sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mulheres Indígenas inspiradoras: conheça a história de cinco mulheres

A despeito de estarem muitas vezes esquecidas nos debates sobre gênero e serem  grandes vítimas de violação de direitos no país, as mulheres indígenas estão ganhando as universidades, são cada vez mais atuantes na defesa do direito à terra, proteção do meio ambiente, educação, saúde e  cidadania. São firmes no desejo de manter a cultura, tradições e espiritualidade das suas etnias e ocupam os mais diversos espaços  da sociedade. Conheça cinco das cem mulheres inspiradoras . Elas falam sobre suas trajetórias, lutas, conquistas e os desafios de serem mulheres indígenas numa sociedade que ainda as apresenta de forma caricata e ignora seus direitos: 
Joenia Wapichana
 

"Eu sempre tive comigo esse sentimento de que era preciso vencer a injustiça contra os povos índigenas e foi por isso que eu fui fazer Direito."
Recém formada, a advogada Joênia Wapixana foi acioanda por uma vizinha desesperada que teve o filho levado para a prisão. Ao chegar na delegacia, a advogada recebeu olhares preconceituosos. "Você é esposa do preso?", "Você é amiga do rapaz preso?", perguntavam. "Não, eu sou a advogada dele", respondeu - para espanto dos policiais.  O espanto não era outro senão pelo fato dela ser uma mulher indígena. Joênia quebrou paradigmas  ao se tornar a primeira mulher brasileira de origem indígena formada em Direito. Aos 24 anos, Joênia começou a atuar em ações judiciais locais na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. O processo ficou conhecido internacionalemente e serrastou por décadas. Em 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou  um decreto que homologava de forma contínua a terra indígena Raposa Serra do Sol. O reconhecimento desta terra era uma reivindicação histórica dos índios da região – das etnias macuxi, wapixana, ingarikó, taurepang e patamona. Joênia esteve a frente de todo o processo: "Naquela época, no começo, as pessoas não davam crédito porque eu era jovem, mulher, advogada indígena e sofria preconceito até por ser Wapixana, já que minha etnia é pequena em Roraima. Também existe este preconceito ético entre os próprios indígenas", relembra. "Eu sempre tive comigo o sentimento de que era preciso vencer a injustiça contra os povos índigenas e foi por isso que eu fui fazer Direito", lembra.
Como ela mesmo gosta de dizer, "sempre deu a cara pra bater". Joênia entendia que a visibilidade que o caso recebia na mídia era uma oportunidade para falar sobre as questões indígenas numa escala maior. "Eu falava com a mídia estrangeira, participava de congressos internacionais falando sobre a quetsão da terra, da biodiversidade. Até o fato de eu conseguir viajar era uma grande vitória porque existia muito machismo dentro das aldeias de que a mulher não podia viajar, sair da cidade, porque ela ia se perder. Como eu ia e representava bem, os homens começaram a deixar as mulheres saírem". A escolha pelo direito veio da vontade de conhecer melhor os caminhos que podiam levar seu povo a uma vida com mais dignidade.
Não é à toa que em muitas aldeias de Roraima é fácil achar meninas que se chamam Joênia. "Eu fico muito feliz, mas é uma responsabilidade grande porque a gente é espelho. As lideranças sempre nos alertam disso, de que precisamos vigiar porque as pessoas estão olhando pra nós. A gente não podia desistir, tinhamos que dar o melhor de nós mesmos para não desistimuar os outros", diz 
Zahy Guajajara

"Os indígenas já são artistas genuínos: são grandes artesãos, cantores e dançarinos natos. O que falta é oportunidade de mostrar o quão bom eles são."

