quarta-feira, 22 de março de 2023

Nós, Negras e Negros somos livres?


 21 de março, de 2023!

Por Mônica Aguiar 

Quando paro para pensar em todas as denúncias de racismo que acorreram nos últimos anos, e, a dimensão que as práticas racistas tomaram nas redes sociais, consigo perceber como é ampla e expressiva esta parcela produtora e sustentadora de atos e ações institucionais racistas no Brasil. 

Explicitas, reafirmam as mazelas da escravidão e dão sustentação as desigualdades raciais. Revelam-se, sem o menor constrangimento, todos os níveis de desumanização, preconceitos, discriminações, intolerância e de violência.

Em qualquer parte do Brasil, entre quaisquer seguimentos e classe social, existem discípulos do racismo.

Na sociedade brasileira, os negros e as negras sempre foram destituídos(as) do acesso aos bens sociais e fundamentais, forçados a integrar-se no processo de aculturação eurocêntrica, ressaltando o caráter miscigenador: um povo mestiço, misturado, de várias cores e “padrões”.   Forçado a atender os sentidos da subserviência. Tolerante a tudo, passivo. 

O mito da democracia racial institucionalizado, provavelmente ainda é um dos mais poderosos mecanismos ideológicos de dominação já produzidos no mundo.

A assertiva delatada repetida vezes por militantes dos movimentos negros e mulheres negras, sobre genocídios, desigualdades sociorracial, sempre apontaram para tais “camuflagens” existentes. E sobre as implicações das assimetrias do racismo brasileiro.

Quando estratificamos cor/raça nos índices de desempregos, desigualdades nas relações salariais; condutas institucionais; acesso ao desenvolvimento econômico do país, fortunas e identidade étnica; acesso aos programas sociais e de saneamentos básicos; infraestruturas; acesso aos equipamentos:- da saúde, educação, comunitários, justiça e da política, percebemos o tamanho do fosso e onde estar concentrado o povo negro na piramide das desigualdades.     

E mesmo com todos os paralelos históricos de resistências manifestados nas batalhas das pessoas negras: fim da escravidão, liberdade, cidadania, identidade étnica racial, valorização e inclusão da mão de obra, combate as todas as formas de violências, resgate da história, reintegração das nossas terras, dentre tantos. Somos alvos diretos das conjunturas políticas em curso no Brasil.

Neste quadro de perdas das poucas e recentes conquistas, as mulheres negras e jovens negros sofrem duplamente com ataques racistas. Muitos invisibilizados e naturalizados nos meios de comunicações.  

Várias datas marcam a história de nossa resistência, e abominação ao racismo. Uma delas instituída em 1960, de 21 de março, pela ONU. A razão? Em memória do Massacre de Shaperville, ocorrido na cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Onde 20.000 negros que protestavam pacificamente, contra a Lei do Passe, que os obrigava a portar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles podiam circular. O exército atirou sobre a multidão e o saldo da violência foram 69 mortos e 186 feridos.

Sendo, a instituição da data do 21 de março - Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, tem 63 anos. 135 anos da abolição da escravatura.

Eu digo que desde 1831 o Brasil tem feito vistas grossas as Leis e Tratados que sucedem a promover as reparações. Os padrões civilizatórias não podem ser norteados pelo Estado brasileiro por medidas paliativas.  

O caminho para alcançar a liberdade e cidadania para o povo negro é muito longo e inseguro.

Fontes referências: Todamatéria /mundoeducação/Aacademica

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O SUS, SAÚDE SEXUAL E SAÚDE REPRODUTIVA DAS MULHERES

 Por Mônica Aguiar 

O SUS sempre contou com a contribuição dos movimentos de mulheres feministas para se concretizar.

Do ano que o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) foi criado  até o presente momento, são as mulheres que se destacam ao colocar o dedo na ferida dos paradigmas preconceituosos e discriminatórios, chamando a atenção da sociedade para a importância de restabelecer corretamente os conceitos científicos  e não os moralistas que interferem diretamente na vida sexual e reprodutiva das mulheres. 

