sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Poderoso discurso das Mulheres Negras

Por Mônica Aguiar 

As mulheres negras do Mundo tem se destacado com discursos poderosos, garantindo a disseminação das vozes e bandeiras de luta que historicamente foram  invisibilizadas.

Machismo,sexíssimo,violência,racismo,misoginia,patriarcado,desigualdades, discriminação, preconceitos, intolerância religiosa, islamofobia, antissemitismo, xenofobia, homofobia, são elementos em destaque para sustentação das desigualdades econômicas e sociais em todo o mundo. São historicamente enfrentados principalmente pelas mulheres negras.

As barreiras constituídas pelas práticas destes elementos, estão sendo traduzidos  para milhares de pessoas e por mulheres negras que versam sobre seus efeitos maléficos, através de vozes poderosas, palavras declamadas e escritas, elevando a autoestima da população negra. Desmistificando a subserviência existente. Requalificando a cidadania negra. Potencializando o ser humano negro.  

Palavras vindas de vários discursos emocionantes.

As mulheres negras tem rompido com as barreiras existentes, ao lutar por uma sociedade mundialmente igualitária.  


Beyonce, cantora e empresária
no evento “Dear Class of 2020” transmitiu por quase 10 minutos ininterruptos o que foi chamado de “uma dose de sabedoria” a jovens que estão saindo da faculdade no contexto da pandemia do novo coronavírus. 

https://www.youtube.com/watch?v=iGtJE58bli0

Beyoncé ao iniciar ser discurso para os formandos de 2020,  destacou as lutas únicas que os estudantes enfrentam hoje, principalmente, nos Estados Unidos e traçou uma linha de pensamento com ênfase especial no poder da ação comunitária, especialmente no combate à injustiça racial. Marcou seu discurso afirmando “Obrigado por usar sua voz coletiva e deixar o mundo saber que vidas negras importam” 

Entre seu discurso destaco: 

“Não havia mulheres negras sentadas à mesa. Então eu tive que cortar a madeira e construir minha própria mesa. Então, convidei o melhor para se sentar”.

“Por favor, continue a ser uma voz para os que não têm voz”, disse. “Nunca se esqueça: podemos discordar de uma maneira que seja produtiva para chegar a decisões que promovam mudanças reais. E se você cometer um erro, tudo bem também. Mas todos temos a responsabilidade de nos responsabilizar e mudar. Seja qual for o mundo em 10, 20 anos, parte disso depende de você. Peço que você deixe que esse momento o leve a melhorar a si mesmo em todas as áreas da sua vida. ”


Angela Davis,
professora, escritora, filósofa, historiadora, símbolo da luta negra na década de 1960 nos EUA.  Realizou um dos seus mais belos discursos na Marcha das Mulheres, em Washington, nos EUA, dia seguinte à posse de Donald Trump. Em 2017.  “Nós representamos as poderosas forças de mudança que estão determinadas a impedir que as moribundas culturas do racismo e do patriarcado heterossexual se ergam novamente”.

“A luta por liberdade do povo negro, que moldou a própria natureza da história desse país, não pode ser apagada com um gesto. Nós não podemos ser forçados a esquecer que a vida negra importa. Esse é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que quer dizer, para o bem e para o mal, que a história dos EUA é uma história de imigração e escravidão. Espalhar xenofobia, atirar acusações de assassinatos e estupros e construir muros não vai apagar a história”.

“Nós nos dedicamos à resistência coletiva. Resistência contra a biolionária especulação imobiliária e sua gentrificação. Resistência contra os que defendem a privatização da saúde. Resistência contra os ataques aos muçulmanos e aos imigrantes. Resistência contra os ataques aos deficientes. Resistência contra a violência do estado perpetrada pela polícia e pelo sistema carcerário. Resistência contra a violência de gênero institucionalizada, especialmente contra as mulheres trans e negras”

“Pelos próximos meses e anos nós teremos de intensificar a exigência por justiça social e nos tornarmos mais militantes em defesa das populações vulneráveis. Os que ainda defendem a supremacia do homem branco heterossexual patriarcal não passarão. Os próximos 1,459 dias do governo Trump serão 1,459 dias de resistência: resistência no chão, resistências nas salas de aula, resistência no trabalho, resistência na arte e na música. Isso é só o começo, e nas palavras da inimitável Ella Baker, ‘nós, que acreditamos na liberdade, não podemos descansar até que ela venha’. Obrigado.”

