terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Sujeitas políticas: mulheres negras nos parlamentos brasileiros

Talíria Petrone e Renata Souza. Foto: Divulgação

Por Taliria Petrone e Renata Souza

Quando você pensa em política, o que lhe vem à mente? Provavelmente uma cena com vários homens brancos, de terno, ricos, se reunindo, debatendo, discutindo. Infelizmente, essa ainda é a cara da política brasileira: o político.

A política reúne dois aspectos que foram, historicamente, negados para as mulheres, especialmente às negras: a esfera do público e a do poder. E quando as mulheres resolvem subverter essa “ordem”, o que temos é a violência.

“Burra”, “menina”, “chata”, “feia”, “nariz em pé”, “marrenta” … “bruxa”. São alguns dos termos usados para nos desqualificar nas Casas legislativas em que atuamos. Sem falar ainda dos memes, comparações e xingamentos mais chulos. Essa é uma das faces da violência política que as mulheres sofrem cotidianamente por ocuparem um cargo de poder.

Criticam nosso cabelo, nossas roupas, nossa voz, e chegam ao cúmulo de comentar nossa vida íntima numa constante tentativa de silenciamento e intimidação. Tudo o que somos (e representamos) é uma afronta. Somos sempre questionadas direta ou indiretamente sobre “o que estamos fazendo ali”. “Volte para a senzala”, eles dizem.

Essa violência política não é gratuita, já que tem a intenção de nos impedir de estar ali, nesses espaços tão brancos, tão ricos e tão sem cara de povo. E se reagimos, somos consideradas bravas demais ou sensíveis demais. Sempre demais, sempre fora do tom, porque, em verdade, o que gostariam de nos dizer é que estamos fora do nosso lugar, daquele outro lugar reservado para nós.

Em um cenário tão duro e abertamente desrespeitoso e violento, tentam nos fazer crer que nossas denúncias são fruto de vitimismo, do popular “mimimi”. Mas não recuamos, nossa memória é nossa aliada. Sabemos de onde viemos e onde queremos chegar. Lembramos das mulheres que, décadas atrás, conquistaram o direito ao voto. Das que batalharam por cotas de gênero nas eleições, que só se consolidaram 10 anos atrás. E de todas que superaram e superam ainda barreiras visíveis e invisíveis para se fazerem vozes ativas na institucionalidade.

Em um ranking de 192 países, o Brasil ocupa a posição 152 em representatividade feminina no Congresso Nacional. Precisamos mudar isso sob pena de negligenciarmos a vida das mulheres.

Não se pode naturalizar a brutalidade como método de exclusão da presença feminina nos espaços de decisão.

Justamente por isso, uma análise da violência política cotidiana é fundamental, inclusive para a compreensão mais profunda do “feminicídio político” que vitimou a nossa companheira Marielle Franco.

Ter mulheres negras, que ousam amar outras mulheres, que vêm da favela e da periferia para a luta contra as desigualdades sociais é ousadia demais para um parlamento forjado no patriarcado racista, violento, classista e excludente. 
Não à toa, em vida e em morte, Marielle desafia as estruturas de poder e põe em xeque a elite política e econômica expressa de maneira hipócrita na herança da família tradicional brasileira.

Em verdade, mexer as estruturas políticas, econômicas e sociais é o maior significado da nossa ocupação do Parlamento. 
A escravidão deixou um lastro de desumanização dos corpos negros mercantilizados, que precisa ser reparado pelo Estado brasileiro. Há quilombolas, indígenas, caiçaras submetidos a situações humilhantes que não podemos aceitar. 

A luta pela igualdade de gênero é urgente para a vida das mulheres, da população LGBTQI + e está aliada intimamente à batalha por condições de igualdade material e salarial. Esse é o cenário de um dos países mais desiguais do mundo, no qual a renda dos mais pobres caiu em 3% e a dos mais ricos cresceu em 8%, em 2018.

São essas as lutas que nos impõem uma necessidade histórica de estarmos nos espaços de poder, para subverter o poder e reintegrar a sua posse ao povo. E sermos taxadas como bruxas de “nariz em pé” significa que erguemos nossas vozes e cabeças diante das desigualdades, em especial das de gênero, raça e classe. E incomodamos por isso. Somos sujeitas políticas, e não mulheres sujeitadas à política.

