Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta vulnerabilidade da mulher negra. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta vulnerabilidade da mulher negra. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de julho de 2011

Vulnerabilidade da mulher negra no sistema público de saúde, será discutida nos próximos dias 9 e 10

O índice de mortalidade materna em mulheres negras é 7,4 vezes maior do que em mulheres brancas, desde 2008, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mas no  início deste  ano, o projeto realizado pelo ONG Bamidelê vem discutindo direito e saúde sexual e reprodutivo da mulher na Paraíba, com rodas de diálogos e cursos para tratar, entre outros assuntos, sobre morte materna.
Nos próximos dias 9 e 10, no Hotel Xênius, será discutida a vulnerabilidade da mulher negra no sistema público de saúde. O evento vai contar com a participação da educadora Cristina Nascimento (PE) e a professora da UFPB Socorro Borges, que vão abordar os temas Mortalidade Materna e aborto inseguro.
De acordo com a coordenadora do projeto, Luana Natiele Basílio, participam do curso mulheres quilombolas, de terreiros, articuladoras da juventude negra e do sindicato das domésticas. O primeiro módulo do curso já foi iniciado com os temas Identidade Negra e Direito e Saúde Sexual e Reprodutivo da Mulher Negra. “Infelizmente, como o curso propõe uma continuidade, não será aberto a outros participantes, explicou.”

A pesquisa divulgada pelo IBGE há três anos ratifica um dado divulgado em 2001 no Manual de Doenças Importantes por Razões Étnicas do Ministério da Saúde, que mostrava que o índice de morte materna em mulheres negras é de 275 para cada 100 mil mulheres, enquanto o índice em mulheres brancas é de 43.  Estes índices também são tratados no livro Gestantes Negras: vulnerabilidade, percepções de saúde e tratamento no pré-natal na Grande João Pessoa , dos autores Antônio Novaes e Ivanildes Fonseca.
 De acordo com Luana Basílio, o livro ressalta que o maior índice de mortalidade negra se dá em função do racismo institucional que a mulher negra sobre no atendimento. Entre as práticas do racismo está a utilização de menor quantidade de anestesia por pressupor que a mulher negra é mais resistente a dor , comentou Luana.
No ano passado, pelo menos 28 mulheres tiveram morte materna na Paraíba. As estatísticas mostram
que de 2006 a 2010, houve um aumento de 64,7% no número de casos na Paraíba, de acordo com o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) da Secretaria de Estado da Saúde.
A Organização Mundial de Saúde (OMS ) define mortalidade materna como a morte de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou da localização da mesma, devido a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela.

Associação de Mulheres Negras Aqualtune
Fonte Larissa Claro
Correio da Paraíba - João Pessoa/PB
Ministério da Saúde | Institucional

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

IDOSAS NEGRAS " O DESAFIO DE ENVELHECER COM DIGNIDADE"


Envelhecer com saúde, feliz, livre de responsabilidades deveria ser uma norma universal para todas idosas, mas não é.  As idosas negras sentem o peso do envelhecimento cotidianamente ao garantir a sobrevivência dos seus, assumindo a responsabilidade do Estado.

Por Mônica Aguiar

Eu resolvi fazer um levantamento de temas que retratam as desigualdades existentes entre as mulheres negras idosas, nesta semana que se comemora o dia do idoso.  

Encontrei estudos que falam sobre a realidade das mulheres negras idosas considerando as condições de moradia, saúde, socioeconômicos, chefia de família e modo de vida.

Navegando pelos mares da internet, deparei com algumas citações e, encontrei pesquisas valorosas, que retratam as condições das mulheres negras idosas no Brasil. Apesar de ter localizado poucas, mas entre as poucas encontradas, quatro (4) me chamaram muito a atenção.