Desde que a menina Tainá, interpretada pela atriz Eunice Baia, encantou milhares de expectadores nas salas de cinema do Brasil, a população indígena não tem uma estrela pra chamar de sua. Isso pode mudar nos próximos meses quando chegarem às telas do cinema e da TV os trabalhos feitos pela atriz Zahy Guajajara, da etnia de mesmo nome situada no Maranhão. Fluente na língua guajajara e no português, Zahy trabalhava como agente de saúde no município maranhense de Barra do Corda ajudando mulheres grávidas que não falavam português nos exames e na hora do parto. Aos 19 anos, decidida a se mudar pro Rio de Janeiro, enfrentou oposição da família e da aldeia. "Quando eu saí, fui muito criticada. Meus parentes achavam que eu não queria mais ser índia, que eu tinha vergonha do meu povo. Hoje eu sou um orgulho pra muita gente, muitos índios se espelham em mim", comemora a atriz.
Fazendo trabalhos como modelo, Zahy não pensava em ser atriz até receber um primeiro convite. Tomou gosto pelo ofício e começou a estudar. Em julho chega aos cinemas o seu primeiro longa "A curva do rio sujo", do diretor Felipe Bragança. Ela também é a protagonista do média metragem "A sociedade da natureza"  e já gravou a minissérie "Dois Irmãos" que estreia no segundo semestre na Rede Globo sob a direção de Luiz Fernando Carvalho. Zahy conta que fez das artes seu ativismo. "É claro que também existe muito preconceito em relação à presença de indígenas na TV, no cinema, no teatro. Os indígenas já são artistas genuínos: são grandes artesãos, cantores e dançarinos natos. O que falta é oportunidade de mostrar o quão bom eles são. Estão surgindo índios cineastas, fotógrafos, cantores, que buscam formas de mostrar nossa cultura no meio artístico".
Além de atriz, Zahy também é  fotógrafa e poetisa. Seus poemas podem ser lidos na sua página no Facebook.
Nos anos 70 em Macapá, capital do Amapá, Sílvia, uma menina indígena da etnia tribo Waiãpi, era mais uma dos muitos alunos que sonhavam em ter a honra de hastear a bandeira do Brasil numa cerimônia que era realizada semanalmente no pátio do colégio. Isso nunca aconteceu. "Eu pedia sempre, mas por ser indígena, eu era barrada", relembra Sílvia Nobre Waiãpi. "Eu pensava: um dia eu vou hastear a bandeira do Brasil, um dia ainda vão ter orgulho de mim". No dia 16 de julho de 2011, ela hasteou a bandeira do Brasil na cerimônia de  abertura dos 5º Jogos Mundiais Militares, maior evento esportivo militar já sediado no país.
Sobrevivente de um acidente aos 4 anos quando um pedaço de madeira lhe atravessou o abdômen, Sílvia deixou a aldeia para se tratar em Macapá. Aos 14 anos, cansada do preconceito étnico racial, mudou-se pro Rio de Janeiro. Foi sozinha e sem conhecer ninguém. "Eu passei fome, dormia na rua. Mendiguei durante um tempo e depois fui vender livros e revistas usadas. Eu conseguia vender qualquer coisa. O bom dos livros era que eu devorava tudo, lia todos os que via pela frente". 
Ainda adolescente foi convidada a ir a uma reunião de intelectuais no Teatro Vila Lobos no Rio. O contato com as artes lhe descortinou um mundo de possibilidades. Começou a estudar e a escrever poesias. Em pouco tempo já trabalhava como aderecista na Rede Globo, onde também participou de algumas produções e colaborou em laboratórios feitos para atores que precisavam mergulhar na cultura indígena para novelas e séries, como "A Muralha" e "Uga Uga". No Rio, também descobriu o esporte. Praticou atletismo e foi e atleta do Vasco da Gama entre 2000 e 2007. Depois de formada em artes, Sílvia foi estudar fisioterapia graças a uma bolsa de estudos que recebeu. Foi também por meio do esporte que ela teve o primeiro contato com os militares. Especializada em Fisioterapia Esportiva, Sílvia Nobre trabalhou por mais de seis anos na área. Este contato despertou seu interesse pela carreira militar. No fim de 2010, foi aprovada no concurso para oficial do Exército. Atualmente é chefe do serviço de medicina física e reabilitação  para fisioterapia no Hospital Central do Exército, no Rio. "As pessoas carregam um esteriótipo do índio como preguiçoso, mas eu  trabalho todos os dias das 7h às 19h de maneira incansável. Nós não somos preguiçosos, a gente só trabalha com aquilo que a gente gosta".  Seu sonho atual é trabalhar junto à Organização das Nações Unidas: "Quero contribuir com meus conhecimentos em saúde, trabalhar com ajuda humanitária, sem nunca esquecer de lutar pela saúde do meu povo". 
Naine Terena

