sexta-feira, 5 de julho de 2024

3 de Julho marca 58 anos de sobrevivência, invisibilidade e sonho por liberdade

 Por Mônica Aguiar


Neste 03 de julho de 2024, são muitos os fatos do Brasil que podemos lembrar. Dois deles, o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial e a criação do Ministério da Justiça. Também é dia dos incrédulos e o 184.º dia do ano no calendário gregoriano (185.º em anos bissextos).

Neste 03 de julho, eu faço 58 anos. Ao chegar nesta idade, interrompo meu ciclo diário e penso em tudo que passou e passei. 

São tantas as lembranças que torna incapaz de segurar as lágrimas. Muitas alegrias. Muito maiores as pelejas e consternações.   

Ao pensar nas batalhas, começam a lembrar do tempo em que eu, ainda jovem e com 03 filhos para criar sozinha, nos períodos de férias, que deveria descansar, estava presente nas agendas e ações realizadas pelo movimento negro brasileiro e de mulheres.

Está presente em reuniões, seminários, encontros e congressos não era uma tarefa simples. 

Eu quero, eu vou. 

Existia toda uma dinâmica para ser eleita como representante e estar nestes lugares.

Os critérios apresentados para a disputa eram sempre refletidos nos valores existentes na sociedade e constituídos por obstáculos presentes nas estruturas do racismo.

Para uma mulher negra, com filhos, pobre e favelada, estar presente nestes locais, além de estratégico, contribuía com a sua formação política e social. Perfurava a bolha classista, seleta e excludente.

Para mim, também dava condições de aprendizado e informações que poucas tinham, e, para isto, era necessária muita determinação e enfrentamento duro para conquistar o acesso nestes espaços.

Estar presente não apenas para dar respaldo em silêncio. Se um número. 

Bater palmas ovacionadas. Mas, cumprir meu verdadeiro papel. Defender sem medo teses em defesa dos direitos das mulheres negras, sobre as desigualdades no mercado de trabalho, dentre outras pautas importantes.

Ajudar a construir estratégias que assegurassem ações para dar viabilidade na apresentação de propostas aos Governos, com objetivo de fazer com que o Estado brasileiro reconhecesse a existência do racismo, desigualdades sócio raciais, especificidades e assimetrias na saúde, a discriminação e preconceitos, genocídio por ações violentas e as reparações.  

Como foi difícil este período. As relações extremamente impertinente, independente de onde estávamos pisando. Ter que suportar todas as manifestações de discriminações e preconceitos existentes. 

A vontade de ver o mundo transformado com justiça e igualdades de oportunidades sempre foi meu ponto estruturante para manter firme e convicta da fala.

Ao anoitecer e entre as madrugadas, ao retornar ao aposento, olhar para meus filhos dormindo e ainda ter que pensar que precisaria formar uma barreira para que não percebessem o que eu estava passando para estar ali e com eles.

Nem tudo saia desapercebido. Minha filha, com 7 anos, perguntava-me: mãe, por que não vamos embora daqui? Este povo não gosta de mulher que tem filhos. A gente não tem roupa direito. Eles ficam olhando, riem e sussurram. 

Com os olhos cheios de lágrimas, eu passava a mão no rosto dela e respondia: — Um dia você vai entender e, se ainda precisar, fará o mesmo. Mas será de outra forma.   

Não tinha como não chorar muito, pensar em desistir. Fingir que estava tudo bem. Demostrar-se dura e ser franca para defender, além das pautas, a minha prole que sempre precisou me acompanhar.

Frases pejorativas: A casa dela não tem televisão!  Está nega, gosta de sexo! Está precisando arrumar trabalho!

Para além das “piadinhas” que doíam muito, sempre mantive meu foco em combater o que outras mulheres negras, como eu, sofriam na sociedade, com misógina, machismo, racismo, preconceitos. 

Violações que não permitiram o exercício da cidadania e limitavam a liberdade de ir e vir, de decisão, de autonomia sobre o corpo.  Violências política e de gênero.

Pensamentos subjetivos, nunca! Sempre coletivizados com outras mulheres que faziam o coro e solidarizavam às dificuldades impostas.

