segunda-feira, 8 de abril de 2019

Ruanda mostra como garantir igualdade de gênero

Por Julia Crawford
Adaptação e edição : Mônica Aguiar

Muitas das reformas introduzidas no Ruanda após
o genocídio mudaram a vida das mulheres,
conferindo-lhes direitos de herança e propriedade.
Além disso, uma forte representação no parlamento .  Foto 
Keystone

Um estudo publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) mostra que Ruanda está em sexto lugar e a Suíça, em 20º, na lista dos países que garantem direitos iguais a homens e mulheres. Rose Rwabuhihi, chefe do Observatório do Gênero em Ruanda, afirma que  novas leis tiveram um grande impacto sobre a vida das mulheres após o genocídio de 25 anos atrás.

Ruanda e Suíça têm alguns pontos em comum: os dois países são pequenos, montanhosos, dispõem de poucos recursos naturais e têm no setor de serviços e turismo sua maior fonte de renda.

Mas as diferenças estão nos índices de PIB, direitos humanos e liberdades democráticas.
Ruanda é um país modelo quando se trata de participação da mulher na política, superando inclusive a Suíça. Mais de 60% dos assentosLink externo no Parlamento federal de Ruanda são ocupados por mulheres.
Na Suíça essa proporção é de apenas 30% no Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) e apenas 15% no Conselho dos Estados (Senado).

Sylvie Durrer, diretora da Secretaria Federal de Igualdade de GêneroLink externo, ressalta que os indicadores do WEF muitas vezes podem ser mal interpretados, especialmente por dar mais peso a alguns fatores do que outros, mas considera "lamentável" que a Suíça não tenha melhores resultados no índice de igualdade de gênero. Ela acredita que a Suíça poderia aprender com outros países, mesmo aqueles que ainda estão em fase de desenvolvimento como a Ruanda.

Quotas para mulheres

"Eles introduziram quotas em Ruanda para a política, ajudando assim as mulheres a fazer muitos progressos na área política", explica Durrer. "É uma medida bastante usada em alguns países, mas que encontra na Suíça uma certa resistência. Ha quase duas décadas tivemos um plebiscito sobre a questão e a população se manifestou claramente contrária à introdução de quotas na vida política."

Até os anos 1990 as mulheres ocupavam apenas 18% dos assentos no Parlamento ruandês. Mas a constituição elaborada em 2003 determinou uma quota mínima de 30%. "A quota era necessária, pois não seria possível começar a mudar se você tem uma representação baixa de mulheres na política", afirma Rwabuhihi.

"Era muito importante ter um impulso para chegar a um número significativo de mulheres no Parlamento", acrescenta. "Foi um passo importante, pois vemos agora que funciona muito bem e que dá o espaço necessário às mulheres."

A ruandesa ressalta que hoje há um equilíbrio de homens e mulheres no Executivo do país e mesmo no Judiciário, onde 50% de juízes são do sexo feminino. "É importante para as meninas e mulheres verem outras como elas exercendo cargos importantes. É uma forte mensagem: mostrar que as mulheres também participam do processo decisório no país.

O que a Suíça deve fazer

Durante a sessão de primavera do Parlamento suíço (quatro por ano), Regula Rytz, presidente do Partido Verde, lembrou a responsabilidade dos partidos em diminuir as desigualdades de gênero especialmente no mundo político. "É a responsabilidade dos partidos de lutar por isso", declarou, acrescentando. "É absolutamente necessário ter uma lei como a aplicada em algumas partes da Alemanha, onde os partidos ficam obrigados a apresentar listas de candidatos com um número igual de homens e mulheres."

Alguns partidos já adotaram esse procedimento, mas ainda não se tornou uma regra geral. Rytz revela que o seu partido planeja apresentar mais mulheres candidatas para a próxima eleição federal, prevista para ocorrer em outubro de 2019. Ela considera que também os partidos de centro e direita devem se esforçar nesse sentido. "E na minha opinião isso só ocorrerá se uma obrigatoriedade for introduzida por lei."

"De fato há mais mulheres engajadas em política entre os grupos de esquerda do que na direita", avalia Jean-Pierre Grin, deputado-federal pelo Partido do Povo Suíço (SPV, na sigla em alemão, direita nacionalista). Como seu partido, Grin também é contrário a sistemas de quotas ou obrigações legais, mas vê a necessidade de "trabalhar mais com os jovens e interessar às meninas pela política", especialmente na escola.