São centenas de lideranças que enfatizam intervenções no combate ao racismo e suas mazelas. Estas mulheres sempre lutaram e apoiaram as organizações das mulheres negras em todo o mundo. Se dispõem de onde estão e conquistaram, formar lideranças negras e fundamentalmente organizações coletivas. Nas questões da moradia, do emprego e da renda, da saúde, da educação, de segurança pública, saneamento e dentre tantos.   

 No Brasil


Suely Carneiro
, escritora e doutora em Educação . Teórica da questão da mulher negra criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras.

Na abertura do FestiPoa Literária 2019 disse:  ‘Organizem-se, porque não há mais limite para a violência racista’.

“E aqui estou eu nesta noite, realizando sonhos não ousados, fruto da generosidade e do acolhimento, não apenas dos meus discursos, mas sobretudo de reconhecimento de realidades e vivências cruéis que pessoas negras experimentam nessa sociedade e contra as quais tem que estar sempre em luta, sempre alerta, em legítima defesa”.

Na entrevista para revista Cult 2017 “ ….Estamos entrando em uma fase que ainda não conhecemos. Há uma nova etapa dessa sociedade. Eu tenho a impressão de que o processo a que a gente está assistindo está apenas no seu início. Ele não alcançou o seu limite. Nós temos um cenário político assustador, em que todo tipo de conservadorismo, reacionarismo, um conjunto de ideologias discricionárias, violentas prosperam impunemente na sociedade...”.

“Ser Mulher negra é experimentar esta condição de asfixia social”

  “Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta.”

A escritora Conceição Evaristo símbolo no combate a Vulnerabilidade Social, faz a luta através dos livros. Suas obras literárias tratam da periferia brasileira e da cultura negra de raiz africana, em especial da mulher negra do Brasil.

“Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra”.


"Na face do velho, as rugas são letras [...] / O que os livros escondem, as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha um ponto final na história."

Em entrevista ao G1,2018: - "O poema traz uma espécie de diálogo entre o que significa o jovem e o que significa o velho, como também traz um diálogo entre o valor da oralidade e o valor da escrita. Este item 'do velho e do jovem' é muito presente na tradição das culturas africanas em que o velho vale pela experiência que ele traz e passa aos mais jovens, que são o símbolo de esperança e da certeza que a vida continua. O mais jovem vai potencializar o mais velho", afirmou Conceição Evaristo.

Jurema Werneck médica, colunista, uma das mais importantes intelectuais do Brasil e Diretora executiva da Anistia internacional no Brasil. Seus desafios não são poucos.

“Mulheres potentes construíram nossas lutas, mas é preciso ir além”

"A superação, ainda que precária, de tantas injustiças e desigualdades, não teria sido possível se muitas não tivessem arregaçado as mangas e se colocado na linha de frente. No entanto, seus nomes costumam desaparecer dos livros, das homenagens, e mesmo de nossa memória coletiva”

Na coluna Marie Claire,2020:  

“Suas vozes e ações não encontram o eco necessário num país marcado pelo racismo patriarcal heteronormativo, que demora em garantir a igualdade de direitos para quem não é branco, não é homem cisgênero nem heterossexual”.

“A discriminação, a exclusão e a esperança em dias melhores impulsiona a vida e a trajetória de todas essas mulheres – e me incluo entre elas. Muitas outras, fora destas páginas, são protagonistas em suas realidades. O mundo está sofrendo e, com ele, todas nós, mas, entre nós, algumas carregam o fardo mais pesado. É preciso que continuem, mas que possam ter o apoio de muitas mais. Nossos ombros, nossas mãos, nossos compromissos precisam resultar em melhores condições para todas e não apenas para algumas entre nós”.

 


Luiza Bairros, professora, socióloga, escritora e ex Ministra da Promoção da Igualdade Racial no Brasil, faleceu em 2016.