A primeira pesquisa que eu li foi “Mulheres negras idosas: a invisibilidade da violência doméstica”, uma tese de doutorado em Serviço Social pertencente a Ilka Custódio, 2016- do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social, PUCSP. Um trecho que separei afirma que:

As diferenças vivenciadas pelas classes sociais ao longo do ciclo de vida desenham diferentes velhices. Não é um processo homogêneo, já que ricos e pobres não o vivenciam da mesma forma. O envelhecimento é um problema social para a classe trabalhadora, que, possuidora apenas da sua força de trabalho, quando envelhece, perde o valor de uso para o capital e é acometida, mais uma vez, pela depreciação social e pobreza, tornando-se mais invisível socialmente conforme vai envelhecendo. O envelhecimento carrega consigo as desigualdades sociais vivenciadas ao longo da vida. A população negra, devido ao racismo e seus desdobramentos, tem uma vida com mais desvantagens que a população branca, o envelhecimento é uma experiência mais difícil para a população negra. As mulheres vivem mais que os homens, mas, se ao conjunto de desigualdades sociais fomentadas pelo racismo se somarem as desigualdades de gênero, o envelhecimento da mulher negra é ainda mais desafiador”....... .

Continuando a navegação surge a segunda pesquisa, “SOLIDÃO DA MULHER IDOSA NEGRA? ANÁLISE DE FATORES DEMOGRÁFICOS, SOCIOECONÔMICOS E MODO DE VIDA DE IDOSAS DA CIDADE DE SÃO PAULO de Alexandre da Silva; Etienne Larissa Duim; Luís Eduardo Batista; Carla Ferreira do Nascimento.. Publicada no X Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em 2017.

Encontrei as seguintes afirmações:

(2)Pesquisadores da temática racial têm demonstrado em suas pesquisas que determinantes sociais influenciam a forma de ocorrência da mortalidade de homens negros, a escolaridade das mulheres negras e as relações afetivas. E pouco se sabe como esta condição ocorre no envelhecimento.”

Esta pesquisa refletiu a realidade da maioria da população negra idosa no Brasil ao concluir que:

(2)As condições socioeconômicas e modo de vida foram piores para idosas pretas e pardas e a “solidão” da idosa parda existe na cidade de São Paulo e tem relação com a idade avançada, ter filhos vivos e não ter criado outras relações sociais geracionais e intergeracionais ao longo da vida”.

A terceira lida, foi (3)O ENVELHECER PARA A MULHER NEGRA”, escrito por Sheila Souza  Pedagoga Especialista em Envelhecimento, publicado em 2018.

Pontuo as seguintes afirmações:

1)      “.....Portanto, quando dizemos que a mulher sofre grandes violências dentro dessa sociedade machista, temos que voltar o nosso olhar para o duplo sofrimento da mulher negra, pois, ela sofrerá por ser mulher, e por ser negra. E ao envelhecer, essa violência, logicamente, só aumentará, pois, sabemos como o envelhecimento ainda é estigmatizado na sociedade......

2)      .... e há um real entendimento sobre a perversidade que o povo negro enfrentou ao longo da história, é possível entender o motivo pelo qual a mulher negra sofre e sofrerá muito mais em seu processo de envelhecimento do que as mulheres não negras. Pois, ao envelhecer, as mulheres negras continuam sofrendo machismo por ser mulher, continuam sofrendo racismo, e nessa nova fase de sua vida, sofre também gerontofobia .  ....

3)      ......não há como negar que o envelhecimento da mulher negra será com muito menos qualidade do que as mulheres não negras. E é importante entender que, “quando se fala em envelhecimento com qualidade temos que ter em mente que não estamos falando somente do processo saúde-doença, mas sim de toda uma configuração” (SANTOS, 2017, p.22)”....... 

Neste cenário que apresento, considero os fatores históricos das desigualdades existentes, pod3endo afirmar que  o racismo é operado como instrumento ideológico para manutenção e fomentação das desigualdades socioraciais , principalmente quando  comparamos os dados, o cenário que  emerge é de dois até três países, completamente distintos.

O processo de envelhecimento para as mulheres negras não ocorre de modo homogêneo e semelhantes. As fases da vida são determinantes para muitas ao considerando fatores sociorterritóriais. O número de doenças, as condições crônicas existentes e dentre estes o acesso ao Sistema Único de Saúde(SUS), são fatores que devemos considerar ao analisar as condições de sobrevivência das mulheres negras idosas.  