Uma agulha no palheiro dos grandes tecnocratas existentes. Uma voz somada a poucas que resistiam a todas as discriminações e preconceitos da casta burocrata que se alto titulavam de Capas Pretas. 

Eu e algumas pessoas éramos denominadas de pão com salame, reconhecidamente como o mal necessário para dizer que existia democracia. De fato, para todas as mulheres sempre existiu uma regra: manda quem pode e obedece quem teve juízo.

Sempre foi assim, e hoje é muito mais devido à dependência política, econômica e "este novo conceito de enfrentamento"(this new concept of coping) onde prevalece a subordinação, resiliência do bom modo de ser e do bem-saber protestar.

Na minha avaliação, quando falta indignação, sobra obediência. Como disse Martin Luther King Jr. “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”

Eu sempre li muito. Escrevia muito pouco devido às críticas perversamente maldosas para me desestruturar e silenciar meu lugar de fala.

A LIBERDADE NUNCA É CONCEDIDA VOLUNTARIAMENTE PELO OPRESSOR; DEVE SER EXIGIDO PELOS OPRIMIDOS. Martin Luther ”

Por mais que eu tenha conquistado um pequeno lugar de posição dentro desta casta tecnocrata, existem invisibilidades com relação à história da minha representação e feitos para a sociedade. De fato, quando não negam a existência, ainda utilizam conceitos bairristas e diminutivos. Um apagamento proposital das minhas ações.   Se é político ou personalíssimo, não sei.

Nos meus 58 anos de sobrevivência, não sei responder quais são as justificativas para a necessidade prática de produzir a minha invisibilidade política e como militante e ativista negra.   

Um livro ou um pequeno trecho da minha história de vida não vão conseguir traduzir as mazelas e sequelas existentes.

Neste tempo em que vivo, vou me dar o direito de não colocar flores nos pedestais de quem se apropriou indevidamente de nossos conhecimentos e talento de sobreviver. 

Nem muito menos baterei palmas aos gestos individuais que só contribuem com o apagamento de várias outras mulheres negras que são protagonistas da história do Brasil.

A história da minha vida, o sonho por liberdade, somasse a realidade de milhares neste vasto País.

 A gente é criada para ser assim, mas temos que mudar. 

Precisamos ser criadas para a liberdade. 

O mundo é grande demais para não sermos quem a gente é."

Elza Soares – Cantora”

 

 Mônica Aguiar é negra e feminista, fez 58 anos. É blogueira. Residente e nascida em Belo Horizonte/MG, na região Distrito de Venda Nova, que tem 320 anos. Ativista independente à 43 anos é coordenadora geral do Centro de Referência da Cultura Negra de Venda Nova, entidade que fundou e  conquistou centenas de moradias para mulheres negras chefe de família em Belo Horizonte e no Vetor Norte.  É da Rede Nacional de Mulheres Negras Ciberativistas e da Rede de Saúde em Mulheres de Minas Gerais. Coordena o Projeto "Destaque Mulher Negra".  Mônica Aguiar, já fez parte das executivas de vários Conselhos de controle social na cidade de Belo Horizonte e de representação estadual, em Minas Gerais. Foi da Articulação nacional de Mulheres Negras brasileiras, Rede Nacional de Mulher e Mídia e Rede Feminista em Saúde.  

Esteve em vários movimentos de mulheres negras nacional. Foi sindicalista. Dirigente do Partido dos Trabalhadores , municipal, estadual e nacional. Foi Secretária Estadual de Combate ao Racismo.  Ajudou a Coordenar e organizar várias Marchas Nacional de mulheres negras e Zumbi dos Palmares. Mônica Aguiar foi a primeira mulher negra a participar da queima da Bandeira do Brasil no Dia da Bandeira. Foi propositora da criação da Delegacia especializada em crimes Raciais de Minas Gerais e da Coordenadoria estadual de Promoção da Igualdade Racial de Minas. Coordenou várias frentes de luta contra o racismo e em defesa das mulheres negras. Ajudou a criar várias Coordenadorias, conselhos municipais de Promoção da Igualdade Racial em Centena de Cidades de Minas Gerais .

