terça-feira, 5 de maio de 2015

Como as mulheres da etnia Munduruku dão à luz

O momento do parto é talvez um dos mais emblemáticos da civilização humana. Ao longo do tempo e nas mais variadas culturas uma vasta gama de crenças e rituais marcam a chegada de uma nova vida ao mundo. Longe das explicações científicas, muitas etnias indígenas ainda preservam nos dias atuais teorias bem particulares sobre a concepção, a gestação e o nascimento de um ser humano.

A pesquisadora Raquel Paiva Dias Scopel viveu a experiência de habitar na Terra Indígena Kwatá-Laranjal, Município de Borba, Amazonas e colher relatos de indígenas da etnia Munduruku sobre o tema. Sua tese “A cosmopolítica da gestação, parto e pós-parto: práticas de autoatenção e processo de medicalização entre os índios Munduruku”, foi apresentada na Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do grau de doutora em Antropologia Social. 

Do extenso e profundo estudo destacam-se algumas características principais dessas crenças, resumidas a seguir.

Menstruação - Na cultura Munduruku, o sangue menstrual é um forte atrativo para os “botos” (seres místicos que provocam doenças, infortúnios e até a morte). Durante o período da menstruação, as mulheres cumprem um resguardo que consiste em se banhar dentro de casa (em vez de ir ao rio, como os outros) e não ir até as fontes de água, como o rio e a cacimba, para evitar o risco de ter uma “gravidez de bicho” provocada pelo boto ou por animais, como cobra ou peixe (em que a concepção acontece em sonhos) e que levam ao aborto e óbito do bebê ou da mãe. 


Concepção e gestação - Eles acreditam que o bebê é formado a partir da junção do sêmen do pai ao sangue menstrual da mãe, por isso, evitam ter relações nesse período como método contraceptivo. (As mulheres também fazem uso de remédios caseiros para reduzir o fluxo menstrual e espaçar as gestações) Durante o período da gestação, enquanto as mulheres engordam e trabalham normalmente, é comum que alguns homens sofram o “abalo de criança”, que causa fraqueza, abatimento, prostração, perda de peso, enjoo e desejo. Isso porque creem que o bebê “puxa” as energias do pai, que é encorajado por todos a não se deixar entregar, mas faz com que muitos passem dias deitados nas redes.  Além da participação efetiva de ambos os pais na concepção e no desenvolvimento para que o bebê cresça também é necessária a participação de Karusakaibu (citado nos mitos como criador dos Munduruku, dos animais de caça e dos artefatos culturais), aceito também com os nomes de Deus ou Jesus. Ele é responsável pela formação do corpo humano, com todos os órgãos internos e externos.

Part0 - Do ponto de vista dos Munduruku, as atividades exercidas pelos pais ao longo da gestação são responsáveis por facilitar ou dificultar o trabalho de parto. A mulher é aconselhada a não contar ao marido sobre o início do trabalho de parto, porque isso pode fazer com que seja mais doloroso e demorado. Só avisam quando as contrações estão fortes. É  um evento íntimo e familiar entre os Munduruku. Apesar de contar com a opção de parir em unidades hospitalares, do polo base de saúde Laranjal ou do Sistema Único de Saúde na cidade vizinha, Nova Olinda do Norte, muitas mulheres que vivem na Terra Indígena Kwatá-Laranjal preferem ter os filhos em casa, onde podem, inclusive, ter o apoio de médicos e técnicos de saúde do polo.  As que preferem parir em casa contam principalmente com o apoio de uma mulher que tem o dom de “pegar barriga”. Essas figuras são geralmente parentes próximas, senhoras que já tiveram filhos, com experiências em parto, conhecimentos de ervas, chás, banhos e rezas. Por meio da apalpação da barriga conseguem saber se a gravidez é "de gente" ou "de bicho". Ela também sabe determinar o sexo da criança pela observação da consistência e dos movimentos do feto. Ao longo da gestação essa mulher faz o acompanhamento para verificar se o bebê está na posição certa para nascer. Se não estiver, pode ser encaminhada para o hospital.  Além de “pegar barriga”, elas sabem como fechar a “mãe do corpo” depois do parto e colocá-lo no lugar, quando se desloca, por meio de massagens no ventre. A “mãe de corpo”, segundo o conhecimento munduruku, fica localizado abaixo do umbigo da mulher. Não é equivalente ao útero nem à placenta, mas é entendido como “a força da mulher” ou “a saúde da mulher”, segundo depoimentos colhidos pela pesquisadora. Quando "sai do lugar" pode causar mal-estar uma série de doenças.  Durante a gestação e o parto a gestante é instruída por essa mulher a tomar banhos de ervas específicas para abreviar o trabalho de parto e diminuir a dor.   A mulher tem liberdade de posições: de joelhos, com as mãos apoiadas na rede; parcialmente deitada ou sentada no chão, com alguém segurando pelas costas com os braços ao redor da parturiente; ou “sentada” em um banquinho (um banco de altura pequena, talvez, uns 10 cm do chão), usado especialmente para o parto, com alguém apoiando pelas costas, preferência entre as mulheres Munduruku.  Quando o bebê nasce é amparado pela parteira, que também tem a função de preparar o local de parto, cortar o cordão umbilical e fazer o asseio da mulher no pós-parto.

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