As mulheres negras historicamente são em sua maioria chefes de famílias e, com a expansão dos percentuais de mulheres chefes de família ao longo da segunda metade do século XX, a realidade das idosas negras passam a ser outro.

Sendo, estes números já eram elevados naquele momento, eles mais que dobraram nos primeiros 15 anos do século XXI.  Famílias monoparentais deixam de ser a maioria, passando a ser maioria os arranjos unipessoais (pessoas sós), que são composições familiares de núcleo único (sem cônjuge). A chefia feminina passou a crescer automaticamente.

As mulheres de maneira geral predominam entre a população idosa, principalmente, entre a muito idosa e, com isto, surge o aparecimento de novos papéis sociais, como de ser avós e chefia de famílias diretamente responsáveis pelo sustento. Com aumento do desemprego ocorre a extensão de responsabilidades familiar e de ajuda financeira assumida por mulheres idosas.

 A redução da mortalidade entre os idosos beneficiou ambos os sexos, é mais expressiva entre as mulheres, o que resulta na sua maior representatividade dentre a população idosa. Isto não significa que este aumento tenha melhorado as condições de vida das idosas de maneira geral.  Muito pelo contrário.

Finalizo minha navegação citado alguns parágrafo do artigo de Siomara Meireles Magalhães e Sheila Marta C. Rocha (6)A VULNERABILIDADE ACENTUADA DA PESSOA IDOSA NEGRA, NO CONTEXTO ATUAL DE PANDEMIA: UMA HERANÇA ESCRAVISTA”, publicada nos Anais da 23ª Semana de Mobilização Científica- SEMOC | 2020.

O objetivo desse artigo é traçar o contexto social que o idoso negro está inserido e sua vulnerabilidade acentuada, sobretudo, as dificuldades que os circundam para que possam existir socialmente, levando em consideração o estado atual de pandemia

1)      A estrutura social racista desumaniza corpos negros e, para além, naturaliza a prática da desumanização. Racismo significa cerceamento, restrição de direitos, desconsideração e morte física e da alma.

2)      Faz-se necessário uma análise emergente não só da sociedade, mas do Estado, na promoção de forma equitativa de saúde, moradias e formas de condições de vida para que os idosos negros tenham condições de alcançar a longevidade e, para além, se manter vivos de forma sadia durante a idade idosa. Dando efetividade ao art. 230 da CRFB/88, que outorga ao Estado, a sociedade e família a responsabilidade de amparar as pessoas idosas, promovendo a sua dignidade humana e direito à vida. A conscientização da sociedade sobre e como é emergente a adoção de atitudes antirracistas, além de pesquisas voltadas para a análise sobre a ambiência social que a pessoa idosa da raça negra está inserida, seria fundamental para se pensar sobre novas formas de mudar esses ciclos estruturantes. Uma sociedade marcada por repetições de ciclos de violências, em decorrência da negação do direito de existir de maneira plena, é uma sociedade não evoluída completamente.

3)      Falar de racismo, é falar de cerceamento e introspecção, e negar uma história de afirmação de Direitos Humanos, através da desafirmação ou negação deles, como pessoas, sujeitos de direitos. É negar séculos de construção de direitos baseados na dignidade da pessoa humana”.

REFERÊNCIAS

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Mulheres Negras. " Vivem e resistem" Julho/18

por Mônica Aguiar

Mulheres negras iniciaram ontem (25) de julho, atividades  e atos públicos em diversas cidades do Brasil, marcando o Dia de Luta  da Mulher Negra Latina e Caribenha e Dia Nacional da Mulher Negra e Tereza de Benguela . 
No Brasil, reivindicam o combate ao racismo, combate a violência, além do direito ao bem viver. 

Desigualdades

Ao ser confrontado com as estatísticas, o racismo, sustentado pelas mazelas em três séculos de escravidão e minimizados pela branquitude nativa, revela-se sem meias palavras o sofrimento das mulheres negras pela sobrevivência no Brasil.

Segundo o IBGE, mais da metade da população brasileira (54%) é de pretos ou pardos.  
Em 2000, As mulheres negras  já representava 49% da população negra brasileira.  A população afrodescendente da América Latina e Caribe soma quase 130 milhões de pessoas, de acordo com dados de censos realizados até 2015.