Desde 2010 mantém este Blog Mulher Negra, com “notícias do Brasil e do mundo diariamente. Educação, ciências e tecnologia, cultura, arte, cinema, literaturas, economia, política, dentre outros. Construindo a visibilidade das mulheres negras em fatos reais no mundo”. 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Avanços sociais não chegam na ampla maioria dos lares chefiados por mulheres negras.

 Por Mônica Aguiar 

Foto:CERCUNVN
As Mulheres negras são 28,5% da população total e recebem 10,7% do total da renda do trabalho no Brasil. 
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, faz menção a 'baixa longevidade' e 'menor possibilidade de estudo' para elas. 

Mesmo sendo o maior grupos da população no Brasil, mais de 60 milhões, 28,5% dos brasileiros, estão longe dos ganhos em desenvolvimento humano no país. 

Apenas 10,7% do total da renda recebida pela oferta de trabalho no país é destinado às mulheres negras.

As mulheres negras correspondem o maior percentagem de brasileiros em idade ativa: 48,3 milhões, ou 28,4% do total e formam grupo menos beneficiado por avanços sociais.

Estes dados fazem parte da Pesquisa realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgados em 28 de maio, Dia Internacional de Ação Pela Saúde da Mulher e Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna.

Revelam as violações por fatores externos que influenciam diretamente o cotidiano de vida de cada uma. Das esferas públicas à vida privada.

Conforme a Pesquisa: “Essa condição desfavorável também afeta seus dependentes, tornando-os suscetíveis a menor frequência escolar, menores anos de estudo e participação precoce no mercado de trabalho ou, ainda, ao trabalho infantil”.

Em idade ativa, enfrentam as piores formas de inserção, remuneração e qualidade de postos de trabalho. 

Dessa forma, formam um grande grupo, cuja maioria tem uma renda mensal inferior, complementada por programas sociais assistenciais.

A falta de acesso aos programas de saúde sexual e reprodutiva é confirmada com os números de filhos existentes nestes lares. O grau de responsabilidade no sustento e cuidado com a família é um dos fatores que afastam as mulheres negras da escola e têm como alternativa o subemprego.

Vitimismo ou realidade condicionada? Mesmo sendo a maioria que acessa o Bolsa Família, nestes lares predominam algum tipo de insegurança alimentar.

Pretas e pardas dedicam mais tempo às tarefas domésticas, têm menos participação no mercado de trabalho e são nomes contados nos dedos que ocupam cargos de poder ou de  decisões.

Qual o papel do Estado em reparar os danos provocados por mazelas da escravidão?

Qual é a responsabilidade que uma mulher negra tem, para diminuir as desigualdades buscando trabalho em uma sociedade onde a maioria das pessoas faz a escolha para ocupações de cargos utilizando dos mesmos valores morais e raciais existentes no período escravagista, definindo quem entra, permanece, avança, sai ou tem ganho salarial devido? 

As mulheres brancas tem mais facilidade de conseguir se emancipar da tarefa de cuidado. As mulheres negras estão cada vez mais atarefadas e expostas a todos os níveis de violência.

O que compete aos Governos? Será mandar “fechar a porteira”? O que significa fechar a porteira? 

Quando analisamos as sequelas de um dos maiores crimes contra a humanidade já cometidos, a escravidão, compreende-se que o Estado brasileiro ainda não fez nada para promover as reparações.

Qual resposta o Estado poderá oferecer aos séculos de injustiças provocados pela existência a da segregação racial?

As ações afirmativas efetivas são fundamentais para garantir a eliminação dos obstáculos raciais existentes nos aparelhos do Estado e nas estruturas governamental.

Fontes: PNDU/G1/ IBGE


sexta-feira, 17 de maio de 2024

Saberes e as práticas das Parteiras Tradicionais são reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil

Por Mônica Aguiar  

*O dia das Parteiras é dia 20 de janeiro. Mas, foi no dia 09 de maio de 2024, que o conselho consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Ofício do Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil como Patrimônio Cultural do País.

Os saberes e práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil são uma realidade centenária presente em todo o território nacional.

O Ministério da Saúde também adota o nome Parteiras Tradicionais “por considerar que este termo valoriza os saberes e práticas tradicionais e caracteriza a formação e todo o conhecimento sobre o parto que a mulher parteira detém, além de respeitar suas especificidades étnicas e culturais”. 