Os sociais-democratas afirmam já terem mais mulheres do que homens na Câmara dos Deputados e mais mulheres no senado do que todos os outros partidos juntos. Roger Nordmann, presidente do PS, explica no site Link externo que o necessário para ter mais mulheres no Parlamento federal seriam "ajustes estruturais na arena política, incluindo em termos de cultura política. Além disso, há de encontrar meios para conciliar família, carreira e com atividades políticas.

Igualdade de remuneração
Em que aspectos a Suíça poderia ainda melhorar, ao analisar o estudo do WEF sobre as desigualdades de gênero? Segundo Roberto Crotti, um dos autores, o país poderia fazer mais para ter mulheres em cargos de liderança e pela paridade salarial. O último ponto melhorou de alguma forma, diz, mas ainda é possível melhorar a situação.

A Suíça poderia também oferecer mais estruturas de acolho para crianças. Crotti acredita que "essas medidas melhorariam as chances de oportunidades para as mulheres no país."

"Na Suíça temos uma grande carência de creches e outros centros de acolho. Quando elas existem, muitas vezes são caras demais para as famílias. Por isso é que a maior parte das mulheres na Suíça termina abandonado o emprego ou decidindo pelo trabalho em tempo parcial", avalia Sylvie Durrer, diretora da Secretaria Federal de Igualdade de Gênero.

Se o emprego em tempo parcial pode ser uma solução para reconciliar trabalho e vida privada, ele também pode ser um problema: trabalho em tempo parcial pode ter efeitos negativos sobre a aposentadoria da mulher ao longo prazo.

Questionada se as políticas governamentais aplicadas ajudam a diminuir as desigualdades de gênero, Rose Rwabuhihi responde que há uma vontade concreta nesse sentido e uma política de gênero clara.

"Em Ruanda, a integração das políticas de igualdade entre homens e mulheres é realmente uma parte importante da nossa estratégia de desenvolvimento", declarou à swissinfo.ch, citando também mais de dez setores onde essa estratégia é aplicada, que inclui inclusive a obrigação às agências públicas de apresentarem "orçamentos de gênero". Uma das coisas que aprendeu é que "os recursos são uma questão fundamental".

Desejo por mudanças
Durrer ressalta que duas mulheres entraram no Conselho Federal (corpo de sete ministros que governam a Suíça) no final de 2018. "Hoje há um equilíbrio maior no governo, pois são três mulheres e quatro homens", afirma, lembrando também que havia uma expectativa entre a população de que pelo menos duas mulheres fossem eleitas. "Não houve muita discussão no Parlamento. As duas foram eleitas sem grandes dificuldades."

Ela acredita que há uma mudança de atitude do público em relação à igualdade de gênero. É o que mostrou uma pesquisa de opiniãoLink externo, onde mil pessoas foram questionadas. "As mulheres são mais críticas do que os homens, mas tanto elas como eles afirmam não terem alcançado a igualdade de gênero na vida familiar, trabalho, política e outras áreas da vida. Isso significa que existe uma consciência geral em relação ao tema e, finalmente, o desejo de ter mais igualdade de gênero."

O relatório do WEF
Os países escandinavos são os primeiros colocados no relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2018 sobre a igualdade de gêneroLink externo. Porém a Ruanda é não apenas o único dos países em desenvolvimento a estar nas dez primeiras posições: a Nicarágua (5ª), Filipinas (8ª) e Namíbia (10ª).

Roberto Crotti, um dos autores do relatório, lembra que os resultados não significam necessariamente que as mulheres em Ruanda ou Nicarágua encontram-se em melhor situação do que na Suiça. O índice compara o desempenho relativo de mulheres e homens em um determinado país, criando uma espécie de igualdade. "Porém pode ser que a condição absoluta seja pior, mas a condição em relação aos homens no país é melhor", explica.

 Fonte:swissinfo

quinta-feira, 4 de abril de 2019

"Ideologia de gênero": o combate a um campo científico


Por DW publicação de janeiro 2019 

Expressão, que não tem base acadêmica, ficou popular no Brasil na boca de Bolsonaro e seus seguidores. Ela tenta desqualificar pesquisas que ajudam a corrigir desigualdades e discriminações no cotidiano.