Dentro de todos as aspectos e consequências, destaco os que causam impactos direto na vida das mulheres e da sociedade: inúmeras esterilizações de mulheres sem conhecimento e autonomia para o  consentimento devido principalmente entre as mulheres negras; colocação  de chip anticoncepcional, laqueaduras e ligaduras de trompas em grande escala em mulheres negras classificadas em situação de vulnerabilidade; altos números de mortes maternas;  violências obstétricas; não interrupção legal da gravidez; indicação desnecessárias de cesárias e as assimetrias raciais.

É necessário o reconhecimento que a mulher é cidadã com direitos e somos muito mais, que um objeto com função reprodutiva. Porém, é justamente na vida reprodutiva e sexual que o estado promove interferência direta não permitindo que as mulheres sejam donas de seus corpos e decisões.

“As divisões raciais geram uma desigualdade de alocação ou acesso à estrutura de classes e esta, por sua vez, condiciona os padrões de saúde e doença da população. Na condição de variável antecedente, raça pode ser pensada como tendo um papel "pré-fundamental" na constituição da desigualdade socioeconômica de saúde”. (Publicação de José Alcides Figueiredo Santos, 2011, Desigualdade racial de saúde e contexto de classe no Brasil ).

Quando medirmos as especificidades considerando fatores sociais, territoriais, perceberemos que ainda falta muito para avançar nas propostas de saúde das mulheres negras nas políticas e programas de saúde.

Vamos cuidar do útero, mas vamos, além disso”, exclama Jurema Werneck, ex-vice-presidente do Conselho Nacional de Saúde, fundadora e foi  coordenadora da ONG Criola, hoje representa o Brasil na Anistia Internacional. (PenseSUS 2014) .

Além das questões relativas ao aborto e maternidade, os movimentos de mulheres defendem que as políticas de saúde devem passar pela defesa da integralidade na percepção dos condicionantes de saúde considerando as distintas características raciais, territoriais, culturais, sociais, religiosas e econômicas.

No artigo publicado pela COFEN em 2020,“Como o movimento de mulheres contribuiu para construção do SUS”, encontro as seguintes afirmações:

Ainda não tinha um conceito de gênero bem desenvolvido, mas sob essa influência feminista, nos vocaliza, por meio dessa política, uma forma de a saúde tratar a mulher para além da função reprodutiva. A ideia de integralidade – um dos pilares do SUS com a universalidade e a participação social — nasce no PAISM. É a primeira vez que falamos de integralidade. Somos nós mulheres que dizemos ‘não queremos ser atendidas de forma fragmentada’. Queremos ser atendidas como sujeitos complexos, que reproduzimos, trabalhamos, sofremos doença crônicas, temos questões de saúde mental.  Somos muito mais do que parir. Somos violentadas, assassinadas. Somos lésbicas, hétero. Somo múltiplas e complexas.

Outra questão que as violações dos direitos reprodutivos das mulheres tem provocado aumento significativo de mortes maternas, tornando um grave problema de saúde pública no Brasil.

Para Clarissa Carvalho, do Movimento pela Humanização do Parto e do Nascimento, a violência obstétrica  é a maior forma de discriminar uma mulher nos serviços de saúde, sejam eles públicos ou privados. “De forma bem ampla, podemos falar em procedimentos que são rotina nos hospitais e que são ou ineficazes ou pouco eficazes, mas que causam dor, desconforto ou constrangimento. Uso indiscriminado da versão sintética da ocitocina (hormônio que estimula as contrações uterinas), proibição de comer e beber durante o trabalho de parto, realização de episiotomia (corte cirúrgico da região do períneo para ampliar o canal de parto) de rotina, exames de toques constantes, são alguns exemplos de práticas abusivas e sem respaldo científico que costumam ser feitas em parturientes sem sequer pedir consentimento.”(Pense SUS 2014)

As diretrizes e prioridades estabelecidas pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, não tem sido cumpridas em dezenas de municípios, principalmente nas Capitais do Brasil. 