As mulheres parteiras, em sua maioria, carregam as tradições das religiões de matriz africana e todas detém conhecimentos de boas práticas no parto que são transmitidas através da oralidade.

Não abrem mão dos princípios que regem sua ancestralidade, saberes milenares. Mesmo nas suas mãos, respeitam as características existentes em cada uma mulher.

Durante o parto, passam orientações específicas de posições para alívio de dor, sem interferir na autonomia da mulher. Ajudam a compreender que aquele momento e o corpo são dela, por ser ela quem está parindo.

O toque das mãos, a forma de acolhimento, as estratégias de cuidados, as ervas, o banho, o canto, tudo para garantir tranquilidade à parturiente e dar boas-vindas à criança que também passa ser reconhecida como sua.

Assim, ajudaram a vir ao mundo milhões de pessoas neste vasto e diferente Brasil.

Não existem dificuldades que a impeçam de atender o chamado, mesmo diante das dificuldades de acesso aos lugares onde residem as parturientes ou com relação às complicações que podem ocorrer durante o parto.

O parto é um ritual. 

O sagrado feminino.

Como bem descreve o dossiê produzido por pesquisadores do IPHAN e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 2021, para instrução do processo de registro do bem como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil:

Mestras do ofício do partejar, detentoras de um repertório de saberes e práticas acerca de todas as etapas da gestação (pré-natal, parto e pós-parto)”. Limitar seu papel à assistência no nascimento de crianças”.


AS CONTRADIÇÕES NO BRASIL

Nas grandes capitais e na maioria das cidades de médio porte, os partos ocorrem em ambiente hospitalar, com interversões traumáticas e desnecessárias. Devido às formas como são conduzidos, impedem a autonomia da mulher sobre seu corpo.  São milhões de cesárias desnecessárias e um enorme número de mortes maternas evitáveis. 

Apesar de o parto hospitalar ser a única alternativa em diversos municípios, várias organizações de mulheres atuam em defesa do parto e nascimento humanizado. Defendem a humanização do parto a partir do ofício, conhecimento cultural e da biodiversidade das Parteiras Tradicionais como elementos respeitáveis que podem contribuir significativamente para a produção de saúde, aprimorando os conhecimentos acadêmicos e tecnológicos e ser praticados nos Centros de Partos Normais(CPNs). 

Estas mulheres, ativistas, militantes, feministas ou não,  que lutam pelo direito de escolha da mulher, buscam regulamentação e visibilidade para que as experiências e conhecimento das Parteiras Tradicionais sejam articulados com a ciência e se consolidem como prática do bom parto por ser uma alternativa segura e natural. Existem evidências comprovatórias de vários fatores positivos que conferem viabilidade a esta prática do parto humanizado natural para ser universal no SUS.

NO BRASIL GERAL

O parto e o nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais estão presentes no País, principalmente nas regiões com áreas rurais, ribeirinhas, de floresta, em grupos populacionais: quilombolas e indígenas. Em 2001, estimava-se existirem no Brasil cerca de 60 mil parteiras.

O parto domiciliar assistido por parteiras tradicionais ocorre em situação de exclusão e isolamento, desarticulado do SUS. A grande maioria das parteiras não recebe nenhuma capacitação e não são remuneradas pelo seu trabalho.

*A data comemorativa foi incluída no calendário nacional por meio da Lei n.º 13.100/2015, como “Dia da Parteira Tradicional”. O dia 20 é o dia de aniversário da parteira tradicional mais antiga de Macapá, Juliana Magave de Souza, nascida em 1908 e que teria realizado cerca de 400 partos.

O reconhecimento dos saberes e práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil como Patrimônio Cultural do País foi realizado na  104ª Reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e será inscrito no Livro de Registro dos Saberes.

Fontes:  IPHAN / Biblioteca Virtual da Saúde MS/ Portal Catarinas/ REHUNA /

Fotos: Grupo Curumim / Governo Federal

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Interferência, violações de direitos ou violência política?