As mulheres negras são mais vitimadas pela violência doméstica: 58,68%, de acordo com informações do  Central de Atendimento à Mulher, de 2015.

São mais atingidas pela violência obstétrica (65,4%) e pela mortalidade materna (53,6%), de acordo com dados do Ministério da Saúde e da Fiocruz. Diariamente, gestantes têm seus direitos violados em todas as partes do mundo. No Brasil, pelo menos cinco delas morrem ao dia por causas relacionadas à gravidez. Assim, essas mulheres deixam seus filhos para entrar nas estatísticas de mortalidade materna da Organização Mundial da Saúde (OMS), que incluiu o Brasil em uma lista de 75 países que precisam reduzir os óbitos de mães até 2030. De acordo com os dados mais recentes do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), em 2016, o Brasil registrou 1.670 óbitos maternos (relacionados à gravidez, ao parto ou até 42 dias após o parto).

Apenas 10% dos livros brasileiros publicados entre 1965 e 2014 foram escritos por autores negros, afirma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB).

Atrás das câmeras, não foram registradas nenhuma mulher negra. O fosso racial permanece entre os roteiristas: só 4% são negros.
Dentre os filmes analisados, 31% tinham no elenco atores e atrizes negras, quase sempre interpretando papeis associados à pobreza e criminalidade.
As heroínas e intelectuais  negras,  são totalmente invisibilizada nos processos históricos.

A crise atual e a onda de desemprego também atingiu com mais força a população negra brasileira: são 63,7% dos desocupados, o que corresponde a 8,3 milhões de pessoas.  No terceiro trimestre de 2017 o rendimento médio de trabalhadores negros foi inferior ao dos brancos: 1,5 mil ante 2,7 mil reais.

A mulher negra é a parcela mais  pobre da sociedade brasileira.  Persistindo na luta pela sobrevivência, consequentemente a maldita vulnerabilidade social a qual estamos submetidas no Brasil.

Nesse cenário, as mulheres negras, que de forma acentuada, sentem o impacto da falta de políticas, interseccionando em si as estruturas racistas, patriarcais, sexistas e heteronormativas, pois há uma questão de gênero fundamental nessa equação – a qual coloca as mulheres numa condição subalterna e passível de objetificação. (Trecho coluna de Caroline Coelho -O Movimento) .

Falar da mulher negra no Brasil é falar de uma história de exclusão onde as variáveis sexismo, racismo e pobreza permanecem  estruturantes, e mesmo convivendo com tantos desafios as mulheres negras contribuem de forma inquestionável com a construção socioeconômica e cultural de nosso país.

O 25 de JULHO

No Brasil, em 2014, o dia 25 de julho foi declarado como Dia Nacional da Mulher Negra a partir da data regional e em homenagem à líder quilombola Teresa de Benguela, que viveu em Mato Grosso e lutou contra a escravidão no século XVII. Símbolo da resistência negra na região do Vale do Guaporé, no Mato Grosso, no período de 1750 a 1770.

O 25 de Julho internacionaliza o feminismo negro via aglutinação da resistência das mulheres negras à cidadania nas regiões  em que vivem, principalmente as  opressões de gênero e étnico-raciais.

Este mês, o Rio de Janeiro instituiu o dia 14 de março como Dia de Luta contra o Genocídio da Mulher Negra. Há quatro meses, nesta data, a vereadora negra Marielle Franco foi exterminada. O crime segue sob investigação.

Vários Municípios no Brasil instituíram o 25 de julho como dia da Mulher Negra .

Já o Dia Internacional da Mulher Afro Latina-Americana e Caribenha,  foi instituído em 1992, ano em que ocorreu o primeiro encontro de mulheres negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana. 
São Paulo
 Todas as datas marcam a  resistência e luta das mulheres negras no combate ao racismo e combate as desigualdades sociais. 

Resistência
As mulheres negras tem se destacado, ganhando visibilidade nas redes sociais, dialogando diretamente com a sociedade sobre as desigualdades raciais sofrida, construindo grandes debates e mobilizações. A luta contra o racismo e o desmascaramento do mito da democracia racial, tem conquistado o envolvimento e o comprometimento de outros setores da sociedade civil organizada.