A ministra Damares Alves iniciou seu mandato à frente da nova pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos gerando controvérsia, ao comemorar uma suposta "nova era"  no país: meninos vestiriam azul, e meninas, rosa. Ao se justificar, disse que a frase seria uma "metáfora" ao que ela chama de "ideologia de gênero".

A expressão não é nova, mas ganhou destaque durante a campanha eleitoral passada, sendo popularizada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos. Muito antes de se tornar candidato, o ex-deputado já havia incorporado o termo no seu discurso político e se tornado um de seus principais propagadores no país.

O termo, porém, não possui base acadêmica. A suposta "ideologia de gênero" surgiu como uma expressão pejorativa para desqualificar os estudos de gênero, um campo científico interdisciplinar que analisa e investiga todo o tipo de questão relacionada ao gênero. Isso inclui, por exemplo, processos sociais e relações de poder envolvendo homens e mulheres, além da própria construção do gênero e suas representações.

"Os estudos de gênero surgiram porque a ciência predominante pesquisava somente a história e a vida dos homens. Assim, ela não era objetiva, mas unilateral. Esse campo se ocupa de questões, temas e pessoas que eram frequentemente esquecidas ou omitidas. Ao ampliar a perspectiva científica, contribuiu para aumentar a objetividade", afirma Henning von Bargen, diretor do Instituto Gunda Werner para Feminismo e Democracia de Gênero, ligado à Fundação Heinrich Böll.

Originado nos estudos da mulher que se desenvolveram nos EUA a partir da década de 1970 com o avanço do movimento feminista, os estudos de gênero começaram a tomar forma a partir de meados dos anos 1980. Sua abordagem científica parte do princípio de que gênero é principalmente uma construção social, e não restrito apenas ao sexo biológico.

Ou seja, a sociedade, ao impor padrões que caberiam ao homem e à mulher, acaba determinando o que é entendido como característico do masculino e do feminino. Um exemplo seria o azul como cor de menino e rosa de menina ou que meninas devem brincar de bonecas e meninos de carro.

Os estudos de gênero não negam fundamentalmente o sexo biológico, mas rejeitam o entendimento somente biológico do gênero. Eles pesquisam, entre outras coisas, essa construção de categorias de diferenciação de pessoas, que são mutáveis. No início do século 20, por exemplo, rosa era a cor dos meninos, e azul, das meninas. Esses padrões sociais e culturais geram, sobretudo, desigualdades e discriminações no cotidiano, que também são analisadas neste campo de pesquisa.

"O gênero é um conceito analítico que não tem relação com uma concepção de mundo. É uma categoria de análise para observar melhor e entender melhor a sociedade, pois ela se organiza muito nas diferenças entre os gêneros", acrescenta Regina Frey, do Instituto para Assistência Social e Pedagogia Social.

Cruzada antigênero
Com a expansão e consolidação deste campo científico, que supostamente estaria ameaçando princípios religiosos, foi lançada uma contraofensiva católica em defesa de sua doutrina e do modelo tradicional de família. Em 1998, numa nota da Conferência Episcopal do Peru, aparece pela primeira vez a expressão "ideologia de gênero".

Segundo o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Rogério Diniz Junqueira, no Brasil, religiosos começaram a usar a expressão em 2011. Mas foi somente em 2014 que o termo ganhou destaque ao aparecer nos protestos para a exclusão das expressões gênero e orientação sexual dos planos de educação. A partir de então, "ideologia de gênero" se tornou uma categoria de mobilização política.

"A ‘ideologia de gênero’ é uma invenção, um artifício retórico. Não pode ser confundido com um termo científico. A sua elaboração jamais seguiu princípios e preocupações de ordem científica. O termo aflorou no âmbito de um projeto de poder: decidiu-se utilizar o termo que melhor funcionasse politicamente segundo os objetivos dos atores que fomentam essa ofensiva reacionária", avalia Junqueira.

Mas não foi somente no Brasil que o termo ganhou popularidade. Diversos grupos políticos e religiosos ultraconservadores iniciaram em vários países uma verdadeira cruzada antigênero, contra não somente a igualdade de gênero e o feminismo, mas também contra a diversidade sexual e de identidade.