No Geledés em 2016 : “Quanto mais desvalorizadas as ocupações, menores as diferenças salariais. Por isso, muita gente acha que o racismo brasileiro é mito. Aliás, o racismo no Brasil tem o poder de fazer com que as pessoas brancas se sintam confortáveis em viver em uma sociedade que, supostamente, não exige delas nenhum tipo de identidade racial. Eis o lance...”

“...O racismo institucional tem a ver com a forma com que a instituição se estrutura, como ela é composta. Aí vamos perceber que nos lugares de decisão a maioria das pessoas é branca. Os programas e os projetos executados, no seu conteúdo, não levam em conta as diferentes necessidades das pessoas que demandam esses programas, esses projetos. Além disto, também percebemos o racismo pela total ausência de normas, de regulamentos que, de algum modo, previnam ou desencorajem a prática de atos discriminatórios....”

“ Nosso grande desafio é básico: Assegurara o direito do negro à vida. Este é o aspecto mais profundo do racismo. A desumanização da pessoa negra”.     

Na ONU News : “todos os Estados membros da ONU podem reiterar sua capacidade de pensar que a situação dos afrodescendentes no mundo pode ser diferente”

 Fontes: Geledés/ Youtube/ G1/Marie Clare/ ONUNEWS/

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Movimento de mulheres negras pede ao STF ações contra o racismo e a violência de gênero

  


Movimentos de mulheres negras vão ao Supremo Tribunal Federal (STF) entregar uma carta pública das Mulheres Negras contra o Racismo e o Sexismo e pelo Bem Viver, nesta quarta-feira (30) às 13h.

O documento foi entregue ao gabinete do presidente da Supremo, Luiz Fux, com o objetivo de reiterar compromissos estabelecidos na Constituição Federal 1988. 

"Agora convocamos o Poder Judiciário a assumir a sua responsabilidade constitucional com a proteção de nossas vidas e com o exercício de nossas liberdades", consta no documento.

"Com a posse do Ministro Luiz Fux na Presidência do Supremo Tribunal Federal, renovamos nosso compromisso com a Constituição de 1988 e esperamos que esta Corte se comprometa diante de nós com o direito à vida, pelo reconhecimento pleno de nossa igual humanidade, pelo direito a ter direitos e pelo reconhecimento e valorização das diferenças", explicam.

Entre os seus 26 pontos, a carta traz um clamor para o direito à vida da população negra, reafirmando a existência de um "genocídio" em curso contra a população, principal alvo de violência policial, feminicídio e outras formas de violência. O documento pede também a garantia de direitos em relação à demarcação de terras de populações quilombolas, políticas de saúde, moradia, trabalho, educação e enfrentamento do racismo em diversos âmbitos, incluindo o religioso e o ambiental.

Elas pedem também que sejam cumpridas as normas previstas no Estatuto da Igualdade Racial e a implementação do Sistema Nacional de Promoção de Igualdade Racial (Sinapir). O grupo afirma que as mulheres negras têm sido os principais alvos do racismo e das discriminações de gênero nas suas mais diversas nuances.

O documento reúne mais de 2 mil assinaturas, entre elas 624 entidades e 1.510 ativistas. A filósofa Sueli Carneiro, a socióloga Vilma Reis e Anielle Franco, irmã da vereadora Marielle Franco, morta em 2018, estão entre as signatárias do documento.

Fonte e foto : congressoemfoco

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

30 anos de SUS. Falta implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde da População Negra

 Por Mônica Aguiar 

A população negra do Brasil se não tivessem o SUS estariam com um número de mortes previníveis muito maiores.

Estudos e estatísticas oficiais de saúde apontam que as mulheres negras com idade entre 10 a 49 anos são bastante afetadas por mortes maternas provocadas por causas evitáveis como hipertensão, hemorragia e infecção puerperal.

As mortes na primeira semana de vida também são mais frequentes entre crianças negras quando comparadas às brancas.

Ainda no contexto de mortalidade, a estatística registram que a segunda causa de morte mais frequente entre a população negra é o homicídio, enquanto para brancos, esta aparece como a quinta causa de mortalidade mais comum.

A população negra estar mais propensas a doenças genéticas e hereditárias: diabetes, hipertensão, miomas e doenças falciforme. São consideradas doenças mais comuns entre a população negra brasileira.