* Talíria Petrone: Deputada federal pelo PSOL Rio de Janeiro
* Renata Souza : Deputada estadual pelo PSOL Rio de Janeiro


Fonte:Estadão 

Mulheres são maioria entre evangélicos, aponta Datafolha


Catolicismo ainda é predominante no país e vem seguido dos fiéis evangélicos, cuja influência das mulheres é crescente

O rosto predominante das igrejas evangélicas é o de uma mulher negra. É o que aponta a pesquisa Datafolha, divulgada nesta segunda-feira 13, que avaliou o perfil religioso de brasileiros de todas as regiões. O catolicismo ainda figura no topo da lista de crenças, mas vem observando uma diminuição no número de fiéis ao longo do tempo.

A pesquisa foi feita nos dias 5 e 6 de dezembro de 2019, com 2.948 pessoas em 176 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Cerca de 50% dos brasileiros são católicos, 31% evangélicos e 10% afirmam não terem religião. As demais porcentagens englobam a influência do espiritismo, opção de 3% dos entrevistados, e as crenças em religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, que figurou com 2% de praticantes.

Em relação a gênero e raça, a pesquisa demonstrou que 58% dos evangélicos são mulheres, entre as quais 43% se identificam como pardas e 16% como pretas. As brancas são 30%, segunda maior porcentagem, e as mulheres amarelas e indígenas aparecem com 3% e 2%, respectivamente.

Reduto importante do bolsonarismo, as igrejas neopentecostais – uma das ramificações dentro da doutrina protestante – possuem uma participação ainda maior das mulheres: elas são 69% do total dos fiéis. Entre os católicos, as mulheres representam 51% dos fiéis, enquanto os homens são 49%.

Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

ABSTINÊNCIA NÃO É POLÍTICA PÚBLICA, POR FLÁVIA OLIVEIRA

No ano passado, nas estatísticas do Registro Civil, o IBGE apurou que um em cada cinco bebês nascidos no país era filho de jovens com menos de 20 anos
O cerco dos guardiões da moral, dos costumes e da fé aos princípios constitucionais de um Estado que se apresenta democrático, inclusivo e laico deixou de ser novidade no Brasil. A onda de repressão a produções artísticas nos últimos anos desaguou no ataque à sede da produtora Porta dos Fundos, na véspera do Natal, e, esta semana, na censura imposta pelo desembargador Benedicto Abicair, do TJ-RJ, ao programa em que um Jesus Cristo gay apresenta o namorado à família. Agora, se aproxima das políticas públicas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos das jovens brasileiras.
Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, desde os primeiros meses no cargo defendia que a abstinência integrasse o debate nas escolas sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez na adolescência. Mais recentemente, a pasta passou a promover eventos sobre o tema. Por sua vez, o Ministério da Saúde, informou Vinicius Sassine no GLOBO, pôs fim à caderneta de saúde do adolescente, que reunia informações sobre puberdade, sexo seguro e contracepção. São retrocessos de motivação religiosa — portanto, indesejáveis na formulação de políticas sociais.
Num esforço para que evidências científicas prevaleçam em assuntos de saúde pública, a Rede Feminista de Ginecologia e Obstetrícia, formada por 27 profissionais da área de todo o país, elabora em forma de artigo uma resposta ao governo. O grupo também se articula para participar de audiências com ministérios, parlamentares e membros do Judiciário, bem como organizações da sociedade civil, educadores e instituições religiosas. “A intenção é fazer a informação circular. Há muitos estudos provando que abstinência não produz resultado em evitar gravidez e DST. O que funciona é educação e acesso a contraceptivos”, argumenta a médica Ana Teresa Derraik Barbosa, integrante da Rede.
No texto, em fase final de elaboração, as médicas lembram que o Brasil carece de iniciativas de combate à gestação precoce. E alertam que o estímulo à ‘preservação sexual’ pode ser opção como exercício de autonomia, mas não política pública para reverter a alta incidência de gravidez na adolescência. “Ter apenas a abstinência, em detrimento de educação em saúde sexual, planejamento familiar e prevenção de doenças, representa uma negligência grave”, afirmam.
Num conjunto de estatísticas de gênero do IBGE, o Brasil aparece com taxa de fecundidade adolescente de 56 por grupo de mil moças com idade entre 15 e 19 anos. O indicador é usado internacionalmente como medida de proteção à infância e à adolescência. Na Região Norte, onde os níveis de informação e de renda são menores, a taxa supera 85 nascimentos para cada mil jovens.
No ano passado, nas estatísticas do Registro Civil, o IBGE apurou que um em cada cinco (21,2%) bebês nascidos no país era filho de jovens com menos de 20 anos. O mais grave é que a incidência não é homogênea; alcança, como todas as mazelas nacionais, a população mais pobre. “Quase 18% das adolescentes de renda mais baixa se tornam mães, enquanto no estrato acima de cinco mínimos a proporção não chega a 1%”, informa o documento.
A gravidez precoce tem consequências graves para o futuro tanto das jovens mães quanto dos bebês, porque se relaciona com evasão escolar, aumento de mortalidade materna, prematuridade, baixo peso ao nascer e óbito fetal. Também confina famílias a ciclos de pobreza e vulnerabilidade social, além de expor mulheres e crianças à violência doméstica. No país, dois em cada três jovens que não estudam nem trabalham, os chamados nem-nem, são mulheres. A maioria está fora da escola e do mercado laboral em razão de atribuições domésticas e de cuidados com pessoas.
É situação que poderia ser evitada com políticas bem desenhadas de saúde reprodutiva: “programas contendo orientações sobre o desenvolvimento do corpo da adolescente, prevenção de abuso sexual e infecções sexualmente transmissíveis, planejamento familiar, vantagens de não se engravidar na adolescência conseguem, inclusive, aumentar a idade da primeira relação sexual”, recomenda o documento. O futuro do país estará comprometido, se a sociedade permitir que convicções morais e religiosas se sobreponham à ciência e às melhores práticas em políticas sociais.