 Por Mônica Aguiar 

Caminhando. Na batalha. Sobrevivendo. Na luta. São respostas da maioria de mulheres que atuam como dirigentes nos partidos políticos quando perguntamos como está você.

Respostas demonstradas na voz exaurida das batalhas travadas cotidianamente.

Nestas considerações não vou falar das pesquisas que abordam das dificuldades das campanhas eleitorais e o peso dos fatores como a divisão sexual do trabalho, com a tripla responsabilidade e limitações da atuação política ou do Fundo Partidário.

Vou falar das relações, comportamentos, das consequências do domínio das direções partidárias por homens.

Nestes anos de observações, percebi que são poucas as mulheres que se erguem para furar a bolha política da casta humanidade masculina e todas ao falar das relações políticas internas, demonstram aspectos em comum: olhar cansado e distante, ombros caídos, rigidez ao sorrir e austeridade. Produto do tamanho do sofrimento e cansaço provocado por almejar fazer parte desta estrutura que sustenta a política.

Inadequadamente, as, interferência política de homens nas decisões das mulheres nos partidos causam desgastes nas relações, mas não provocam o debate político sério. Mesmo com as mulheres sendo a maioria entre as pessoas filiadas dentro nos partidos políticos a violência política e o racismo  interferem de maneira negativa nas chances de disputar e se eleger por um partido ou por um grupo interno partidário.

Deixa para lá! Você conhece fulano! Isto acontece! Você é forte. São frases vinda dos que dizem produzir a  “solidariedade” masculina quando existem embates políticos internos que escapolem das regras normativas estabelecidas também por eles.  

Dos que a mulher se encoraja e enfrenta, surgem termos insultuosos,  preconceituosos, declaradamente discriminatórios: Ela não aprende mesmo! Louca! Desajustada! Descompensada! Vaca! Cala boca mulher! Não sabe falar! Uma coitada! Não dá conta! Ela está querendo o quê?

Esta relação assentada na estrutura do patriarcado constituem violência política, possuem características especificas e muitas são veladas. Criam condicionantes dentro do sistema partidário que afetam os resultados para composição das direções partidárias.

É como escutássemos: “Sirvam nós de seus conhecimentos e afazeres, das grandes mobilizações, mas não venham querer estar onde estamos”.  

A maioria das mulheres não tem formação política porque o desenho organizacional nas direções não priorizam a formação política para mulheres. Muitas não tem compreensão alguma das práticas partidárias, negam a existência da violência política, fortalecem homens para estar nas frentes das fileiras ditando regras para as estruturas dos partidos. A maioria das mulheres dirigentes não tem acesso aos acordos que produzem os cálculos eleitorais, muito menos a quem manipula os recursos e aos mandatários que determinam  o lugar de cada pessoa nesta “engenharia”.

Este o sistema partidário brasileiro garante que a engrenagem rode sempre a favor do vasto e dominante poderio masculino.

A sustentação do discurso de boas práticas com novos modelos de relações, a utilização dos chavões generalistas, postura maternalista, comportamento baseados na obrigação e obediência feminina, aceitáveis aos homens, evitando constrangimentos políticos não coloca mulher alguma dentro das estruturas de um plano político maior. Tudo depende da vontade politica, do que estar em curso no jogo político que os homens produzem.

Por mais esforço que a mulher faça para corroborar, sempre será exigido a manutenção das regras do cuidado e da boa moral para com a denominada cúpula partidária.

Se as mulheres não enfrentarem os desafios de igual para igual e, entender que eles se modificam conforme a conjuntura política, continuará submetidas a violência política. 

A sustentação de certas opiniões existentes de democracia, igualdade e gênero não estão conseguindo acompanhar as mudanças e desafios atuais existentes dentro dos partidos políticos.

Resistência com passividade.  Ira na paz. Falas sem direcionamentos políticos. Hoje não existe concordância, é pura obediência.

Se quiser assim bem, se não, avoca-se as cotas!

Ideologia ou ideologismo? Estrategicamente, não se colocam como setores ou grupos organizados durante o processo eleitoral e nem se posicionam em prol de qualquer bancada existente. Sabem que quanto mais estiverem divididos nos partidos políticos, maior será sua representação.