A violação dos direitos humanos da população negra, pobre e de periferia no Brasil e em outras partes do mundo são temas atuais que dialogam cotidianamente com a sociedade são organizados por mães negras que sofrem com a violência, violações e abandono por parte do Estado . 

E a mulher negra vai incomodar por ser ela mesma, por saber o que quer e por alcançar suas próprias metas individualmente.

JULHO 2018
São Paulo
Centenas de agendas foram e serão  desenvolvidas no mes de  julho no Brasil, consagrando uma imensa mobilização nacional das mulheres negras. 

Em São Paulo ocorreu a 3ª Marcha, com concentração na Praça Roosevelt, centro da cidade, finalizando no  Largo do Paissandu. Mulheres negras caminharam   para denunciar a violência e o racismo.

Belém 

Em Belém as mulheres negras  fizeram um ato no bairro do Guamá. A III Marcha das Mulheres Negras reuniu centenas de pessoas em caminhada que iniciou as 16 horas , reuniu centenas de pessoas. 

Flávia Ribeiro, uma das coordenadoras, explicou que a marcha busca colocar em evidência as reivindicações das mulheres negras na sociedade.



Comemorar o  25 de julho é celebrar e reverenciar a elaboração de novas perspectivas feministas, em especial da introdução da diferença na teoria feminista tradicional. 

Fortalecer o 25 de  julho é  dá visibilidade e energia a emancipação das mulheres negras de um feminismo que colocava a opressão de gênero como  fator opressor prioritário para as mulheres, sem levar em conta as demandas das mulheres negras. É  fortalecer a emancipação  de um feminismo que não conseguia abarcar as diferenças entre estas ou seja, o  olhar  para as múltiplas experiências e identidades femininas. ( Luciane Reis -Blogueiras Negras)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20 de novembro: um dia para lembrar a discriminação cotidiana das mulheres negras

 No Brasil, o dia 20 de novembro marca, além do Dia da Consciência Negra, o início das atividades dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O calendário, que internacionalmente tem início no 25 de novembro (Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher) e vai até o dia 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos), foi antecipado no País para resgatar o peso que o racismo estruturante e estrutural vigente em nossa sociedade tem na maior vulnerabilidade das mulheres negras à sistemática violação dos direitos humanos.
Desigualdades de gênero e raça em números
Conforme apontou o Informe Anual 2013-2014: O Enfrentamento da Violência contra as Mulheres na América Latina e no Caribe, publicado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) no início deste mês, as violações à integridade física, moral ou psicológica da mulher não podem ser analisadas fora do contexto social. E todos os marcadores sociais, quando avaliados na perspectiva da mulher negra, mostram dados que contribuem para que essa parcela da população esteja mais suscetível à violência.
Estudo publicado em agosto deste ano pelo Laboratório de Análises Estatísticas, Econômicas e Sociais das Relações Sociais do Instituto de Economia da UERJ aponta que o rendimento médio das mulheres pretas e pardas chegava a ser até 140% menor que o de homens brancos no País (ver tabela abaixo).
rendimento-medio-negras_LAESER_jun2014
O relatório Estatísticas de Gênero: Uma análise dos resultados do Censo Demográfico de 2010, divulgado pelo IBGE em outubro deste ano, mostra que, embora as taxas de analfabetismo no Brasil tenham caído de forma mais intensa entre as mulheres pretas (36,2%), o percentual ainda é 2,3 vezes superior à taxa verificada entre as mulheres brancas.
As mulheres negras também são maioria entre os desempregados e subempregados, entre as vítimas de tráfico de pessoas e as vítimas de assassinato. Em recente entrevista ao jornal O Globo, o ginecologista Mario Giani Monteiro, do Instituto de Medicina Social da UERJ, declarou que mulheres negras têm 2,5 vezes mais riscos de morrer por complicações pós-aborto do que as brancas.
É preciso desconstruir o imaginário sobre as mulheres negras
A imagem da mulher na mídia também é sempre um tema polêmico, particularmente em razão da hipersexualização, objetificação e reforço de estereótipos subalternos, constantemente questionados por organizações feministas. No caso das mulheres negras, episódios como o da campanha publicitária da cerveja Devassa somam-se à invisibilização ou a reiteração de lugares marcados pelo preconceito, como no recentecaso do seriado ‘O Sexo e as Negas’, em exibição na Rede Globo de Televisão, que gerou protestos de dezenas de organizações e instituições.
A jornalista Rosane Borges falou à reportagem da Agência Patrícia Galvão sobre o significado simbólico do Dia da Consciência Negra, às vésperas da realização da Marcha das Mulheres Negras, que acontece em maio do ano que vem. Rosane coordenou oNúcleo de Estudos Afro-Brasileiros e integra o comitê nacional de organização da Marcha.
“Este 20 de novembro tem um caráter especial por uma série de elementos. E, do ponto de vista da representação das mulheres negras, lamentavelmente, será lançada neste feriado uma corrente de artistas e personalidades em apoio ao seriado ‘O Sexo e as Negas’, mobilizada pela Rede Globo. Então, é importante pensar que, no contexto da construção da Marcha das Mulheres Negras pelo Fim do Racismo, do Sexismo e pelo Bem Viver, trazemos um conjunto de questionamentos que põem em xeque o imaginário que sustenta uma imagem distorcida da mulher negra. Quando falamos em sexismo e racismo, para além das questões materiais, das desigualdades no mercado de trabalho, das diferenças salariais, consideramos que, para as mulheres em geral e mais ainda para nós, mulheres negras, a questão do imaginário tem importância estratégica. Então, temos um 20 de novembro marcado por uma reatualização da agenda do movimento de mulheres negras e do movimento negro, com ênfases em algumas pautas, e a pauta relacionada à imagem, à visibilidade, vem hoje, de fato, como algo prioritário.  E, além das manifestações e passeatas, haverá iniciativas de mulheres negras em todo o País, em uma contraofensiva a essa imagem estereotipada que aparece na mídia”.
Resgatar o legado das mulheres negras para o Brasil 
O 20 de novembro também precisa ressignificar a contribuição das mulheres negras à história brasileira. Nas homenagens a Zumbi dos Palmares, o papel de Dandara e de Luiza Mahin na luta contra a escravatura deve ser resgatado com maior força. Assim como as contribuições de mulheres negras aos campos das artes, da política e das ciências, como no caso das escritoras Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo (que segue em atividade), da médica e militante comunista Maria Aragão, e da antropóloga feminista Lélia Gonzalez.
“Esse é um nó para pensarmos. A mulher no geral, mas a mulher negra em particular, foi vitimada pela cultura da invisibilidade. Esse é um dos efeitos mais perversos do racismo e do sexismo, porque afeta em grande parte as mulheres negras. Em toda a agenda do movimento negro, quando conseguimos romper algumas barreiras de invisibilidade e do silêncio que nos é imposto, essas barreiras são quebradas em favor de homens negros. Então, temos uma luta específica, dentro da grande luta geral contra o racismo, que é incidir sobre um problema que é estrutural e que atinge também o movimento feminista clássico, dito geral, porque a invisibilidade que as mulheres brancas denunciaram não traz em seu bojo a radicalidade do racismo. Então, do ponto de vista racial, é o homem negro que emerge e do ponto de vista do feminismo é a mulher branca que aparece. Há uma deficiência, e às vezes uma inoperância mesmo, das reivindicações no que diz respeito à presença da mulher negra. Por isso, a pauta do imaginário é muito importante, porque é ele que nos coloca absolutamente nas sombras”.
Rosane Borges destaca também a importância de iniciativas de resgate histórico das contribuições da mulher negra à sociedade brasileira. “Como diz [a filósofa e ativista]Sueli Carneiro, deve ser um trabalho de pesquisa e um esforço intelectual, não restrito à academia, que nem sempre é o lugar mais apropriado, para dar visibilidade ao esforço de feministas negras ou não feministas que trabalharam ou estão trabalhando com o legado das mulheres negras à nossa história. E isso é fundamental, porque o que não é visto, não é lembrado, inexiste. O sujeito mulher negra existe no imaginário dentro de uma lógica muito restrita, do trabalho subalternizado, da empregada doméstica; fora desses espaços a gente some. A reconstrução da memória é uma tarefa política, um desafio de extrema importância. O que significa o seriado ‘O Sexo e as Negas’? Que não há na produção da Rede Globo uma percepção de que, a despeito da nossa posição em espaços subalternizados, as mulheres negras têm uma história de luta e de inserção em outros espaços sociais. A repetição desses lugares subalternizados revela que o olhar sobre nós ainda é muito limitado, porque a nossa trajetória de participação no País, das mulheres que colaboraram para transformar o País, que pensaram a Nação brasileira, que lutaram pela democracia, some. E temos que resgatar esse legado na escravidão e no pós-escravidão”.
Ainda sobre o seriado, Rosane destaca que se trata de uma expressão do racismo institucional que existe no Brasil, levando à situação de que mesmo as ações que advogam a “exaltação” da mulher negra reforçam essa lógica. “Esse racismo, o sexismo e qualquer outra forma de discriminação são tão arraigados que não se consegue promover outros mecanismos para pensar o outro, a outra. Por exemplo, até mesmo nos cartazes produzidos pelos governos a gente só vê a mulher negra em ações de assistência social. E se é verdade que somos nós que precisamos majoritariamente dessas políticas, quando são ações positivas, fora da assistência social, a mulher negra não aparece ou é ‘embranquecida’. E o Estado brasileiro tem o dever de promover uma outra imagem na exata medida em que promove a inclusão desse sujeito nas políticas de assistência social. Porque a melhoria das condições materiais de um povo e de um grupo racialmente discriminado se dá juntamente com as imagens promovidas”. E Rosane lembra que a mídia, enquanto concessão pública, também tem essa responsabilidade.
As perspectivas para mudar o quadro de ausência de políticas públicas que assegurem real equidade nas condições de vida e respeito à cidadania da população negra não são muito animadoras diante do resultado eleitoral deste ano. Segundo dados da Câmara dos Deputados, 71% dos eleitos para aquela casa legislativa são homens brancos. As mulheres negras representam 2,2% dos 513 deputados. Os deputados autodeclarados negros somam 19% da Câmara. Em audiência pública realizada pela Comissão de Educação da Casa no último dia 18, a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, abordou essa dificuldade.

sábado, 25 de julho de 2015

Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha terá programação especial no Recife

Neste sábado, é comemorado o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. Para comemorar a data, que foi criada para estimular a reflexão acerca das discriminações e da vulnerabilidade social a que são expostas as mulheres negras e afrodescendentes na região latina, a Prefeitura da Cidade do Recife realizará onze ações educativas, entre os dias 23 de julho e 1 agosto. A iniciativa incluirá rodas de diálogo, exibição de filmes, debates e espetáculos culturais.

A primeira ação acontecerá no Pátio de na sede do Núcleo da Cultura Afro-Brasileira, localizada na casa 34 do Pátio de São Pedro, bairro de santo antônio, área central do Recife. Uma roda de diálogo, que começará a partir das 14h, discutirá as políticas de saúde para a população negra, com ênfase na mulher. No mesmo local, a Secretaria de Desenvolvimento e Empreendedorismo cadastrará afroempreendedoras, para a implementação de políticas de fomento ao empreendedorismo voltadas para a economia solidária e Prodarte (Programa de Artesãos do Recife).

No mesmo dia, às 19h, na Caixa Cultural, no Bairro do Recife, será exibido o documentário A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo, que retrata a luta dos atores negros pelo reconhecimento nas telenovelas brasileiras. Após a exibição acontece no local um debate sobre o filme. Para encerrar as açãos, no dia 28, será promovido um Café da Manhã - Diálogo com as Servidoras Negras, na Praça de Alimentação da PCR, às 8h.

