que cada vez tenha mais qualidade".

Cultura e tradição

Música, teatro, dança, poesia e outras manifestações culturais se misturaram no espetáculo assinado pelo diretor Elísio Lopes Júnior. Os músicos da tradicional Chegança dos Marujos de Saubara iniciaram a festa com o toque do Recôncavo ainda do lado de fora da Senzala do Barro Preto. Convidados como Raimundo Sodré, Regina Casé, Roberto Mendes, Carla Visi,
Ana Mametto e Luiz Miranda continuaram a celebração no palco, homenageando o Samba e a cultura do Recôncavo.

A anfitriã Band'Aiyê deu o tom no desfile das candidatas à Deusa do Ébano. No final, a alegria foi completa para a jovem Larissa Oliveira, moradora do bairro de Cajazeiras. 
Ela foi a grande vencedora da disputa e é a musa do Ilê no próximo Carnaval e durante todo o ano de 2016. A jovem dupla Lucas e Orelha, conhecida nacionalmente após vencer o reality show musical SuperStar, fechou a noite de festa e beleza no Curuzu.

Fonte: SECON Bahia

Governo britânico vai ensinar inglês para integrar mulheres muçulmanas

O governo britânico anunciou dia (18) segunda,  um plano de ensino de inglês a mulheres muçulmanas residentes no Reino Unido. O objetivo é facilitar a integração na sociedade e combater o extremismo.
Com esse plano e um fundo de 20 milhões de libras (26 milhões de euros), o primeiro-ministro britânico, David Cameron, quer combater uma situação de discriminação e isolamento social que afeta cerca de 190 mil muçulmanas.
Em artigo publicado no jornal The Times, Cameron destacou a necessidade de contrariar uma minoria de homens muçulmanos que exercem "controle prejudicial" sobre as mulheres nos agregados familiares.
"Frequentemente, resultante daquilo a que eu chamaria 'tolerância passiva', muitas pessoas apoiam a ideia de um desenvolvimento separado", afirmou sobre a falta de integração.
"Chegou o momento de mudar a nossa perspectiva. Nunca conseguiremos construir uma verdadeira nação se não formos mais positivos sobre os nossos valores liberais, mais claros sobre as expectativas que damos àqueles que aqui vivem e constroem em conjunto o nosso país", destacou.
As aulas de inglês vão ocorrer em residências, escolas e centros comunitários e as despesas de transporte serão bancadas pelo governo, bem como as despesas relativas aos cuidados com as crianças das mães que fizerem o curso.
Cameron insistiu que todos os serviços públicos, incluindo escolas e centros de emprego, precisam atuar para combater preconceitos e facilitar a integração.
"Neste país, as mulheres e as jovens são livres para escolher como querem viver. São os nossos valores que fazem deste país aquilo que é", disse.
O plano faz parte das medidas governamentais para combater o extremism, devido ao aumento de jovens muçulmanos que viajam para a Síria a fim de integrar as fileiras do grupo extremista Estado Islâmico.
Um dos casos mais significativos ocorreu em fevereiro do ano passado, quando três adolescentes abandonaram as suas casas na Inglaterra para viajar para a Síria.

Fonte Lusa 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Preconceito Linguístico: como isso afeta o empoderamento feminino