Estes homens são representantes dos grandes setores e seguimentos que detém a informação, formação, capital e, que ganham visibilidade e existência organizacional pós o período eleitoral. Eleitos formam as grandes bancadas nas casas legislativas. Ocupam as presidências nas câmaras dos vereadores, Câmara Federal e Senado, presidem também as principais câmaras técnicas e comissões.

Para os seguimentos com pautas voltadas aos direitos humanos, hoje denominados “identitarias”, mulheres, negros, indígenas, LGBTQI+ e, dentre outros, tal estratégia política não funciona.

Existem impedimentos para que as mulheres não conheçam o que de fato existe dentro desta bolha do sistema partidário, politico e sistema eleitoral.

E onde estão as mulheres? Aguardando o cumprimento das cotas e migalhas de repasse dos recursos. 

Sendo perseguidas e criminalizadas dentro de muitos partidos.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Marcha Nacional por Parto Humanizado. "Escolha do local e do profissional"

 Por Mônica Aguiar 


Marcha Nacional pelo Parto Humanizado foi realizado em várias capitais do Brasil. Entre elas, Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Florianópolis, Campo Grande–MS. Em Belo Horizonte reuniram ativistas, entidades em defesa dos direitos das mulheres,   enfermeiras e parteiras, na Praça da Liberdade, ontem, dia (21).

A resolução n.º 348/2023 que proíbe a participação do médico em partos domiciliares planejados está suspensa temporariamente desde novembro do ano passado. O Cremerj moveu uma Ação Civil Pública contra duas profissionais e contra o Conselho Federal de Enfermagem, exigindo que enfermeiras obstétricas fossem proibidas de realizar partos humanizados sem integrarem equipes médicas. Com isto, criaram limitações a atuação de enfermeiras obstétricas nos partos domiciliares.

É os interesses corporativos da classe médica, entrando em choque com o direito ao exercício da profissão de enfermeiras obstétricas, doulas e parteiras. O parto humanizado é um modelo de assistência que garante o acompanhamento da mulher durante toda a gestação até o parto. Reconhece a autonomia da mulher, a fisiologia do procedimento, o direito de ter um parto respeitoso, livre das intervenções excessivas e desnecessárias que provocam a violência obstétrica. Tais práticas também estão refletidas nos altos índices de morbimortalidade materna e perinatal.

Infelizmente muitos médicos ainda acreditam que o parto são deles. Limitando assim às grávidas,  tomadas de decisões sobre seu parto e sobre seu corpo.

O Brasil ocupa a primeira colocação mundial em realização de cesarianas, que corresponde a 52% dos partos, sendo 80% em hospitais privados. O máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde é 15%.

A humanização do pré-natal, parto, nascimento e pós-parto estão estruturados nas análises, evidências científicas e necessidades de atenção específica à gestante. Existem várias prioridades, mas, eu sempre cito a impotência de adoção de medidas que assegurem a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto, puerpério e neonatal na perspectiva dos direitos de cidadania.

O Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento fundamenta-se nos preceitos de que a humanização da Assistência Obstétrica e Neonatal é condição primeira para o adequado acompanhamento do parto e do puerpério”.


E
xistem vários Estudos bibliográfico que buscam identificar a produção científica sobre humanização e assistência de enfermagem ao parto normal. Abaixo, deixo link onde tem fontes com artigos científicos da base de dados da SCIELO-Brasil, período 2000 a 2007. São 13 artigos agrupados nas seguintes áreas temáticas: medicalização do parto, humanização da assistência ao parto, acompanhante no parto e atuação da enfermeira obstétrica. A análise apontou que o paradigma atual é centralizado na intervenção do parto, apesar do movimento da humanização defender o parto natural e fisiológico realizado por enfermeira. Conclui-se que assistência de qualidade e humanizada ao parto e nascimento privilegia o respeito, dignidade e autonomia das mulheres, com resgate do papel ativo da mulher no processo parturitivo. https://www.scielo.br/j/reben/a/wBXGtDrrJ99ZNQrDVVrMNHH/?lang=pt

 

Fontes: REHUNA, Canal Saúde, Brasil de Fato, Agência Brasil, Centro de Referência da Cultura Negra de Venda Nova 

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