"Por trás da mobilização antigênero estão diferentes atores, organizações, partidos, redes religiosas fundamentalistas, que são classificados no espectro político de centro a extrema direita. Com a expressão ‘ideologia de gênero’ se voltam contra avanços da democracia liberal e de uma sociedade aberta", argumenta Von Bargen.

"Quem questiona o gênero deveria explicar por que ele é negativo e por que homens e mulheres não deveriam ter os mesmo direitos. Isso não é nenhum um pouco explicado com o termo ‘ideologia de gênero’", acrescenta Frey, que coordenou o segundo relatório sobre equiparação do governo da Alemanha.

Políticas de gênero
Apesar da contraofensiva político-religiosa, os estudos de gênero contribuíram para compreensão de diferenças e desigualdades geradas por essas construções sociais e, desta maneira, auxiliaram no desenvolvimento de políticas públicas para promover a igualdade de gênero e combater a discriminação.

Na União Europeia, desde 1999, a perspectiva de gênero passou a ser um ponto central no desenvolvimento de políticas. Esse conceito, que ficou conhecido como Gender Mainstreaming (transversalização de gênero), busca alcançar a equiparação ao pensar nos impactos que decisões políticas e estruturais causarão para homens e mulheres e como aumentar a igualdade de oportunidades para todos os sexos.

"O objetivo da Gender Mainstreaming é a criação da igualdade de oportunidades efetiva. Essa política não compreende o homem e a mulher como grupos homogêneos, mas leva em conta que dentro desses grupos há uma diversidade de situações de vida e necessidades", afirma Von Bargen.

Frey destaca que o Gender Mainstreaming não significa que mulheres e homens devem ser iguais e que não busca um reajuste no comportamento, mas a equiparação dos direitos. Ao pensar nos impactos de políticas percebendo e levando em conta as diferenças entre os gêneros, o Estado evita aumentar as desigualdades em direitos e oportunidades.

"Trata-se de estabelecer uma nova forma de pensar sobre todos os níveis que integra o aspecto equiparação como objetivo parcial substancial na política. A categoria gênero não levanta apenas a questão da igualdade de gênero, mas é um fator fundamental para a solução de problemas econômicos, sociais e políticos", ressalta Von Bargen.

Entre medidas resultantes deste conceito fazem parte projetos para igualar o acesso a cargos de chefia e políticos, de equiparação salarial e de combate à violência sexual.

Ela é Onisajé. A primeira Mulher Negra a dirigir espetáculo da Cia de Teatro da UFBA

Onisajé (Fotos: Adeloyá Magnoni)

Abrindo a programação do III Fórum Negro das Artes e Cultura (FNAC), no dia 18 de abril, a Cia de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estreará “Peles Negras, Máscaras Brancas”, inspirada na obra de Franz Fanon com encenação de Onisajé (Fernanda Júlia).

O espetáculo esta em cartaz  em dias alternados  ate dia  31 de março; e dias  5, 6, 7, 12, 13  e 14 de abril, às 19h, com entrada gratuita, no Teatro Martim Gonçalves.

A encenadora traz um elenco exclusivamente negro para a montagem. Em 2017, a peça “Gusmão – O Anjo Negro e sua Legião”, dirigida por Tom Conceição, foi  pioneira em ter elenco negro pela companhia. “A Escola de Teatro da UFBA é pioneira ao trazer isso para a cena: o olhar para a diversidade cultural do povo brasileiro”, relata Onisajé.

“O teatro é um espaço midiático, de criação, de plano simbólico, de referências e reconhecimento.
Ver-se e ser visto é muito importante”, comenta Onisajé.

Em cena, o psiquiatra e ensaísta da Martinica, Franz Fanon, será encenado por dois atuantes, o ator negro e cisgênero Vitor Edvani e a atriz negra e transexual Matheuzza Xavier. “O teatro é um espaço ainda sem muitas investigações e inserções de corpos trans ou travestis”, crítica Matheuzza.

Povo preto representado

“Peles Negras, Máscaras Brancas” é fruto da reivindicação dos alunos da graduação e da mobilização de artistas negros engajados fruto do FNAC, com co-direção de Licko Turle, professor visitante da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). O elenco composto por Iago Gonçalves, Igor Nascimento, Juliette Nascimento, Manu Moraes, Matheus Cardoso, Matheuzza, Rafaella Tuxá, Thallia Figueiredo, Victor Edvani, Wellington Lima foi selecionado em audição.