"Existe um interesse enorme dos povos indígenas de se apropriar do registro da narrativa, seja por livro, por filme, no rádio. Além de resguardar o conhecimento, isso nos dá voz. Assim, ninguém distorce nossa fala."
Graduada em Rádio e TV pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), mestre em Artes pela Universidade de Brasília (UnB), doutora em Educação pela PUC-SP e pós-doutoranda na UFMT no laboratório de Estudos sobre a informação e comunicação na educação. Esse é o currículo de Naíne Terena, que tem usado o meio acadêmico para discutir o papel dos indígenas como protagonistas na educação e na comunicação.
A etnomidia é tema constante dos estudos de Naíne Terena, que defende uma apropriação cada vez maior por parte dos povos indígenas de todos os instrumentos de comunicação para a construção e confecção de narrativas próprias. "Vem surgindo muitas iniciativas nesse sentido, de modelos de comunicação, de empreendedorismo, de produção audiovisual  e radiofônica feita pelos indígenas, como a Rádio Yandé", explica Naíne que também é pesquisadora do Laboratório de Tecnologia, Ciência e Criação da UFMT. "Existe um interesse enorme dos povos indígenas de se apropriar do registro da narrativa, seja por livro, por filme, no rádio. Além de resguardar o conhecimento, isso nos dá voz. Assim, ninguém distorce nossa fala". Naíne alimenta no Facebook a página "Notícias Indígenas", um apanhado de reportagens relavantes  produzidas por diversos veículos e por ela mesma. Em 2014, ela deu início ao "Projeto Territórios Criativos Indígenas: arte e sustentabilidade", que desenvolveu atividades de pesquisa e capacitação em quatro comunidades indígenas de Mato Grosso, com o intuito de projetar estratégias de sustentabilidade e geração de renda geridas pelas próprias comunidades. O projeto é uma parceria entre o Ministério da Cultura (MinC) e a UFMT.
Pesquisadores doutores vinculados à UFMT e estudantes indígenas da mesma instituição dão orientação técnica às comunidades indígenas para o desenvolvimento de atividades econômicas com o foco na comercialização de produtos, direitos culturais e patrimônio indígena e captação de recursos que visem o benefício comunitário e familiar.  O resultado dos dois anos do projeto poderá ser visto este mês no SESC Arsenal, em Cuiabá, quando as comunidades indígenas participarão de uma rodada de negócios que inclui produtos que vão de biojóias a passeios com foto no etnoturismo.   Para além dos trabalhos com foco em etnomídia e empreendedorismo dentro das aldeias, Naíne luta pelo cumprimento se tornou uma  da Lei nº 11.645, de 2008, que prevê a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras. Segundo ela, são poucas as instituições de ensino que tem cumprido a lei. "Nós temos um problema porque até mesmo os professores não passaram por uma formação específica pra dar esse tipo de conteúdo, os materiais didáticos são fracos. O professor não sabe como colocar essa temática dentro da sala de aula. Estamos lutando para que isso não se torne uma disciplina optativa". 
Ana Terra

“Por que não ter um espaço só das mulheres para  a gente compartilhar umas com as outras o que a gente sabe?”
Em algumas aldeias do Alto Xingu, no Mato Grosso, os homens sempre tiveram um espaço próprio para se reunir e tomar decisões. A "Casa dos Homens" geralmente fica no centro das aldeias e a entrada de mulheres é terminantemente proibida. Existem objetos sagrados dentro destes espaços que, pela tradição indígena, não podem sequer receber os olhares de uma mulher.  Ana Terra Yawalapiti cresceu sabendo que não era bem vinda no espaço. Nem a curiosidade de criança a fez se arriscar a espiar o que se passava dento da "Casa dos Homens". Já adulta, junto com a irmã Watatakalu, começou a ansiar por um lugar em que as mulheres da aldeia Tuatuari também pudessem se reunir. “Quando você olhava ao redor na aldeia, percebia que as mulheres não sabiam mais fazer o artesanato, as redes, as cerâmicas tradicionais do nosso povo. Começou a existir um desinteresse.”, diz Ana. Um pensamento começou  a se tornar constante: “Por que não ter um espaço só das mulheres para a gente compartilhar umas com as outras o que a gente sabe?”.
A vontade surgiu em 2013 e não foi bem recebida  pelos homens da aldeia que viam a ideia como despropositada, uma espécie de rebelião. Só o pai de Ana, o cacique Pirakumã Yawalipiti apoiou a empreitada. “A primeira vez que nós conversamos, não teve nenhum apoio. Foi uma batalha enorme e a com o tempo a gente foi conversando e se entendendo”, explica Ana, que é hoje uma liderança do Xingu e uma veemente defensora do patrimônio imaterial dos povos indígenas, especialmente o direito à imagem contra a apropriação cultural dos elementos sagrados de seu povo. Três anos depois da primeira conversa com a lideranças da Aldeia, em 2013, as irmãs Yawalapiti trabalham sem descanso na construção da "Casa da Mulher", que deve ser inaugurada em junho deste ano. Feita de madeira, num modelo de casa tradicional, o espaço servirá para troca de saberes entre as mulheres que passam a adquirir mais visibilidade e assumir a liderança nas comunidades e fora das aldeias. Antes mesmo do início da construção, Ana se empenhou em reunir as mulheres da aldeia que num resgate da tradição voltaram a ter contato com cêramica, tecelagem e cestaria. Avós passaram a ensinar o bordado das redes para as netas, e mãos destreinadas voltaram a moldar o barro. Assim a tradição tem sido resgatada. “Nós começamos a fazer um mutirão, passamos a ensinar as crianças. A "Casa da Mulher" vai ser um lugar de aprendizado, para que a gente volte a confeccionar o algodão, o barbante e servirá também como um lugar de acervo daquilo que a gente produz”. 
Fonte, foto  e entrevista : EBC 

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