Muitos Programas, assistências e instrumentos diretamente ligados a saúde das mulheres, que dispunha fazer a  transversalização dentro do SUS, com  demais politicas públicas, foram extintos.

A falta de interesse e resistência com os direitos sexuais e direitos reprodutivos estão demostrados nas ações de Gestores que:- negam dentro da saúde pública a existência do racismo, do machismo, das múltiplas formas de violências; com a destruição de equipamento público como ocorreu em Belo Horizonte com a Maternidade Leonina Leonor Ribeiro;  diminuição de leitos em hospitais gerais com maternidade; falta de testagem de gestantes para o HIV e sífilis; não oferta de atendimento odontológicos; aumento de mortes maternas e de violência obstétrica; descaso no atendimento; diminuição de profissionais na atenção primaria (pré-natal); dificuldades encontradas para se vacinar no período de COVID e dentre tantas violências que comprovam o não reconhecimento dos direitos humanos das mulheres e meninas como fundamentais.

 “Nascer e morrer são verbos dolorosos para mulheres negras”. Entre o nascimento e a morte, porém, as mulheres negras enfrentam ainda uma série de outras violações que vão da infância à vida adulta e permeiam todas as esferas que se possa imaginar( Fabiola Ferraz,2017)

O Brasil firmou compromisso de diminuir os números de mortes maternas até 2030, nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Assim se faz necessário que o Brasil mude seu conceito organizacional. Que busque a adoção de boas práticas que combata o racismo  estrutural existente. 

É preciso pactuar e repactuar entre interfederativos medidas que garantam o  compromisso do país com as multiplicidades culturais, econômicas e composições populacional existente dentro de cada território, enfrentando todos os atos racistas, preconceituosos e discriminatórios.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

REPRESENTAÇÃO DE MULHERES e NEGROS NA GESTÃO LULA

 
Por Mônica Aguiar  

Desde a redemocratização, em 1985, 38 mulheres foram nomeadas ministras de Estado ou secretárias com status de ministras. O Presidente eleito, Luiz Inácio Lula, acaba de nomear onze ministras, proporcionando um marco histórico ao chegar em 48 mulheres desde a redemocratização. É o maior número de mulheres em ministérios da história do país. E pela primeira vez na história do Brasil o Ministério da Saúde e Esportes serão comandados por mulheres.

Pela primeira vez no Brasil, uma indígena Sônia Guajajara Araribóia, assume como Ministra. 

Um levantamento feito pelo Alma Preta em (02/01/23) para saber qual  o número de ministros negros no alto escalão, conseguiram detectar em sites oficiais, por autodeclarações, que 10 Ministros se autodeclaram negros e pardos. Sendo:- Anielle Franco, Carlos Luppi, Flávio Dino, Juscelino Filho Luciana Santos, Margareth Menezes, Marina Silva, Silvio Almeida, Rui Costa, Waldez Gões.

A partir desta pesquisa, podemos considerar que Lula se torna o Chefe de Estado com maior número de negros e negras indicados no alto escalão do Governo federal. 

Na minha avaliação, as indicações se tornam um marco reparatório para desconstruir o formato dado na sociedade onde sempre privilegiam brancos no primeiro escalão do Governo Federal, excluindo completamente negros e indígenas da participação em cargos com indicação e nomeação por tomada de decisão política.

No primeiro governo Lula, em 2003, foram nomeadas cinco ministras: Marina Silva (Meio Ambiente); Benedita da Silva (Assistência e Promoção Social); Dilma Rousseff (Minas e Energia); Matilde Ribeiro (Secretaria de Igualdade Racial); Emília Fernandes (Secretaria de Políticas para Mulheres). Mulheres conhecidas nacionalmente pela experiência técnica e atuação política, aproximação e diálogo permanente com a militância de mulheres e seus seguimentos na sociedade.

A participação de mulheres no atual governo foi uma das promessas de Lula durante a campanha eleitoral, ainda que as mulheres que apoiaram Lula desejasse a paridade total nos cargos, para contrapor pensamentos e ações discriminatórias e racistas do grupo negacionista de Jair Bolsonaro  atuou para para deturpar os verdadeiros objetivos das políticas de gênero, saúde das mulheres nos direitos sexuais e reprodutivos, saúde materna, direitos humanos e combate ao racismo.