Fonte: Pat.Galvão 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Historiadores colocam Amílcar Cabral entre os 20 maiores líderes mundiais

Por ANGOP


Praia - O ideólogo das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral, integra a lista dos 20 maiores líderes mundiais de todos os tempos elaborada para a BBC por um painel de historiadores.

Amílcar Cabral surge na lista elaborada para a HistoryExtra, o site oficial do BBC History Magazine, BBC History Revealed e BBC World Histories Magazine, ao lado de nomes como o faraó Amenhotep III, do Egito, a rainha Isabel de Castela, a imperatriz Catarina, a Grande da Rússia, a líder militar francesa Joana D'Arc, o primeiro-ministro do Reino Unido Winston Churchill ou o Presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln.
A HistoryExtra desafiou vários historiadores a nomearem aquele que consideram o maior líder da História, alguém que tenha exercido o poder e provocado um impacto positivo na humanidade, bem como a explorarem o seu legado e as características distintivas da sua liderança.
Das escolhas dos historiadores resultou uma lista de 20 personalidades que será agora submetida a votação pelos leitores até 26 de Fevereiro para a escolha do grande líder histórico mundial.
Entre os historiadores convidados contam-se o professor de História e cientista político especializado em história da China da Universidade de Oxford, Rana Mitter, a professora e historiadora da Universidade de Toronto, Margaret MacMillan, ou o historiador e director do Smithsonian's National Museum of African Art em Washington, Gus Casely-Hayford.
Amílcar Cabral foi nomeado pelo historiador britânico especializado em estudos africanos da Universidade de Chichester, Hakim Adi, e aparece em 14º na lista.
Na fundamentação, Hakim Adi sublinha a grandeza do líder africano cuja "luta pela independência em África também transformou Portugal".
"Cabral encontrou forma de unir cerca de um milhão de pessoas na Guiné-Bissau, incluindo mulheres, a maioria agricultores analfabetos que falavam línguas diferentes", adiantou o historiador.
Apontando o "limitado apoio externo", Hakim Adi sublinhou a capacidade de luta do povo da então Guiné portuguesa para se libertar e começar a construir uma nova sociedade em que eram eles próprios a decidir.
"Fizeram isto enquanto partes do país continuavam ocupadas por Portugal", acrescentou, adiantando que muitos africanos continuam a ser inspirados pela liderança de Cabral.
"A sua vida e obra mostra que, quaisquer que sejam os obstáculos, os povos conseguem ser os seus próprios libertadores", reforçou.
Nascido na Guiné-Bissau a 12 de Setembro de 1924, filho de cabo-verdianos, Amílcar Cabral fundou o Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAICV), lançando as bases do movimento que levaria à independência das duas antigas colónias portuguesas.
O fundador do PAICV foi assassinado a 20 de Janeiro de 1973, em Conakry, em circunstâncias ainda hoje não totalmente claras, antes de ver os dois países tornarem-se independentes.