Analisando todos os números de óbitos por causas previníveis, estamos na porta do genocídio, por descaso e falta de implementação da Política Nacional de Saúde da População Negra nos municípios do Brasil.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra foi instituída no Brasil em 13 de maio de 2009, reconhecendo o racismo, as desigualdades étnico-raciais como determinantes sociais das condições de saúde e o impacto que o racismo provoca na garantia da vida e saúde da população negra.

O Sistema Único de Saúde é um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo. Ele deveria garantir acesso integral, universal e gratuito para toda a população brasileira.

A cada ano, aproximadamente 2,4 milhões de recém-nascidos fazem o exame de Doença Falciforme pelo SUS, ou seja, uma cobertura de 83,2% das crianças que nascem no país, Mas, dos recém-nascidos no Brasil, a maior taxa de mortalidade neonatal estão majoritariamente as crianças negras.

Devemos nestes 30 anos de SUS lembrar que o Brasil assumiu compromissos para com a saúde da população negra no ano que foi instituído a Década Internacional de Afrodescendentes pela ONU, para implementações de políticas em atenção à saúde da população negra, combate ao genocídio, acesso ao saúde pública de qualidade e reconhecimento das especificidades existente e dentre outras.

Estamos vivendo um período de descasos e perdas na implementação das políticas de saúde da população negra por parte do Ministério da Saúde e Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Estes Ministérios tem negado sistematicamente a existência das especificidades, a importância da transversalidade, intersetorialidade para combater o racismo institucional, garantir acessos iguais em lugares e de gestão públicas. Direitos fundamentais estabelecidos na Constituição Brasileira.

A falta de existência de um simples Comitê Gestor ou de uma simples Comissão dentro em  um Conselho Municipal de Saúde corroboram com o não cumprimento por parte de gestores municipais da saúde com os objetivos, diretrizes, estratégias com vistas à promoção da equidade em saúde da população negra dentro do SUS.

As resistências racistas, tem solidificado cada dia mais o racismo institucional e estrutural. Os números de óbitos vem demostrando o tamanho desafio e importância para de implementação desta política no Brasil.  

Mesmo com a população negra sendo a que mais acessa o SUS, ainda é a que tem menor acesso a saúde pública.

60% das mortes maternas ocorrem entre mulheres negras e 34%, entre mulheres brancas.

O racismo institucional funciona como uma espécie de mecanismo de impedimento de acesso das pessoas negras ao serviço de saúde, trazendo enormes prejuízos no seu processo de saúde, já que, por vezes, causa uma morte que poderia ser evitável e prevenível ou até mesmo antecipando essa morte que poderia acontecer de modo mais tardio.(  Emanuelle Góes, mulher negra, doutora em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA).

Os desafios de um sistema de saúde são constantes e novas demandas sempre surgem agudas e crônicas.

Em Belo Horizonte, na Região Distrito Venda Nova, existe uma maternidade pública, a Maternidade (Leonina Leonor), foi construída e equipada a mais de 10 anos, para atender de forma humanizada grávidas da Capital  seu entorno. Foram quase 10 milhões de investimento com dinheiro público e até o presente momento não foi colocada para funcionar. 

A Maternidade Leonina Leonor, é um equipamento voltado ao atendimento na linha de humanização do parto e se se estivesse aberta, funcionando, teria a capacidade para atender 350 parturientes por mês inicialmente, a expectativa seria que a unidade realizasse cerca de 500 partos humanizados. 

Venda Nova e uma região como predominância de mulheres pobres e negras. A população é composta por 51,61% mulheres e faixa etária entre 19 a 44 anos, que somam 68,34% em idades férteis e reprodutivas.  

A abertura da Maternidade Leonina e Leonor foi eleita prioridade pela 14ª Conferência Municipal de Saúde em 2017 e definida como a meta 4.2.4 no eixo de urgência, emergência e atendimento hospitalar no Plano Municipal de Saúde de Belo Horizonte 2018 – 2021, documento que expressa as responsabilidades da gestão municipal sobre a construção de políticas e ações de saúde a partir de um diagnóstico das condições e necessidades da população, mas segue sendo descumprido e a Maternidade permanece fechada

Na região de Venda Nova, são as mulheres que mais recorrem ao Sistema Único de Saúde para atendimento pré-parto, parto e pós-parto. Contudo, a Secretaria Municipal de Saúde alega que faltariam recursos para o seu funcionamento, isto à revelia das reivindicações sociais, deliberações do Conselho Municipal de Saúde, dados estatísticos de mortalidade infantil e materna na região, compromissos assumidos pelo Brasil no Oitavo objetivos do Milênio e compromisso assumido pelo Brasil na Década dos Afro Descentes.

Ao declarar a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), a comunidade internacional reconhece que os povos afrodescendentes representam um grupo distinto cujos direitos humanos precisam ser promovidos e protegidos.

O Brasil firmou compromisso de diminuir os números de mortes maternas até 2030, dentro dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável Assim sendo, é necessária a sua eliminação por meio do seu reconhecimento no país e da promoção de mudanças na cultura organizacional, objetivando a adoção de práticas de combate ao racismo dirigidos ao seu enfrentamento, assim como a comunicação pública de compromisso do país com a diversidade e enfrentamento de atos discriminatórios, a fim de que todos possam ter o acesso devido aos serviços públicos sem qualquer discriminação, já que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, conforme prescreve a Constituição brasileira de 1988.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mulheres negras enfrentam barreiras para sustentar candidaturas


Por Mônica Aguiar 

Apesar dos registros existentes de eleições no Brasil ocorrerem desde o período colonial, as eleições diretas e democrática tem história recente.
A primeira eleição em território brasileiro aconteceu em 1532, de forma indireta, com regras compiladas de Portugal. 
Determinavam a escolha das pessoas que ocupariam os cargos da Câmara Municipal e que seriam responsáveis pela administração das vilas coloniais.
Somente os denominados homens bons podiam, votar e ser votados. (Grupo de homens que possuíam alguma linhagem nobre ou que possuíam algum negócio de importância).
Em 1824, no período monárquico, além do voto não ser secreto, somente os homens livres, maiores de 25 anos e ricos poderiam votar.

Por que faço esta abertura?

As eleições no Brasil, é marcada por um passado com profundas exclusões e alterações de ordem conjuntural. As sequelas do sistema escravagista existentes estão apontadas de forma direta nas regras e resoluções tomadas internamente por vários partidos políticos que, não querem garantir a participação das mulheres e dos negros e negras de forma igualitária neste espaços de poder.

A quarta república foi uma das responsáveis pela institucionalização das desigualdades na política. Um formato que não permitiam pessoas analfabetas votassem.
O mesmo acorriam com centenas de mulheres analfabetas, não podiam votar. 
Como a maioria dos analfabetos compunham a massa da população negra brasileira, também não tinham o direito de votar. 

O Código Eleitoral de 1932 tem 88 anos. A promulgação da Constituição de 1988 tem apenas 32 anos.  Muitas alterações foram e, ainda, são necessárias para garantir que pessoas ou grupos étnicos/raciais que compõem a maioria da sociedade tenham espaços e diretos iguais.

A população masculina e branca ainda são a maioria dos parlamentares (deputados federais, estadual e vereadores) Executivos (governadores e prefeitos), em todo Brasil. 
Dentro dos partidos políticos são os que mais tem conhecimento político, alta escolarização, representação, decisão, intervenção e alto poder econômico.

Várias frentes marcaram a história eleitoral brasileira ao lutar por um processo eleitoral democrático e o voto como exercício de cidadania, tanto para as mulheres, quanto para população negra. 
O Brasil é o pais com um dos piores rankings de presença feminina no poder político. Para população negra continuamos como estivéssemos guardados no período colonial, mesmo tendo o direito ao voto . 

Nas últimas eleições municipais, em 2016, apenas 29% dos prefeitos eleitos eram negros e negras. Já nas câmaras municipais, 42% dos vereadores eram negros.
Dos 5.531 prefeitos eleitos nas últimas eleições, apenas 1.603 se declararam pretos ou pardos e desses, apenas 178 eram mulheres negras.

Das 7.689 candidaturas aptas em 2018, 31,6% eram mulheres. Mesmo com a iniciativa conquistada pela mulheres em 2018, de ser obrigatório que 30% do Fundo Eleitoral fosse direcionado para candidaturas femininas, o   percentual da cota de candidatas permanecem baixos: Para as disputas e no resultado.  