A extinção de várias políticas específicas e ações afirmativas para a população: — feminina, negra e indígenas implantadas por Lula e Dilma, proporcionou um aumento significativo de múltiplas formas de violências contra mulheres e grupos LGBTQI+ entre 2019 e 2022. 

É inegável que a dada composição é um importante avanço. Porém, este marco está bem longe da paridade, e das reparações aguardada pelas mulheres e principalmente pelas mulheres negras. São menos de 30% de representação ministerial. As mulheres no Brasil representam mais de 51% da população brasileira e sua ampla maioria é composta de mulheres negras. Lula obteve cerca de 53% dos votos femininos para se eleger.

Apesar de alguns Ministros não atuar em conjunto com as notórias entidades organizadas do Movimento negro e Movimento de mulheres que: pautaram historicamente o racismo e machismo na sociedade brasileira, que desnudou a hipocrisia da democracia racial para o mundo, que denunciou ao mundo as desigualdades raciais e suas mazelas, EU espero que os direitos humanos das mulheres e meninas negras sejam pautados com o devido respeito, seja transversalizado sem recorte, em todos os ministérios. Afinal, somos a maioria da população brasileira.

Sei que enfrentar o racismo sistêmico não é uma tarefa fácil, nem para o Presidente Lula. Mas é fundamental que demais Ministros, tenham compromissos de dirimir as desigualdades existentes entre homens e mulheres, não negros e negros.

É imprescindível que todos os Ministros garantam a presenças de mulheres negras nas principais estruturas hierárquicas dos Ministérios, secretarias e órgãos com status ministeriais: Educação, Justiça e Segurança Pública, Fazenda, Casa Civil, Relações Exteriores, Relações Insitucionais, Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Trabalho e Emprego, Advocacia-Geral da União, Controladoria-Geral da União, Direitos Humanos e Cidadania, Portos e Aeroportos, Secretaria-Geral da Presidência da República, Desenvolvimento Social, Assistência, Família e Combate à Fome, Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Agricultura e Pecuária, Previdência Social,  Defesa, Pesca e Aquicultura, Comunicação Social, Segurança Institucional, das Cidades, Integração e Desenvolvimento Regional, Transportes, Minas e Energia, Comunicações e Turismo.

Embora algumas Ministras declara não pertencer a partido algum, estão dentro do leque político de indicações. As que declaram estar dentro de um partido, estão no (PT, União Brasil, Rede, MDB, PSOL e PCdoB).

Para engrossar esta lista de mulheres com comando no Governo Lula, Fernando Haddad(PT), Ministro da Fazenda deu o primeiro passo em prol da igualdade. Indicou nomes de duas mulheres para comandar o Banco do Brasil com Tarciana Medeiros e a Caixa Econômica Federal com Rita Serrano. Para o Banco do Brasil nos seus 200 anos, e que nunca uma mulher chegou a sua presidência é uma decisão importante e reparatória.

Vejam quem são das


Ministras :

  • Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial;
  • Ana Moser, ministra do Esporte;
  • Cida Gonçalves, ministra das Mulheres;
  • Daniela do Waguinho, ministra do Turismo;
  • Esther Dweck, ministra da Gestão;
  • Luciana Santos, ministra de Ciência e Tecnologia.
  • Margareth Menezes, ministra da Cultura;
  • Marina Silva, ministra do Meio Ambiente;
  • Nísia Trindade, ministra da Saúde;
  • Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento;
  • Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas;


Fontes: Alma Preta, G1, DP,Folha,Diario de Pernambuco

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

NÓS MULHERES NEGRAS



Por Mônica Aguiar

Historicamente centenas de mulheres negras tem se despontado na política, nas organizações sociais, economia e trabalho.  

Mas qual é o esforço feito por uma mulher negra para conseguir subir, como é dito popularmente, “os degraus da vida”? E quando chega ao topo, como se estabelecem as relações?