Confira a programação na íntegra:
Roda de Diálogo com a juventude negra sobre saúde, violência e estética
Data: 23/07/2015
Horário: 14h
Local: Núcleo de Cultura Afro
Facilitadoras:
Lindacy Assis - Coordenadora de Políticas Públicas do Grupo Nacional de Gênero com Doenças Falciforme.
Sony Santos - Gestora Municipal da Política de Saúde Integral da População Negra - Secretaria de Saúde do Recife. (Política de Saúde da População Negra)
Conceição Costa - Secretária Executiva de Políticas Públicas para as Mulheres - Secretaria da Mulher do Recife (Violência Contra Mulher)
Vanessa Marinho - Educadora e Mestra em História na UFPE (Estética Afro) 

Ação de cadastro das Afroempreendedoras
Data: 24/07/2015
Local: Pátio de São Pedro

Descobrindo-se mulher negra e enfrentando o racismo ambiental
Data: 25/07/2014
Horário: 10h
Local: Eco Núcleo da Jaqueira
Facilitadoras:
Gabrielle Conde - Arte Educadora, Técnica da Gerência de Igualdade Racial do Recife - Africanidade e Corporeidade - Corpos Femininos e Natureza Ancestral
Ana Benedita - A Arte de Contar as Histórias Africanas

Festival Mocambo - Vivência com mulheres negras
Data: 25/07/2015
Horário: 14h
Local: Pátio de São Pedro
Facilitadoras:
Gabrielle Conde - Arte Educadora, Técnica da Gerência de Igualdade Racial do Recife - Africanidade e Corporeidade - Corpos Femininos e Natureza Ancestral
Prof. MS. Dayse Moura - NEAB - UFPE - Tornar-se Mulher Negra - Mulheres Negras Lélias

Atração cultural: Banda Casas Populares da BR-232
Horário: 16h

Festival Mocambo - Recife Antigo de Coração Aberto para as Mulheres Negras e Ação de Cadastro da Afroempreendedoras
Data: 26/07/2015
Horário: 14h - 20h
Local: Avenida Rio Branco

Olhar das Mulheres Negras e de Matrizes Africanas sobre o Capibaribe - Passeio de Catamarã
Data: 27/07/2015
Horário: 14h
Local de Concentração: Marco Zero
Facilitadoras:
Mãe Elza De Iyemonja - Técnica de Comunidades Tradicionais da Coordenadoria Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Pernambuco
Marta Almeida - Técnica de Igualdade Racial da Coordenadoria Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Pernambuco

Programa Datas de Valor
Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela

Café da Manhã e Diálogo com as Servidoras Negras
Data: 28/07/2015
Horário: 8h
Local de Concentração: Praça de Alimentação da PCR
Convidadas:
Dra. Bernadete Azevedo - MPPE
Capitã Lúcia Helena Salgueiro - GT Racismo da PMPE/SDS
Dra. Cláudia Freitas / Marta Rosana - GT Racismo da PCPE/SDS
Prof. MS. Dayse Moura - NEAB-UFPE
Gal Almeida - FUNDARPE

Cine Debate
A Negação do Brasil - de Joel Zito Araújo
Data: 24/07/2015
Horário: 14h
Local: Auditório Capiba – Prefeitura da Cidade do Recife, Avenida Cais do Apolo, 925, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

Cine Debate
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado - de Joel Zito Araújo
Data: 24/07/2015
Horário: 16h
Local: Auditório Capiba – Prefeitura da Cidade do Recife, Avenida Cais do Apolo, 925, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher
Cine Debate
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado - de Joel Zito Araújo
Data: 28/07/2015
Horário: 14h
Local: Memorial da Justiça – TJPE - Avenida Alfredo Lisboa, s/n, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

Cine Debate I
A Negação do Brasil - de Joel Zito Araújo
Data: 30/07/2015
Horário: 19h
Local: Caixa Cultural - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

Cine Debate II
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado - de Joel Zito Araújo
Data: 31/07/2015
Horário: 19h
Local: Caixa Cultural - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

Cine Debate I
A Negação do Brasil - de Joel Zito Araújo
Data: 01/07/2015
Horário: 16h
Local: Caixa Cultural - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

Cine Debate II
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado - de Joel Zito Araújo
Data: 01/07/2015
Horário: 19h
Local: Caixa Cultural - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Facilitadora:
Secretaria da Mulher

MAIS LIDAS