por Stephanie Ribeiro

Existe uma regra de ouro da linguística que diz: “só existe língua se houver seres humanos que a falem”. Assim começa o livro de Marcos Bagno: “Preconceito Linguístico – o que é, como se faz”. E esse meu texto também, motivado pela constante chamada de atenção de machistas e até de feministas para os meus erros gramaticais.
Eu comecei a escrever textos feministas em 2013. O primeiro deles foi lido por mais de cinco amigos antes de ser enviado para o site que me tinha pedido. Dos meus textos mais populares daquela época – um sobre “Rolezinhos”, para o portal Blogueiras Negras -,  li e reli tantas e tantas vezes que praticamente decorei. No começo, eu tinha muito medo de escrever e foi só em 2015 que consegui postar um texto sem mandar para alguém ler antes. O motivo de tanta insegurança?
Medo dos meus erros gramaticais.
Assim como muitas pessoas eu estudei em escolas públicas a vida toda. Ingressei na universidade, nunca fui distante dos livros, como agora também não sou. Porém, me faltou uma base que, meu curso sendo Arquitetura e Urbanismo, não vai completar. E isso não me faz ignorante, muito menos inapta para compartilhar minhas opiniões, mesmo que as vírgulas estejam no lugar errado.
Tudo é no fundo uma questão de sociolinguística: essa é a área que se ocupa das diversas interações entre língua e sociedade. Assim, se define preconceito linguístico como sendo “o conjunto de atitudes, opiniões e valores que usa a língua como fator de discriminação social”. Toda sociedade estabelece valores e códigos para seu funcionamento, seja de maneira implícita ou explícita. A linguagem enquanto necessidade humana faz da língua um contrato social e do idioma o seu código. Toda língua sofre variações que podem acontecer em curtos ou longos períodos de tempo, tais variações são naturais e inerentes a qualquer língua. Entretanto, o conhecimento da norma culta não garante ao indivíduo domínio de todos os aspectos da língua portuguesa justamente pela sua abrangência e complexidade. Todos nós em algum momento estamos sujeitos ao erro, logo fica evidente que ninguém tem imunidade para apontar a imperíca ou deslize de outrem, porque ninguém faz uso de uma língua “castiça”, ou seja, de uma língua “limpa” cujo padrão é irretocável.
Sendo assim, eu já esperava páginas e machistas acreditando que esse é um motivo para desconsiderar o que eu e tantas outras feministas falamos. O problema foi quando comecei a ver feministas usando do argumento: “você nem sabe escrever direito” e com isso tentando descreditar e enfraquecer a dimensão semântica, social e política da minha mensagem.
A cantora MC Carol recentemente recebeu críticas sobre a forma como escreve. Fico pensando se as pessoas não entendem o quão empoderadoras são determinadas coisas que ela diz. Muitos chegam ao ponto de secundarizar a mensagem julgando necessário chamar atenção somente para os erros gramaticais. Carolina de Jesus já existiu e nos mostrou que o intelectual não é o que escreve bem segundo a norma culta, mas é o que escreve fazendo política com as palavras. E linguagem não só faz política como representa PODER.
Por isso, realmente pergunto: qual a necessidade de algumas correções e apontamentos feitos em textos feministas sobre erros gramaticais? Qual a necessidade de machistas ficarem zombando de feministas por isso? Machismo e reprodução de mais uma opressão, nesse caso a linguagem através do preconceito linguístico é usada como mecanismo de exlusão e inferiorização, sobretudo quando se trata de subestimar a capacidade intelectual e cognitiva das mulheres. Por isso, também não entendo as feministas que zombam pessoas por erros gramaticais, mesmo quando são machistas ou reproduzem machismo.
Quando falamos de interseccionar opressões, precisamos lembrar que o Brasil com problemas de raça, classe e gênero, também exclui muitos do acesso a uma boa formação acadêmica.
“Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio da norma culta. Assim, da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem saúde, também existem milhões de brasileiros sem língua. Afinal, se formos acreditar no mito da língua única, existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua, que é a norma literária, culta, empregada pelos escritores e jornalistas, pelas instituições oficiais, pelos órgãos do poder —  são os sem-língua. É claro que eles também falam português, uma variedade de português não-padrão com sua gramática particular, que no entanto não é reconhecida como válida, que é desprestigiada, ridicularizada, alvo de chacota e de escárnio por parte dos falantes do português-padrão ou mesmo daqueles que, não falando o português-padrão, o tomam como referência ideal — por isso podemos chamá-los de sem-língua.” – Marcos Bagno: “Preconceito Linguístico – o que é, como se faz”
O trecho acima defende como os “sem-língua” são basicamente a nação inteira, que usa, fala e escreve o Português “errado”, porém ele basta, porque cumpre a função de comunicar! O nosso Português comunica e que por sinal da voz a todos nós. Entendo que na hora de um debate com um machista, a raiva toma conta. Porém, não defendo a propagação de ideias opressoras e acho completamente desnecessário páginas feministas (ou mesmo comentários) expondo quem não segue a norma culta, como se isso estivesse atrelado à ideia da ignorância por falar algo machista.