Em um artigo na página do Geledés: “Mulheres Negras e o Poder: Nós também podemos”, de Luana Soares,  ao falar das desigualdades sócio econômicas existentes, destaco:

“É preciso compreendermos que estas desigualdades não caminham sozinhas, mas se intercalam gerando opressões específicas, que são vivenciadas por grupos sociais diferentes. Portanto, alguém estará na base da pirâmide social, e quem ocupa esta base são as mulheres negras”.

Em um outro artigo “Eu, mulher negra, não sou sujeito universal!”, escrito por LÍVIA SANT’ANNA VAZ, no Jota, encontrei a seguinte reflexão:

“Numa sociedade estruturada pelo racismo patriarcal, raça e gênero são dois dos principais marcos imediatos de identificação – mas também de subalternização social – de uma pessoa. A forma como as opressões do racismo e do sexismo se interseccionam para produzir vulnerabilidades específicas contra mulheres negras nos remete à frase de Grada Kilomba : “Uma mulher negra diz que ela é uma mulher negra. Uma mulher branca diz que ela é uma mulher. Um homem branco diz que é uma pessoa.”

“... Sob a roupagem da ética da alteridade, essa relação de dominação persiste na produção e no discurso jurídicos para definir unilateralmente “o lugar do outro no Direito”[2]. Na realidade, essa suposta prática da alteridade revela relações de poder, nas quais o “eu” – ser central e universal, cuja posição de privilégio é garantida – detém a autoridade para outrificar o diferente – ser periférico e desviante –, delimitando o seu lugar no Direito ...” https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/eu-mulher-negra-nao-sou-sujeito-universal-12082020

 Ao longo de minha vida militante e profissional, vivencio relatos dos mais variados obstáculos sofridos por mulheres negras. Estes surgem nos mais variados espaços, mas principalmente quando o assunto é agendas universais modo de vida, igualdade, acesso e oportunidades, visibilidade e protagonismo.

Para a minoria branca “Um lugar inquestionável por direito”.  Para eu Mulher Negra, sempre por grandes méritos “superacadêmico”, contestações. Tendo que provar o tempo todo a capacidade de produzir e conduzir.

- Ai que vontade de viver como os demais seres, dotados de direitos!”

A minha capacidade de pensar, elaborar e reconstruir estratégias políticas que se diferenciam das relações tradicionalmente constituídas e que carregam concepções eurocêntricas e alimentam as diferenças de classe e o racismo.

Poder estar em qualquer local por ser uma cidadã livre, sem que a minha presença não constitua reações das mais adversas: — quando a minha boca preta abrir para falar seja respeitada, minha postura política que carrega minha identidade e ancestralidade não mais incomode e o meu tempo passe de fato a ser respeitado.

“Se é apenas como sujeitos (de direito) que podemos falar, é chegada a hora de erguermos nossas vozes, para estabelecermos nossa própria identidade, definirmos nosso próprio lugar no Direito, narrarmos nossas próprias histórias. Não como outridades do universal, mas como partes de uma humanidade pluriversal que valoriza os saberes das nossas ancestrais e emerge da conjunção do ontem, do hoje e do porvir, reunindo (re)existência e esperança. (“Eu, mulher negra, não sou sujeito universal!” , de LÍVIA SANT’ANNA VAZ, no Jota)”

Surtos vindos de várias vozes brancas, fez-me refletir e buscar como lidar com este alvoroço imaginário, egocêntrico e eurocêntrico da subjugação e desvalorização do espaço que não somente Eu, mas nós, mulheres negras, devemos ocupar!

E diante deste vasto universo sem poder afirmar ser universal, dores se somam e relatos traduzem as, milhares de vozes negras oprimidas. Vozes silenciadas e estrategicamente caladas.

Um belíssimo artigo da nossa queridíssima Suely Carneiro “ENEGRECER O FEMINISMO: A SITUAÇÃO DA MULHER NEGRA NA AMÉRICA LATINA A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO”, entre as linhas escritas, parte de sua conclusão:

“... A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as mulheres brancas avançaram nessas questões? As alternativas de esquerda, de direita e de centro se constroem a partir desses paradigmas instituídos pelo feminismo que, segundo Lélia Gonzalez, apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: por um lado, a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não brancos; por outro lado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar “toda uma história feita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)” . Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do “toque de cor” nas propostas de gênero? ...”.