Com dramaturgia de Aldri Anunciação (o mesmo de Namíbia, Não!), o enredo se passa em três períodos: 1950, quando Fanon escreve “Peles Negras, Máscaras Brancas”, 2019 e 2888, mil anos após a abolição da escravidão. “Tem um pessimismo ao pensar e repensar feridas provocadas pela colonialidade”, diz Aldri. Para o dramaturgo, a ironia da abordagem é pensar enfrentamentos para que as feridas subjetivas da população negra não se perpetuem.

O conceito do “Tempo Espiralado”, da escritora Leda Maria Martins é uma das referências de Aldri para pensar uma temporalidade dentro da filosofia africana.  “O tempo ocidental é plasmado nas palavras e tem uma articulação de início-meio-fim. Já no tempo africano, o passado e o futuro dialogam resultando num presente”, realça.

Luciano Salvador Bahia dá uma atmosfera de ficção científica a partir da direção musical, que traz a mistura de ritmos eletrônicos-futuristas com percussão afro-brasileira. A direção de arte de Thiago Romero e Tina Melo põe em diálogo a relação da colonização, entre o embranquecimento e a perda da memória ancestral e brinca com elementos que constroem a consciência de ser negro.

Serviço
O quê: Pele Negra, Máscaras Brancas
Quando: 18, 23, 24, 29, 30 e 31 de março; 05, 06, 07, 12, 13 e 14 de abril, às 19h
Onde: Teatro Martim Gonçalves
Entrada: Gratuita

 Fontes: IHACUFBA/Correonago/Geledés/Correio24horas/Revistaquilombo/Notíciaspretas

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Eleita a primeira Prefeita negra em Chicago


Por Mônica Aguiar 


Foto: Kamil Krzaczynski / AFP Photo
Lori Lightfoot, uma ex-promotora federal, sempre denunciou o racismo da policia local, venceu Toni Preckwinkle, por 74% a 26% dos votos. Chicago é a terceira maior cidade dos  EUA.


A ex-promotora federal Lori Lightfoot, de 56 anos, derrotou na terça-feira (2) Toni Preckwinkle. Ela será a primeira prefeita negra, assumidamente lésbica é a segunda mulher a administrar Chicago, a terceira maior cidade dos Estados Unidos, com grandes desigualdades econômicas. Sua posse acontecerá em 20 de maio.

Lightfoot, candidata pelo partido Democrata, jamais ocupou um cargo eletivo,  mas sempre teve em posições de destaque, nos governos Bill Cliton e Barak  Obama. Recebeu 74% dos votos enquanto Preckwinkle, encarregada do condado de Cook, teve apenas 26% dos votos (dados preliminares).

Durante a campanha, Lightfoot prometeu livrar a prefeitura da corrupção e ajudar as pessoas de baixa renda e da classe trabalhadora, que foram "deixadas para trás e ignoradas" pela classe política dominante da cidade. Em sua plataforma manteve foco na justiça social, igualdade , educação e segurança.

"Enfrentamos interesses poderosos. Hoje vocês conseguiram mais do que fazer história, criaram um movimento para a mudança", disse Lightfoot em seu discurso da vitória, acompanhada por sua esposa e filha.

Ela ainda afirmou que os moradores de Chicago estão vendo uma “cidade renascida”, um lugar onde a etnia e “quem você ama não importam”.

"Juntos nós podemos e faremos de Chicago um lugar onde o seu código postal não determina o seu destino. Nós podemos e vamos quebrar o interminável ciclo de corrupção desta cidade e nunca mais permitir que os políticos lucrem com seus cargos”, afirmou Lightfoot.

Lightfoot vai enfrentar além dos problemas de relações raciais,  fata de infraestrutura, falta de recursos em escolas públicas e cortes no orçamento.

Negros, brancos e latinos tem a mesma representação demográfica, somam 30% cada grupo.
Mas  negros e latinos,  ainda continuam vivendo em situações precárias, não contam com o a mesma condições e perspectivas  socioeconômicas que os brancos.  

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Levantamento aponta que Mulheres são as principais vítimas de injúrias raciais

Nem mesmo as legislações  estão sendo suficientes para barrar este crime de registro histórico, que tem aumentado em todo pais.