Quando essa atitude é tomada não só é preconceito línguistico como estamos automaticamente silenciado inúmeras mulheres, principalmente negras. Meus textos recebem tais críticas e até hoje não sei como agir. Teve uma época que eu passava os posts de facebook para o word, assim haveria uma pré-correção. Depois, comecei a entender que não tem problema nenhum “errar” aqui e ali: o grande problema é acreditar que o que digo perde o sentido e o valor por conter alguma falha normativa. A minha escrita é fruto do que eu sou, é resultado da minha vivência que por sinal acho linda.
“A gramática normativa é decorrência da língua, é subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua “bonita”, “correta” e “pura”. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática. O que não está na gramática normativa “não é português”. – Marcos Bagno: “Preconceito Linguístico – o que é, como se faz”
É por essa compreensão, que não acredito que seja passível críticar alguém por erros gramaticais mesmo que a pessoa tenha estudado nos colégios mais caros do país. Reproduzir opressões não é nunca um bom caminho para quem luta por uma sociedade digna. Outras vezes, esse tipo de crítica tem como foco negativar alguém com base na carência de instrução formal desqualificando, inibindo e até traumatizando sua capacidade de se comunicar futuramente. O alvo das críticas se sente cada vez mais incapaz e inseguro para se relacionar com qualquer assunto em sua forma escrita.
Consequentemente, os mais atingidos acabam como sempre sendo negros, pobres e mulheres, tríplice marcadora que se sintetiza na figura da mulher negra. Acredito que o feminismo ainda não lida bem com o que mulheres como eu tem a dizer. E que nós ainda representamos a minoria escrevendo para os grandes veículos de comunicação, mesmo em revistas como TPM, ELLE e Cláudia, que cada vez mais assumem a pauta pró-mulher.
Tenho absoluta certeza que o pedido por uma “gramática exemplar” é só mais uma forma de excluir negros e/ou pobres de determinados acessos. Sendo assim, não é à toa que feministas negras ainda hoje têm muitas dificuldades para produzir textos já que se sentem despreparadas. Esse receio não é só gerado pelo medo, já citado, de que evidenciem nossos erros gramaticais e associem isso ao “não ser capaz e ignorante”. Mas também é motivado pela falta de se ver negros ocupando esses espaços como escritores, blogueiros, pesquisadores e intelectuais que não recebem o devido reconhecimento.
Existe muita coisa para ser dita por nós, o que não existe é apoio e difusão do que falamos. Como uma amiga diz: Só nossa “cara preta” no final de um texto, incomoda.
Por trás da reafirmação que português é uma língua díficil, que ninguém sabe escrever corretamente bem, que o certo é falar e escrever assim, como regra única, que quem não sabe a grámatica culta não escreve bem. Vamos aos poucos silenciado muitas pessoas, como Celso Pedro Luft em Língua e Liberdade, diz: “Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma, medo à expressão livre e autêntica de si mesmo.”  
E não vejo problemas se nossos textos têm alguns acentos a menos, pontuações demais e palavras que são com C escritas com S, se o contéudo e argumentos forem bons e facilmente entendidos, se cumpriu a tarefa de comunicar deveria ser satisfatório. Não estou negando a gramática normativa, só enfatizando que ela é um ponto na imensidão que a linguagem representa. Segundo a norma culta, existem acentos, cê-cedilhas, dois esses, palavras que começam com h, que na vida real são muitas vezes esquecidos ou trocados, porém a compreensão sobre o que está escrito é feita. O português não é estático, ele é do povo. E o povo brasileiro tem diferentes influências e isso reflete na nossa língua escrita e falada.
A linguagem hoje é expressão de poder e até de classe. Algumas feministas usam, por exemplo, termos em inglês com frequência em seus textos, palavras complexas de pronunciar e escrever, que poderiam ser trocadas por outras mais simples. O feminismo enfatiza que todos somos indivíduos, mas apenas alguns poucos sujeitos gozam de determinados privilégios que os fazem saberem facilmente o que é: “mansplaining” ou “gaslighting”. Em 2014, uma pesquisa apontou que apenas 5% dos brasileiros falam fluentemente inglês.
Acredito que o uso de tais estrangeirismos afasta e impossibilita a troca com mulheres de classes sociais distintas (enfatizo aqui novamente como isso engloba negras, que hoje representam a maioria pobre). O mesmo livro de Marcos Bagno tem um trecho muito interessante, que diz: “a Constituição afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei, mas essa mesma lei é redigida numa língua que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender.” Ou seja, até a lei goza de uma elegibilidade que a torna de difícil compreensão para todos, mesmo que ironicamente, ela seja para todos.
A línguagem tem um poder enorme e pode ser tanto para incluir quanto para excluir. Ou começamos a entender as armadilhas, obstáculos e tramas dessa questão dentro do feminismo ou ainda vamos achar que estamos sendo revolucionárias, quando temos um discurso elitista e excludente.
Termino com um dos meus poemas preferidos:
Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro.