quarta-feira, 22 de novembro de 2023

O 20 de Novembro não é mais o mesmo !

 Por Mônica Aguiar 

A situação das desigualdades raciais perdura por décadas, com graves violações dos direitos humanos e descumprimento de Leis, estatutos, tratados e convenções assinados pelo Brasil.

Não existem evidências de melhoria nos índices de vítimas da violência direta, indireta, institucional e estrutural.

O número de pessoas invisibilizadas cresce cada dia no Brasil.  É sobre a invisibilidade da população negra em situação de pobreza e extrema pobreza que vou falar. 

Ao falar das pessoas na sociedade brasileira que são consideradas invisíveis dar impressão que estamos falando de outro país ou apenas um grupo segmento estruturalmente. 

É preciso amplitude dos pensamentos para identificar os valores, cultura e economia desta camada da população brasileira, estrategicamente depositada na invisibilidade que também é  indiferentes aos olhos de grande parte da sociedade e maioria dos governantes.

Ao falar das pessoas negras é preciso entender o sofrimento e exposição permanente provocados pelas variantes e níveis de violências, somados a todos os indicadores de desigualdades na: saúde, educação, política, habitação, na justiça e programas sociais.

Não vejo como falar desta camada expressiva da sociedade se não for analisada todas as evidências existentes, da histórica desigualdades raciais. Do direito a vida, a segurança e cidadania.

Ao falar da função da invisibilidade não podemos permitir pensamentos  ideológicos e sim científicos.

Ao analisar algumas falas e publicações neste 20 de novembro em 2023, percebo  naturalização nas ações e falas que pincelam a redução das desigualdades na educação, saúde, habitação, miséria, pobreza e desemprego e subemprego, de forma individual e aleatória a partir de um simples recorte.

As mulheres negras estão em maioria presentes na camada dos invisíveis. Carregam no corpo durante sua vida os resultados da tripla soma de todas as desigualdades e violências existentes. Em silêncio. Imperceptíveis para não incomodar.

E para justificar o injustificável, sustentar a tese de superação a partir do esforço próprio e dos conceitos pejorativos de auto estagnação, ainda temos que deparar com exemplos aleatórios de pessoas negras com superações econômicas e grandes projeções acadêmicas.

Invisibilizam, sustentam e naturalizam as causas e consequências de todas as mazelas e funções servis dos trabalhos análogos ao período da pós-liberdade e do período da escravidão.

Ser livre sem ser, sem ter, sem poder viver e sem existir.

As reparações dos danos causados pela escravidão não é utopia das organizações sociais, dos movimentos negros e de mulheres negras, é mais que urgente no Brasil.





Mônica Aguiar é uma blogueira negra feminista, jornalista, professora, militante a 45 anos,  mantém o Blog Mulher Negra desde 2010, com “notícias do Brasil e do mundo diariamente. Educação, ciências e tecnologia, cultura, arte, cinema, literaturas, economia, política, dentre outros. Construindo a visibilidade das mulheres negras em fatos reais no mundo”. 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Em Tempos de Mobilizar e Agir, Em Prol da Saúde das Pessoas Negras! 27 de outubro


Por Mônica Aguiar 

A Saúde da População Negra é estudada há décadas, porém não é uma meta fulgente na política nacional de saúde. 

O racismo provoca grande impacto na qualidade da gestão da saúde pública,  influenciando  diretamente na qualidade de vida da população negra. 

Os estereótipos negativos, sustentados por práticas racistas, tem promovido respostas psicológicas prejudiciais à saúde.

A saúde mais precária desses grupos étnico-raciais vulnerabilidades registra-se no surgimento precoce de enfermidades, na maior gravidade e progressão das doenças, nos altos índices de comorbidades e de incapacitações no decurso da vida, além de elevados índices de mortalidade. Grupos étnico-raciais socialmente estigmatizados também enfrentam déficits de acesso a serviços de saúde e de qualidade da atenção médica. (Racismo e Saúde: um corpus crescente de evidência internacional) David R. William

No ano de 2017, foi instituído a obrigatoriedade e padronização da coleta da raça/cor no SUS nos sistemas de informação da saúde pública brasileira, conforme a Portaria nº 344, de fevereiro de 2017, do Ministério da Saúde. 

Se estivesse sendo cumprida, não faltaria indicadores e estudos para implementar ações em prol à saúde do povo negro, especialmente das mulheres e meninas e negras.   

As medidas reparatórias são fundamentais para combater as desigualdades raciais existentes.

E seja o racismo, estrutural ou institucional, o que permeia as práticas estar influenciando os resultados e diminuem  expectativas de vida e sobrevidas.  

Existem dados sobre as barreiras de acesso e discriminação na área de assistência à saúde. Falta dados qualificados para investigações detalhada sobre a realidade da saúde da população negra. 

RACISMO X SAÚDE

Já que sabemos que o racismo é prejudicial à saúde, qual o tempo é disposto para tratar do racismo na saúde com outro olhar?  O racismo e as desigualdades existentes na saúde atingem grupos da população negra(mulheres, jovens, idosos) de formas diferenciadas. 

Tenho observado que o grau de intensidade do racismo e das discriminações sofridas por mulheres negras estão diretamente ligadas nos números de óbitos previníveis, previsíveis e precoces.

Os óbitos evitáveis voltaram a crescer no Brasil.

O racismo estrutural ou institucional permeando as práticas vai influenciar os resultados, diminuir as  expectativas de vidas e sobrevidas. 

O racismo institucional se manifesta por meio de impedimentos aos benefícios preventivos ou curativos de tratamentos e medicamentos viabilizados pelas políticas públicas de saúde.

A instituição do campo saúde da população negra se faz a partir da constatação de que as relações sociais no Brasil são marcadas pelo racismo, fato encoberto pela ideologia da democracia racial, mas, cabalmente, demonstrado pelos indicadores de saúde que retratam de forma expressiva as desigualdades raciais em saúde, quer se trate do modo como se lidam com as doenças associadas a determinantes raciais/étnicos; da discriminação na assistência ou do perfil epidemiológico marcado pela precocidade dos óbitos. Qualquer que seja o ângulo de aproximação com a realidade, as desigualdades são nítidas e gritantes. 

Conceitos, Comportamentos  X Ciência 

Os dados epidemiológicos obtidos evidenciaram as iniquidades raciais nas condições de vida da população e seu impacto no perfil da morbimortalidade.

O conhecimento do perfil do território no campo social, econômico, de gênero e racial  constitui ferramenta importante no enfrentamento  ao racismo.

Devemos considerar todos os  avanços na instauração de políticas sociais universais que ampliaram o acesso para a população negra na saúde e demais políticas fundamentais, mas, não devemos permitir que este imaginário de “plena universalidade” provoque o reducionismo  e não considere  as especificidades e os determinantes sociais que promovem as  desigualdades e dificultam o acesso da população negra ao sistema de saúde pública. 

Ao longo dos tempos denominações se modificam conforme a amplidão educacional e econômica da sociedade. O racismo não se modifica, se molda, nas estruturas e nas relações humanas. 

Vários conceitos estão sendo empregados para implementar a equidade, principalmente quando o assunto é saúde da população negra. A palavra vulnerabidade parece que é MODA.

Então, qual o conceito universal de vulnerabilidade na saúde pública? Existe?

A depender do entendimento, concepção ideológica e política do que é vulnerabilidade e racismo, um profissional de saúde ou gestor, podem criminalizar e promover uma assistência segregacionista à população negra, no lugar reduzir as disparidades raciais existentes na saúde. Se o conceito de vulnerabilidade estiver ligado aos padrões doutrinários e religiosos, muitas deliberações poderão levar a atenção primária e especializada a ter um perfil higienista social e cultural. Segregando ainda mais a população negra.

Comportamentos pessoais e pensamentos subjetivos tem fomentado o racismo institucional.

 “Valores ideológicos subjacentes ao conhecimento científico e aos processos de alterização que tem conduzido à marginalização, estigmatização e inferiorização de numerosos grupos humanos ao longo da história das ciências

 Os determinantes sociais não podem mais ser banalizados .

Milhões de vidas negras poderiam ser salvas a cada ano, com a implementação de estratégias apropriadas de recursos para prevenção, detecção precoce e tratamento. Mortes maternas e por câncer poderiam ser evitadas se o diagnóstico precoce não fosse o divisor de águas no tratamento.

A existência de notificações compulsórias do quesito raça/cor nos prontuários, formulários e cadastros, tem criado impedimento para levantamento de dados importantes na saúde e produção de estudos mais detalhados do perfil epidemiológico e da situação de saúde da população brasileira. 

Esse tipo de informação nos prontuários, formulários e cadastros é fundamental para subsidiar o planejamento de políticas públicas que levem em conta as necessidades específicas dos diferentes grupos populacionais.

Racismo internalizado, que se manifesta por meio de sentimentos e comportamentos que implicam superioridade/inferioridade, aceitação/rejeição e uso de vieses e estereótipos; Racismo interpessoal, representado por meio de ações e omissões por falta de respeito, perseguição e negligência, intencional ou não;  e o ,Racismo externalizado, que compreende ações e omissões por falta de respeito”.

Existem diversos fatores que demostram as diferenças de mortalidade entre grupos étnico e raciais . Eu acredito que estão relacionadas as assimetrias raciais existentes na saúde. 

Nestes tempos é importante perceber que a pauta dos determinantes sociais de saúde (DSS) é fundamental para salvar vidas e possibilitar que a população negra, não morram precocemente, fiquem sequeladas e ou tenham impactos negativos na saúde física e mental .

Os níveis de atenção e assistência à saúde no Brasil são estabelecidos pela Portaria 4.279 de 30 de dezembro de 2010, que estabelece as diretrizes para a organização da Rede de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo eles: atenção primária, atenção secundária e terciária. Eles são usados para organizar os tratamentos e serviços oferecidos pelo SUS a partir de parâmetros determinados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com o objetivo de proteger, restaurar e manter a saúde dos cidadãos, com equidade, qualidade e resolutividade. É na atenção primária à saúde (APS), porta preferencial de entrada do usuário no SUS, onde a maioria dos problemas de saúde podem ser resolvidos ou encaminhados para tratamento na rede de atenção especializada (níveis secundário e terciário), se for o caso. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/marco/atencao-primaria-e-atencao-especializada-conheca-os-niveis-de-assistencia-do-maior-sistema-publico-de-saude-do-mundo#:~:text=Os%20n%C3%ADveis%20de%20aten%C3%A7%C3%A3o,se%20for%20o%20caso.

Medidas segmentadas, imediatistas, territorializadas com recortes apenas social e estrutural, manterá a população negra exatamente onde foi jogada no (pós) abolição e, não avançará para reparações.

De maneira conjuntural, podemos observar que no gerenciamento de saúde pública existe uma reinvenção e reformulação de pensamentos que se adéquam ao tempo político e governamental e veladamente imputam a população negra principalmente as  mulheres negras, a posição na sociedade de ser dotadas apenas de deveres e não de direitos.

Ao longo de minha vida militante, estudiosa do racismo na saúde, vivencio relatos dos mais variados obstáculos sofridos pela população negra, especialmente as mulheres negras como usuárias e trabalhadoras. Surgem dos mais variados espaços.

  A minha capacidade de pensar, elaborar e reconstruir estratégias políticas de saúde se diferenciam das relações tradicionalmente constituídas que carregam concepções eurocêntricas e alimentam as falsetas do racismo.

REFERÊNCIAS

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Lideranças de enfrentamento do racismo na saúde divulga nota de solidariedade ao Servidor Andrey Lemos

 Por Mônica Aguiar 

Andrey Lemos, nordestino, homem negro, gay, candomblecista e doutorando em Saúde Coletiva
A exoneração do servidor Andrey Lemos da Diretoria de Prevenção e Promoção do Ministério da Saúde causou inquietações nas organizações do movimento negro que atuam na saúde.

Durante o 1º Encontro de Mobilização para Promoção da Saúde no Brasil, 
promovido pelo Ministério da
Saúde, foram  realizadas apresentações durante os intervalos com a intenção 
de contemplar as representações
e diversidades do Brasil. 

Uma das apresentações estar sendo duramente criticada por setores que não aceitam a existência da diversidade e de manifestações culturais que não estejam dentro do seu padrão doutrinário religioso. 

Em uma atitude que julgo precipitada e desproporcional ao que se dispõem o projeto político em prol dos direitos humanos, e, se, avançarmos para uma análise de toda trajetória do período da prisão do Lula à  eleição de Bolsonaro, considerando dentro deste período o que sofreram as mulheres, a população LGBTQI+ e a população negra, predispõem a caracterizar a decisão como higienismo cultural.

Exonerar Andrey Lemos da diretoria responsável pela organização do evento para atender um pequeno setor da sociedade, com divergências extremas com Lula, não foi uma decisão politica responsável. Lula enxerga e respeita toda a diversidades e no campo cultural, religioso e humano do Brasil. 

Organizações e lideranças dos diversos campos de enfrentamento do racismo na saúde divulgaram uma nota conjunta de posicionamento em apoio ao servidor Andrey Lemos.

A NOTA

Solidariedade e Apoio ao Servidor Andrey Lemos

Nós, organizações e lideranças dos diversos campos de enfrentamento do racismo na saúde  vêm, por meio desta, manifestar apoio e solidariedade ao servidor público Andrey Lemos, nordestino, homem negro, gay, candomblecista e doutorando em Saúde Coletiva.  Militante incansável em defesa do Sistema Único de Saúde, ativista do movimento negro, movimento LGBTQIAPN+ e em defesa das religiões de matriz africana que, na última semana, foi exonerado das atribuições de diretor do Departamento de Promoção à Saúde da Secretaria Nacional de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (DEPROS/MS). 

Andrey Lemos vinha desempenhando um trabalho sério, comprometido, competente e responsável e responsivo Desde o início de suas atividades como gestor, ampliou os espaços de escuta e vinha se comprometendo a converter necessidades e expectativas dos diferentes grupos, em demandas para processos de trabalho dentro do departamento, entre departamentos, entre as secretarias do Ministério e outros setores de Políticas Públicas.  

Na última semana, o Departamento que dirigia o evento EM PROSA que reuniu, gestoras(es) do Ministério da Saúde, estados e município, sociedade civil, pesquisadoras(es), instituições de ensino  e pesquisa das áreas de Promoção da Saúde, Condições Crônicas Não Transmissíveis, Atividade Física, Alimentação e Nutrição, Saúde na Escola e Bolsa Família. O encontro proporcionou troca de saberes, experiências e fomentou o desenvolvimento de novas tecnologias para a promoção da saúde. 

O EM PROSA tinha o objetivo de contribuir para que gestoras(es), trabalhadoras(es), pesquisadoras(es), professoras(es), lideranças da sociedade civil,  ampliassem sua capacidade de olhar, promover saúde e prevenir doenças e agravos, “sem deixar ninguém para trás e, muito menos, fora da rede de saúde", assim como preconizava o projeto aprovado pela maioria da população brasileira nas últimas eleições para o governo federal. 

Durante o Encontro, a apresentação realizada pelo Grupo Casa de Onijá que, em 28 de junho de 2021 apresentou-se no plenário da Câmara dos Deputados,  desencadeou uma enxurrada de críticas violentas à trajetória de um respeitável funcionário público dirigente do DEPROS/MS. 

O fato (performance artística) que, por razões óbvias não estava sob a governabilidade do diretor,  gerou repercussões negativas na trajetória profissional, acadêmica e pessoal de  Andrey Lemos. Todavia, ele não foi a única vítima: nós, comprometidas(os) com as lutas sociais, os direitos humanos,  a ciência, o combate ao racismo, a promoção da equidade racial e de gênero, e outras milhares de pessoas que têm sido deixadas para trás pelas estruturas do Estado, também fomos gravemente afetadas(os). 

Reconhecemos o quão importante  e representativa era a presença de Andrey Lemos no Ministério da Saúde e a relevância do trabalho que desenvolvia. Estamos consternados pelas repercussões  que reiteram uma lógica castradora de moral sexual e perpetua a perspectiva de pânico moral seletivo. Não podemos nos furtar a associar as repercussões à representação social negativa comumente atribuída às expressões culturais mais populares, periféricas, ou negras. São interseções incontestáveis. 

Tudo isso não nos impede de reiterar a importância de monitorar, avaliar e controlar  indicadores de gestão, exigir prestação de contas, efetividade no uso de recursos públicos, economia e promoção da saúde, descentralização e democratização do acesso a recursos e insumos de promoção e prevenção, mas não com perfilamento racial. 

Seguiremos na luta com você, Andrey, para que ninguém seja sacrificado em nome da falácia da moralidade e da "bons costumes", historicamente conectada com a ética, mas que, na verdade, está ligada à lógica colonial e racista de manutenção do status quo, reiteração de estigmas e perpetuação da exclusão.  

Nossa solidariedade e gratidão pelo trabalho desenvolvido à frente da DEPROS/MS. Desejamos que tenha resiliência, muita força e saúde para seguir em defesa de um SUS sem racismo e de um país, para todos, todas e todes. Por fim, cumpre ressaltar que o posicionamento institucional punitivista não responde aos anseios de uma sociedade democrática e muito menos daquelas e daqueles que elegeram este governo. Neste sentido, como uma atitude justa e afirmativa, entre outras novas práticas e normas institucionais, recomendamos a recondução de Andrey ao cargo de diretor do Departamento de Promoção e Prevenção à Saúde. 

Abaixo assinamos, 

  • CRIOLA
  • Sociedade Ketú Àse Igbin de Ouro
  • Fórum Paulista de Saúde da População Negra
  • Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde
  • Candaces - Rede Nacional de Lésbicas e Bissexuais Negras
  • Rede Brasileira de População e Desenvolvimento (REBRAPD)
  • Rede Lai Lai Apejo - Saúde da População Negra e Aids 
  • Ação de Mulheres por Equidade - AME
  • Rede Mulheres Negras - PR
  • Instituto Aroeiras - Instituto Paranaense de Diálogos, Defesa e Comunicação para Mulheres (cis e trans) Negras Lésbicas e Bissexuais 
  • Associação Cultural de \Mulheres Negras- ACMUN
  • Ilé Àse Ti Tóbi Ìyá Àfin Òsùn Alákétu  
  • AIABA - Associação interdisciplinar Afro-Brasileira e Africana
  • Renafro - Núcleo Arapongas-PR 
  • Associação de Pescadores e Marisqueiras do Quilombo da Cambuta frutos do Mar Núcleo de extensão e pesquisa com populações e comunidades Rurais, Negras, quilombolas e Indígenas (NuRuNI), da Universidade Federal do Maranhão, 
  • Articulação das Mulheres pescadoras da Bahia
  • Grupos Gaivotas Salinas da Margarida
  • Rede das Mulheres de Terreiro de Pernambuco
  • Uiala Mukaji Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco
  • Grupo de Mulheres Negras Malunga
  • Articulação de Mulheres Negras Brasileira
  • Frente Nacional de Negras e Negros da Saúde Mental
  • Prevenção para Todxs
  • Comitê Brasilândia em Luta 
  • AMMA Psique e Negritude: Pesquisa, Formação, e Referências em Relações Raciais   
  •  


quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Saúde da População Negra. Câncer de mama no Brasil

 Por Mônica Aguiar 

O Instituto Nacional de Câncer (INCA), lançou a “Estimativa 2023 – Incidência de Câncer no Brasil “. O objetivo de estimar e descrever a incidência de câncer no país, Regiões geográficas, Unidades da Federação, Distrito Federal e capitais, por sexo, para o triênio 2023-2025.

As informações apontam para 704 mil casos novos de câncer no Brasil para cada ano do triênio 2023-2025.

Espera-se que, para 2030, ocorram mais de 25 milhões de casos novos.

Nas regiões de maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os tumores malignos de cólon e reto ocupam a segunda ou a terceira posição, sendo que, nas de menor IDH, o câncer de estômago é o segundo ou o terceiro mais frequente entre a população masculina.

“As mulheres, o câncer de mama  é o mais incidente (depois do de pele não melanoma), com 74 mil casos novos previstos por ano até 2025. Nas regiões mais desenvolvidas, em seguida vem o câncer colorretal, mas, nas de menor IDH, o câncer do colo do útero ocupa essa posição.  https://bvsms.saude.gov.br/”

“A vigilância do câncer é um elemento crucial para planejamento, monitoramento e avaliação das ações de controle do câncer. https://rbc.inca.gov.br/

A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) ressalta que entre 90 e 95% dos diagnósticos de câncer de mama estão associados a fatores genéticos, enquanto 5 a 10% são ligados à genética.

De 2016 A 2020 os óbitos por câncer de mama ocupam o primeiro lugar no Brasil .

 A taxa de mortalidade por câncer de mama, ajustada pela população mundial, foi 11,84 óbitos/100.000 mulheres, em 2020, com as maiores taxas nas regiões Sudeste e Sul, com 12,64 e 12,79 óbitos/100.000 mulheres, respectivamente (INCA, 2022). https://www.gov.br/

Embora preveníveis, passíveis de serem diagnosticados precocemente e até mesmo evitáveis em muitos casos, os cânceres que surgem em órgãos como mama, próstata, pulmão, intestino grosso e reto (colorretal) e colo do útero continuam na lista dos mais incidentes. https://medicinasa.com.br/brasil-cancer-2023/

Para isto, se faz necessário que no Brasil Estados e Municípios tenham estrutura mínima, com equipamentos e profissionais - para realizar procedimentos que faça a diagnósticos  e terapêutica , tanto do câncer de mama mas também do colo do útero.

Quase pelo menos um terço de todas as mortes relacionadas ao câncer poderiam ser evitadas por meio de exames de rotina, detecção precoce e tratamento. Milhões de vidas poderiam ser salvas a cada ano com a implementação de estratégias apropriadas de recursos para prevenção, detecção precoce e tratamento.

As mulheres negras tendem a ter tecido mamário mais denso do que as mulheres brancas. Ter tecido denso na mama pode tornar mais difícil para os radiologistas identificar o câncer de mama em uma mamografia, e mulheres com tecido mamário denso têm maior risco de câncer de mama. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/mulheres-negras-

Pesquisadores determinaram que, ao recomendar o rastreamento do câncer de mama aos 50 anos para as mulheres, as mulheres negras deveriam começar aos 42 anos.

Para rastrear o câncer de mama é indicada a mamografia, podendo ser complementada pelo ultrassom.

Embora as mulheres negras tenham uma taxa de incidência de câncer de mama 4% menor do que as mulheres brancas, elas têm uma taxa de mortalidade por câncer de mama 40% maior.

O Ministério da Saúde no Brasil ainda orienta que a mamografia de rastreamento é indicada uma vez por ano entre  mulheres com 50 a 69 anos.

Eu acredito que existe invisibilidade nas notificações e  subnotificações  do acesso ao exame e tratamento do câncer de mama.

Estimativas do número de casos novos de câncer é  uma ferramenta poderosa para fundamentar políticas públicas e alocação racional de recursos para o combate ao cânceres que incidem na população negra.  

Um estudo realizado no Programa de Pós-graduação em Saúde Pública, da Faculdade de Medicina da UFMG, com base em dados do SUS, indicou que a sobrevida de mulheres negras em casos de câncer de mama é até 10% menor do que entre mulheres brancas. 

O câncer é a segunda causa de morte natural no Brasil. Estas mortes poderiam ser evitadas. O diagnóstico precoce  é primordial e um divisor de águas no  tratamento.

As equipes de Atenção Básica/Saúde da Família têm um papel fundamental para além de ofertar  orientações devidas estimulando a conscientização do exame de mama e do colo do útero se evitassem a subnotificação.

É  preciso avaliar o  aumento da equipe de saúde considerando a aplicação de qualificação técnica nos direitos humanos das mulheres e meninas, especificidades existentes na saúde, bem como,  aumento da oferta de serviços na atenção primária considerando conjuntamente os números e índices de mulheres na composição populacional do município e do Estado no território.

Mulheres negras jovens têm riscos maiores de desenvolver câncer de mama triplo-negativo, que é um tipo de tumor geralmente agressivo e que não responde tão bem aos tratamentos. A descoberta foi divulgada na revista Cancer, da American Cancer Society.

A Equipe de Saúde Familia tem que considerar a raça, etnia e os determinantes sociais do seu território ao analisar  a idade em que o rastreamento do câncer de mama deva começar.

É preciso desvelar as desigualdades raciais na saúde pública. Concretizar proposições e  ações na atenção específicas que promovam verdadeiramente equidade, sem fazer recortes segmentados que induzem e caracterizam segregação e higienismo.  

Medidas segmentadas, imediatistas, territorializadas com recortes, manterá a população negra exatamente onde foi jogada no pós abolição e, Brasil não avançará para reparações.  

Os dados epidemiológicos obtidos evidenciaram as iniquidades raciais nas condições de vida da população e seu impacto no perfil da morbimortalidade. A inclusão do quesito cor nos estudos sobre o acesso e qualidade dos serviços de saúde prestada à população, realizados por Kalckmann et al. 14, Leal et al. 15 e Diniz et al. 16, também evidenciaram desigualdades raciais e seu impacto na saúde. https://www.scielo.br/j/csp/a/8QtV5qv9LSRPCWytv45yspS/

O Ministério da Saúde assegura que” as evidências científicas mostram que o rastreamento na  faixa etária entre 50 a 69 anos é capaz de reduzir a mortalidade por câncer de mama, razão pela qual as ações de controle devem ser voltadas para ampliação da cobertura na faixa etária alvo”.

Porém, novas pesquisas e o aumento de número de óbitos em mulheres jovens por câncer de mama indicam a necessidade de reavaliação do rastreamento desta faixa etária.

Afinal, o diagnóstico precoce aumentam as chances de cura e de vidas.  

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Mulheres negras blogueiras, responsabilidade e ação

 Por Mônica Aguiar 

O trabalho de uma mulher negra blogueira não tem o devido reconhecimento e visibilidade, mesmo que seus artigos alcance milhares de leitores.

Existe uma visão distorcida dos papéis que formulam os conceitos e importância do que é ser uma digital influence com milhares de seguidores e, uma blogueira com acessos de leitura nos artigos escritos.

A ampla maioria das pessoas acreditam que o número de seguidores é o único lado positivo para quem desenvolve algum tipo de trabalho nas redes sociais. 

Muitos não sabem que para elaboração de um artigo, uma blogueira precisa de muito tempo,   responsabilidade, estudos, pesquisas, investigações, tornando o trabalho árduo e dispendioso.

É comum ouvir afirmações que não existem uma fórmula para ser uma blogueira ou uma influence. 
Dentro deste fasto universo deve-se, compreender os papeis e entender o potencial e relevância de cada uma, bem como, as diferenças nas produções apresentadas, sejam audiovisuais ou escritas. 

As produções podem provocar impactos nas vidas das pessoas e levar uma equipe inteira alterar conteúdos para que as métricas (alcance, engajamento, seguidores) sempre sejam positivas. 

Existem conteúdos que podem impactar de maneira positiva e negativa nas vidas das pessoas. Fotos, vídeos, podcasts e, obvio, textos. 
As expectativas levam uma pessoa a produzir e conhecer as preferências do público e os esforços podem se tornar alinhados para melhor atendê-los". 

 A depender de certos valores, princípios e conceitos pessoais, uma blogueira ou influence podem deixar de lado a resiliência e com isto, ter seus trabalhos contaminados de conceitos pejorativas, depreciativos, racistas, machistas, homofóbicos, intolerantes, xenofóbicos.

A preocupação de permanecer somente com resultados de engajamento e seguidores altíssimos também tende a afastar o influencie e/ou blogueira do zelo no conteúdo que agregam valores humanos e das pautas específicas das desigualdades existentes nas relações humanas, as consequência direta e indireta e das mazelas.

É muito comum encontrar informações em plataformas sociais, sites, grupos WhatsApp que induzem ao erro, interferem em tomadas de decisões sérias, chegam a comprometer a estrutura administrativa, social e política de uma nação. Interferem na cultura, economia e modo de viver de um povo. 