Dentre os 57.859 vereadores eleitos, 7.809 eram mulheres e apenas 2.872 negras.

Estudos e dados divulgado também pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram ainda que negros são minoria como candidatos. Foram 32,8% e 48,6% dos que lançaram seus nomes para o executivo e legislativos, respectivamente, dos municípios, em 2016.

A falta de representação da população negra como parlamentares, incomoda setores e seguimentos  que sempre lutaram para  corrigir disparidades das desigualdades existentes na política brasileira.

Neste ano 2020, em agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que os recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) passem a ser distribuídos pelos partidos de forma proporcional entre as candidaturas de negros e brancos.

Pela decisão, o critério de distribuição também deverá ser observado na divisão do tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. A decisão foi motivada por uma consulta apresentada pela deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), pré-candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro.

A distorção para cada candidaturas ficam maiores quando analisados os dados de presença das mulheres negras.

As mulheres negras ainda encontram muitas dificuldades de inserção internas nos partidos. O protagonismo estar a cargo dos homens brancos na ampla maioria dos partidos.
Muitas tomadas de decisões são determinantes para demarcar o território e espaço que as mulheres negras estão subordinadas a ocupar na sociedade desde a escravatura. 

A falta de transparência na distribuição dos recursos do fundo eleitoral, conforme percentual determinado pelas regras legais, também faz parte da dificuldade encontrada por muitas mulheres negras. Mesmo com os avanços conquistados para ajudar a impulsionar a presença da mulheres é visível a concentração de investimento financeiro em candidatura feminina branca muito justificada como uma “candidatura de confiança”, que fato, seve para  garantir a perpetuação da linhagem política e familiar de alguém de tradição partidária.  

Poderão ser eleitos em 2020: 5.565 prefeitos e 57,814 mil vereadores em todo Brasil. 

Os acordos políticos em prol de garantir a imagem e representatividade masculina na política ainda superam o cumprimento das legislações.

Quanto mais pobre, mais próxima da comunidade, com menor escolaridade, menores serão os investimento para que esta mulher negra seja eleita.

Afinal a cabeça pensa, onde seu pé pisa!
Estas representações deveriam ser garantidas para ocupar estes espaços de poderes, mas estas, para os partidos políticos, não são bem vindas!   

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Desigualdades no trabalho somente acabaram quando Governos tiverem compromissos com as Mulheres


Por Mônica Aguiar 


Em junho de 2019, os dados do desemprego de longo prazo, no primeiro trimestre, já atingiam fortemente as mulheres. Entre as desocupadas, 28,8% permaneciam  nestas condições, há pelo menos dois anos. 

No quarto trimestre de 2019 as trabalhadoras domésticas independente da formação, representavam 92,4% e, mais de 70% não tinham registro na carteira de trabalho. 

As mulheres negras representavam 74% das mulheres sem o registro.

Em junho de 2020, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo IBGE, reafirmou que o desemprego atingiu 14,5% das mulheres. São 39,4% superior a taxa de desocupação dos homens.

Estes dados que vem crescendo alarmantemente por conta da pandemia e por estar sendo retirado pelos atuais governantes, a responsabilidade do Estado em desenvolver ações de combate às desigualdades raciais e de gênero. As mulheres além de ser as mais atingidas pela crise econômica, são as mais afetadas por todos os efeitos da pandemia.

Segundo o IBGE, 38 milhões de pessoas no Brasil estão abaixo da linha pobreza; dessas, pelo menos 27,2 milhões são mulheres; elas também são a maioria entre a população idosa (56%) que sobrevive sozinha e com pequenos recursos.

No ranking da igualdade salarial, o Brasil é o penúltimo entre todos os países das Américas, perdendo só para o Chile (ocupamos o 124º lugar de 142 países avaliados). Estar no poço das desigualdades.  

As mulheres estão em maioria, exercendo as funções na prestação de serviços, serviços essenciais, domésticos, impactando consideravelmente na população negra.

Com o isolamento social, as categorias que mais sofrem e tiveram perdas, são as diaristas e empregadas domésticas, compostas por maioria de mulheres negras.