Entre 2014 e 2019, foram 1.146 denúncias com vítimas do sexo feminino. Autores são geralmente homens com idade entre 31 e 40 anos.


Distrito Federal
Jovens entre 18 e 30 anos, do sexo feminino, foram as principais vítimas de injúrias raciais, no Distrito Federal, entre janeiro 2014 e fevereiro de 2019. No período, foram registradas 2.095 ocorrências policiais pelo crime. É o que aponta um levantamento feito pela Polícia Civil e obtido pelo G1.

De acordo com os dados, as mulheres são responsáveis por 56% das denúncias, ou 1.146 registros. Desde 2014, foram registradas quase 700 ocorrências (33,2% do total) contra pessoas com idade entre 18 e 30 anos. As mulheres foram vítimas 425 vezes. Ou seja, em 61% das vezes.

Elas só não são receberam mais injúrias raciais que os homens quando as vítimas entre 0 e 11 anos (3,3% do total de denúncias) e entre 41 e 50 anos (8,4% do total de denúncias). No primeiro caso, foram registradas quase 40 denúncias onde a vítima era do sexo masculino, contra 27 do sexo feminino. Na segunda faixa etária, a diferença é pequena, foram 176 registros de vítimas do sexo masculino, contra 172 do sexo feminino.

Além disso, em apenas 2% de todas as ocorrências registradas, ou em 42 casos, a vítima se autodeclarou de cor branca.

São Paulo
O número de boletins de ocorrência de racismo e injúria racial registrados no estado de São Paulo aumentou 29% entre janeiro e maio deste ano, apontam dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) obtidos com exclusividade pela GloboNews via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Foram 195 ocorrências registrados por negros e pardos nos cinco primeiros meses do ano, contra 151 no mesmo período de 2017.

 O número de casos de crimes raciais registrados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) entre janeiro e maio de 2018 cresceu 65% na comparação com o mesmo período de 2017.

A Decradi é uma delegacia especializada em registrar e investigar crimes motivados por questões como racismo, homofobia ou transfobia e discriminação religiosa.
O que é injúria racial

A injúria racial é um crime caracterizado pela ofensa a dignidade de uma pessoa com base em elementos relacionados a raça, cor, etnia, religião, idade ou deficiência.

Um exemplo de injúria é associar termos depreciativos à raça ou cor com objetivo de ofender a honra da vítima. Como, por exemplo, chamar uma pessoa de "macaca".

A injúria se tornou crime penal em 2003 e tem pena prevista de reclusão de um a três anos e multa.

Os autores
Já o perfil dos autores é diferente do perfil das vítimas. Os homens são os que mais cometem o crime de injúria, em 50,6%. As faixas etárias também são diferentes, em quase 20% dos casos os autores tem entre 31 e 40 anos. Desses, 52% são homens.
Entretanto, a situação muda quanto mais velho é o autor. Acima dos 40 anos, em 54,33% das vezes os autores são do sexo feminino. Ainda foram registradas queixas contra autores que tinham entre 12 e 17 anos. Na maioria das vezes, eles eram do sexo masculino.

Aumento nos casos
De acordo com os registros da Polícia Civil, as ocorrências só têm aumentado entre 2014 e 2018. Saíram de 310 registros para 462, um aumento de 49%. Com exceção de 2017, em todos os demais anos o número de ocorrências aumentou com relação ao ano anterior. No ano passado, o houve aumento de 6,9% nos registros de injúria em comparação a 2017.

Nos dois primeiros meses de 2019 já foram registradas 80 ocorrências de injúria racial, pouco mais de um registro por dia. E a média mensal já está acima dos demais anos. Em 2014 foram em média 26 casos por mês, em 2016 foram 36, em 2018, 38 e agora 40.

Racismo
A Polícia Civil também divulgou dados sobre racismo no DF. No mesmo período foram 35 casos. Em 2018 o DF registrou 5 e entre janeiro e fevereiro de 2019 já foi registrado mais um caso. Entre as principais vítimas estão as mulheres e a faixa etária com mais registros é a entre 18 e 30 anos, assim como nos casos de injúria.

Assim como os casos de injúria, o Plano Piloto lidera entre as regiões com mais registro de racismo, foram 13 no período. Em seguida vem Ceilândia, com 6.

Fontes   no G1

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