A MENTIRA DA “PRESERVAÇÃO SEXUAL” DA MINISTRA DAMARES

Por Debora Diniz e Giselle Carino

Há correlação entre defesa da abstinência e o aumento da gravidez na adolescência e da maternidade precoce, apontam estudos
A ministra das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos mente. Ministra Damares Alves mente em nome da ciência para encobrir a própria fé: confunde o rebanho do templo evangélico com o povo de uma democracia. A mais recente decisão de defender “abstinência sexual para adolescentes” como método de “preservação sexual” seria estapafúrdia, se não fosse política pública de Estado. Não existe “preservação sexual” como categoria científica – é parte da novilíngua bolsonarista, pois se inventam sentidos ou palavras para naturalizar a ordem autoritária. A cosmética linguística é fundamental para fazer crer que há algo além do fanatismo patriarcal-religioso liderado por Damares.
Ministra Damares menciona evidências científicas para a tática moral de “preservação sexual”. No evento de lançamento da política em Brasília, cartazes alardeavam a ineficácia da camisinha para a transmissão do vírus HIV, pois haveria “poros” que permitiriam a passagem do vírus. A propriedade dos cartazes era de um padre católico que os recolheu ao final do evento – uma cortesia exibicionista sobre o encontro missionário entre evangélicos e católicos quando o assunto é sexo. Como não existe “preservação sexual” fora de táticas de tortura corporal, como cinto de castidade ou castração química, Damares está falando de “abstinência sexual” como política pública de saúde para os adolescentes.
Há evidências abundantes, conhecidas como meta-análises, que comprovam a ineficácia e o risco das políticas de saúde baseadas na hipótese da “abstinência sexual”. Os estudos são variados e confiáveis porque há tempos o imperialismo estadunidense tenta exportar ao mundo o modelo cristão de perseguição à sexualidade adolescente: a cada novo governo republicano nos Estados Unidos, novas táticas são instauradas para promover a abstinência como valor moral travestido de ciência. Em inglês, a sigla AOUM (abstinency-only-until-marriage) é nada menos que “abstinência até o casamento”. Há financiamento abundante do governo de Donald Trump para promover o modelo da abstinência sexual, um giro ao que foi o governo Barack Obama que buscava financiar as melhores práticas no campo da educação sexual.
Em 2017, já sob o governo de Trump, a Society for Adolescent Health and Medicine (Sociedade para Saúde e Medicina Adolescente) publicou um artigo de posição em que, além de revisar a literatura global, demonstrava os impactos negativos da “abstinência sexual” como política pública: há correlação positiva entre defesa da abstinência, gravidez adolescente e maternidade precoce. Em um ciclo ampliado das consequências sociais do silêncio sobre o sexo, uma série de dimensões da vida adolescente caminham juntas: maiores taxas de gravidez adolescente, maiores riscos de adoecimento por infecções sexualmente transmissíveis, maiores taxas de aborto, maior abandono escolar e aumento da pobreza. Como em qualquer modelo abstrato de correlação entre duas variáveis, os adolescentes são desigualmente expostos aos riscos: meninas e meninos pobres e negros estão entre os mais vulneráveis à política mentirosa da “preservação sexual”.
O que se preserva, então? Os estereótipos de gênero de um fanatismo religioso. Um estudo realizado no Texas mostrou que há uma “conspiração do silêncio”: se fala muito sobre abstinência sexual, ao mesmo tempo em que estereótipos de gênero são reforçados e falsidades científicas são disseminadas. O par silêncio-estigma caminha lado a lado, tal qual os “poros da camisinha” estampados pelo padre no evento da ministra Damares. Se houve ridículo no azul-rosa de Damares há um ano, agora há a implementação do binarismo de gênero pela hipocrisia do silêncio sobre o sexo. As consequências serão nefastas e antecipáveis, em particular para as adolescentes e para os adolescentes não-binários. Ministra Damares viola os direitos humanos de adolescentes, em particular o direito a um projeto de vida em que os estereótipos de gênero não sejam um destino e a sexualidade não seja um tabu.
Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown
Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR

Fonte: Agência Patrícia Galvão 

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