Se compararmos a participação das mulheres no mercado de trabalho, no período de 2019 e 2020,  depararemos com uma queda em 2020 de 7 pontos percentuais.  

Devemos lembrar que, mesmo as mulheres que tem mais qualificações(formação acadêmica e técnica), encontram dificuldades de se manter no mercado de trabalho. 
As mulheres com mais qualificações e que, ainda estão trabalhando, também tem a renda menor que de homens e encontram grandes dificuldades de ascensão na carreira.  

Milhares de mulheres com qualificação, ocupam postos  de trabalhos bem diferentes de sua formação acadêmica e técnica. A maioria são mulheres negras. 

Uma mulher chega ganhar 20% menos que um homem. Uma mulher negra chega ganhar 50% menos. Estas diferenças tem se aprofundado casa dia mais. 

Muitas profissões são usadas para demarcar o território e a renda que as mulheres são subordinadas a ocupar. Principalmente quando esta ocupação for pleiteada por uma mulher negra. 

Nesta conjuntura, em todas as funções, as mulheres enfrentam mais horas de trabalho que os homens. 

Considerado o período de isolamento social, com tantas creches e escolas fechadas, com salários tão baixos, sem condições de assumir a contratação de uma profissional, por ser chefe de família ou dividir as despesas do lar, a maioria das mulheres tem assumido uma jornada de trabalho exaustiva, ao ter que conciliar:-  trabalho fora, trabalho em casa, cuidado dos filhos ou netos, educação direta, ajuda à familiares e sobrevivência.

Com o nível de cobrança muito maior, muitas mulheres sofrem com a violência doméstica, discriminações e preconceitos dentro dos lares e na sociedade em seu entorno. 

A falta de perspectiva na política brasileira, passam a ser refletidas nos rostos cansados, vistos diariamente pelas ruas.   

Não é fácil para uma mãe ver seus filhos passando fome. Ao conversar com algumas mulheres, várias fizeram seguintes relato:

“Se estivessem pequenos, eu teria pelo menos o leite do peito para dar”

O Governo Bolsonaro e maioria dos Estados e Cidades, não se dispuseram em dar um passo, em direção ao combate às desigualdades sociais e raciais no mercado de trabalho para as mulheres antes e  durante a pandemia.

As mulheres são consideradas por estes gestores, pessoas sem direitos, de segunda categoria.  
Eles abandonaram totalmente a ideia que as mulheres são peças fundamentais para o equilíbrio da sociedade e, para isto as políticas afirmativas, transversais, intersetoriais, oportunidades e equidade são estratégias fundamentais. 

Acreditam que quaisquer políticas de gênero e raça são instrumentos ideológicos. 

Não aceitam desenvolve-las, e já retiraram vários recursos das politicas desenvolvidas que sobreviveram, como o foi o corte feito de repasses orçamentários para políticas de combate a violência contra mulher. 
Cortaram orçamentos e mudaram ações na saúde, educação e habitação direcionadas às mulheres.  

De fato, estas perdas obtidas, são medidas reparatórias, fundamentais no equilíbrio econômico e social.  

Mas estes Governos, vem interferindo de forma direta e negativa em todo processo de reorganização ou rearranjo econômico e social das mulheres na sociedade, interrompendo com todo o processo da diminuição de desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho e demais setores.  
Mesmo com 70% das mulheres preferindo um emprego a ficar em casa . E prova disso , foi o relatório 2020, do Fórum Econômico Mundial, que conclui que a igualdade de gêneros só se dará em 2095, e se houver avanços nas políticas pelos direitos das mulheres.

Precisamos modificar as justificativas das práticas machistas associadas a um comportamento cultural. 
Para estes governos,  isto é um prato cheio para incluir valores religiosos, desqualificar o que estava sendo construindo como política de Estado para as mulheres e para o povo negro e fortalecer a penalização da maternidade existente sejam em empresas públicas ou privadas.  
A tolerância e igualdade de direitos, são princípios fundamentais garantidos na Constituição  Brasileira, mas,  não tem o menor valor para eles.

A lacuna que deveria diminuir, só cresce.  


Fontes: IPEA/ Pravale/Camara/ INPER

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