quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Trabalhadora rural nordestina apresenta filme e fala de feminismo e ecologia em Paris


Não é fácil abrir jornais de grade circulação e perceber que as notícias de grande repercussão falam e denunciam vítimas do feminicídio e seu número alarmantes de vítimas. Fatos importantes para aprofundar o debate e ações no combate a violência sobre as mulheres.

Verônica SantanaRFI
Mas hoje fui surpreendida com uma bela notícia na página das Vozes do Mundo de Paloma Varóm fala sobre Verônica Santana, camponesa, sergipana, membro do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) , está em Paris para apresentar o filme que fez em parceria com outras mulheres do seu grupo. Autoproduzido por  100% de mulheres e sem financiamento  “Mulheres Rurais em Movimento” , O que tudo indica uma aventura científica, educacional, feminista e humana.

Segue  matéria:

“Este filme que me trouxe a Paris e à França, onde nós faremos uma turnê de exibição e de debates, nasce do diálogo possível entre as mulheres trabalhadoras ruais do Nordeste, que se auto-organizam há mais de 30 anos – nosso movimento nasceu em 1986 – e Heloïse Prévost, da Universidade de Toulouse, que vai ao Brail fazer pesquisa para o seu doutorado”, explica Verônica.

A ida de Prévost ao Brasil para estudar as mulheres rurais e como elas dialogam com o meio ambiente serviu para catalizar a vontade das mulheres do MMTR-NE de contarem a sua própria história em um documentário, para celebrar os 30 anos do movimento.

“Nós queríamos contar a nossa própria história.  Que esta narrativa seja nossa: um feito por nós, sobre nós”, relata Verônica, contando que foram feitas mais de 100 horas de filmagem para se chegar a um produto final de 45 minutos. Foram 30 mulheres rurais envolvidas diretamente no projeto, que envolveu os nove Estados do Nordeste brasileiro.

Feminismo no campo
“Nosso movimento nasceu há mais de 30 anos e desde que a gente começou a se organizar a gente sempre teve formações feministas feitas por feministas reconhecidas no Brasil. Mas nós tínhamos dificuldade de nos reconhecer como feministas, a gente acreditava que ser feminista era uma coisa muito longe das nossas vidas, que teria que dialogar com o pensamento da academia e tudo o mais.”

Mas ela conta que, com o tempo e com a tomada de consciência sobre a agroecologia, este paradigma mudou. 

“Discutir a vida de uma mulher rural é discutir a sua conexão com a natureza, com meio ambiente, com a água – como nós estamos no Nordeste, temos sérios problemas de acesso à água – etc.”.

“Para mim, o feminismo rural é trazer a vida das mulheres neste seu espaço para a pauta. A gente quer ver discutido o nosso modo de vida” acrescenta.

Sobre a utilização das redes sociais pelo movimento social da qual faz parte, Verônica defende, explicando que, no campo, a conectividade ainda é baixa.

“Nós somos um movimento auto-organizado, nos nove Estados do Nordeste, que é uma região imensa e com uma diversidade igualmente imensa. A comunicação, a internet, não chegou em vários lugares; mas o pouco que chegou, a gente tem usado para diminuir estas distâncias. Isso tem possibilitado fortalecer a nossa organização”, conta ela, que usa principalmente Facebook e whatsapp como ferramentas de comunicação e luta.

Agro-ecologia como modo de vida
“A gente costuma dizer que a agro-ecologia é uma ciência, é uma forma de vida e um movimento. Ela é a forma política pela qual nós expressamos o nosso desacordo à forma de agricultura desenvolvida no Brasil pelo agronegócio: que destrói a natureza, destrói os rios, mata gente, mata tudo”, explica.

“A gente tem outra forma de trabalhar e interagir com a natureza, que mostra que é possível ter uma agricultura e uma vida em harmonia com a natureza”, afirma ela, lamentando que, “com o desmonte do governo atual”, acabou a política nacional de agro-ecologia e produção orgânica.

“Mas a resistência e as experiências das famílias camponesas e agricultoras familiares permanecem. A agro-ecologia é um projeto de vida para nós que vivemos no campo”, conclui.

Fonte: RFI 
Edição e introdução Mônica Aguiar

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