Manifestam das mais variadas formas e o tempo todo, como gostariam que Eu fosse: uma mulher boazinha, queridíssima que apenas balançasse a cabeça. Em nome da boa convivência humanitária, aceitar obedientemente a ideia das relações contemporâneas de igualdade ou solidariedade a partir do que circulam e proporcionam milhares de curtidas em frases prontas e lives nas redes sociais.

Eu Mulher Negra tenho que falar do proposito direto das práticas do racismo quando utilizam elementos da inferioridade, pejorativos, da pobreza, desintelectualização e até mesmo de frases prontas para menosprezar, silenciar e despontencializar nós mulheres negras.

Manifestam o tempo todo como gostariam que Eu seja: uma mulher "boazinha", queridíssima, concordando com tudo sem omitir opiniões. Em nome da boa convivência humanitária, aceitar obedientemente a ideia das relações contemporâneas de igualdade ou solidariedade a partir de valores morais e religiosos individuais. A partir de um conceito de ideologia em desconformidade com a ciência.

Enfim… Manteremos na luta por uma sociedade onde mulheres e homens brancos entendam e respeite as diferenças existentes. Que tenhamos condições de constituir uma sociedade sem apropriação intelectual, menosprezo pela nossa cor, narrativas políticas e social racista.

Chega de ter quer chutar portas para abrir! Chega de pedir licença para falar! Chega de olhares baixos e silêncio ao produzir e conduzir! Chega de invisibilidade!   

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Harvard nomeia primeira mulher negra para ocupar a presidência


BOSTON (Reuters)A Universidade de Harvard nomeou nesta quinta-feira Claudine Gay, reitora da faculdade de Artes e Ciências, como sua 30ª presidente, tornando-a a primeira pessoa negra e a segunda mulher a ocupar o cargo.

Gay, que ingressou em Harvard como professora de Governo em 2006, sucederá Lawrence Bacow como presidente da prestigiada universidade. Ela assumirá o cargo em julho de 2023.

“Claudine é uma líder notável, profundamente dedicada a sustentar e aprimorar a excelência acadêmica de Harvard”, disse Penny Pritzker, secretária do Departamento de Comércio dos EUA no governo do presidente Barack Obama e presidente do comitê de busca, em comunicado por escrito.

Gay assumirá o cargo em Cambridge, no Massachusetts, em um momento de declínio de matrículas em muitas faculdades e universidades dos EUA, uma vez que os candidatos avaliam cada vez mais os benefícios do ensino superior em relação ao custo das altas mensalidades.

De acordo com o site de Harvard, o valor para estudantes em período integral é de 54.768 dólares por ano.

BOSTON (Reuters) – A Universidade de Harvard nomeou nesta quinta-feira Claudine Gay, reitora da faculdade de Artes e Ciências, como sua 30ª presidente, tornando-a a primeira pessoa negra e a segunda mulher a ocupar o cargo.

Gay, que ingressou em Harvard como professora de Governo em 2006, sucederá Lawrence Bacow como presidente da prestigiada universidade. Ela assumirá o cargo em julho de 2023.

“Claudine é uma líder notável, profundamente dedicada a sustentar e aprimorar a excelência acadêmica de Harvard”, disse Penny Pritzker, secretária do Departamento de Comércio dos EUA no governo do presidente Barack Obama e presidente do comitê de busca, em comunicado por escrito.

Gay assumirá o cargo em Cambridge, no Massachusetts, em um momento de declínio de matrículas em muitas faculdades e universidades dos EUA, uma vez que os candidatos avaliam cada vez mais os benefícios do ensino superior em relação ao custo das altas mensalidades.

De acordo com o site de Harvard, o valor para estudantes em período integral é de 54.768 dólares por ano.

Fonte: Istoédineheiro

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