Eu fiz uma pesquisa particular no primeiro semestre de 2023, e constatei que são poucas blogueiras negras que escrevem, independente do número de seguidores, mesmo, diante dos desafios impostos, nunca desistem, pois, tem como um dos propósitos a manutenção de sua militância, do ativismo e distribuição de informações corretas. 
São formadoras de opiniões e não de comportamentos. 

1)      No início do movimento das celebridades da internet, eram os blogueiros e blogueiras quem comandavam tudo. Já “digital influencer” é um termo utilizado para designar aquelas pessoas que formam opinião, tendência e influenciam outras pessoas pelas redes sociais. Podem ou não ter um blog.

Na minha pesquisa, também observei que as mulheres negras blogueiras, em sua maioria, tem acima de 45 anos. Lendo as publicações realizadas e avaliando os conteúdos, observei que a maioria não abre mão do estudo e da pesquisa baseada nas evidências histórica e científicas. 
Com isto, impressionantemente, mesmo diante da complexidade dos segmentos e assuntos específicos, produzem em maioria os denominados blogs de gêneros.

2)     “Conforme o estudo “Blogs do Brasil: Panorama 2017”, conduzido pela BigData Corp, atualmente existem mais de cinco milhões de blogs ativos no Brasil......     Nem todas as blogueiras se transformaram em influenciadoras, como nem todas as influenciadoras foram ou são blogueiras......    

Muitos Blogs tem os números de seguidores bem menor que o número de acessos/leituras.

Mesmo tendo inúmeros leitores, nem todas as blogueiras negras, possuem a mesma condições financeiras, visibilidade e reconhecimento que uma digital influencie que trabalham com fotos, frases/chavões, vídeos ou podcasts.

As condições financeiras, garantem uma equipe técnica com pessoas conhecedoras em marketing de Influência. 
Produção para que as marcas encontram uma oportunidade de estabelecer parcerias para utilizarem, apresentem e divulguem seus produtos e serviços”

Mas, este debate do que existe no mercado por trás dos números de seguidores, deixaremos para outro momento. Voltemos as Blogueiras negras.

Neste vasto e de pequeno número de blogueiras negras, cito duas: Arísia Bairros em Pernambuco e Mônica Aguiar de Minas Gerais, esta que vos escreve.

O que tem em comum? - Militantes em defesa da cidadania negra, combate ao racismo, liberdade e dos direitos humanos das meninas e mulheres negras.

Arísia Bairros do Instituto Raízes. Mônica Aguiar do Blog Mulher Negra. São centenas de matérias publicada por elas.

É muito fácil observar a influência que exercem em muitos conteúdos. Um texto publicado, por menor que seja, vira chavão para fotos ou podcast de muitas pessoas que vem se destacando através do "ativismo".

Neste mercado onde a disputa é solta e não existem regras, a produção de uma mulher negra é abertamente criticada e desqualificada.   

Nos modelos propostos, os pressupostos, os métodos operantes e “teorias” são eurocêntricos. 
Os parâmetros que deveriam existir, baseados nos princípios dos direitos humanos, meio ambiente, igualdade, oportunidade, saúde,   confinam-se em discursos. 

Na prática, imperam o silenciamento e dominação. 
Na maioria, técnicas fadadas para não garantir o acesso igualitário aos direitos fundamentais.

Eu, mulher negra, blogueira, se faço opção de participar do jogo dos lobos, terei que aceitar silenciosamente condições impostas. A ruptura nesta casta, sempre trouxe perdas. 

Abdicar da imagem de papel de conciliadora, boazinha, subserviente, vulnerável, concedente, defensora dos interesses universais, é NÃO dar sustentação a algo maior que domina o tempo e transforma valores arcaicos e invisibilidade em condições desumanamente reais. 

O meu dicionário é bem memorial, formulado por anos. Muitas palavras e seus significados são mantidas através da oralidade. 
Existe nome novo para "apropriação temporária": empréstimo para produção coletiva. 
Para mim,   condiciona a outros fatores como: invisibilidade, não reconhecimento, subordinação, escravidão intelectual e dentre outros. 
 
Entre tudo, respiro e ganho forças para manter escrevendo.

Fontes biograficas :

1)      1) https://www.mundodomarketing.com.br/

2)      2) https://m.leiaja.com/

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