sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Filme censurado na Índia marca início da Campanha “Quanto Custa?”

Campanha traz para o Brasil filme sobre indignação mundial contra estupro coletivo na Índia. Censurado em seu país, India’s Daughter marca o lançamento da campanha.
Um grupo de seis homens aborda uma estudante dentro de um ônibus na Índia. Eles estupram a jovem que morre dias depois no hospital. Revoltadas, as mulheres da Índia vão às ruas protestar e engajam a população, detonando uma onda mundial de indignação contra esse tipo de violência. Esse é o mote do filme India’s Daughter (Filha da Índia) que, censurado em seu país, terá uma sessão especial gratuita no Brasil, no dia 16 de setembro, no Auditório Ibirapuera, seguida de debate com a diretora do filme Leslee Udwin e especialistas no tema enfrentamento a violência sexual.
O filme vem ao Brasil e marca o lançamento da campanha “Quanto Custa a Violência Sexual contra as Meninas?”, promovida pela Plan International Brasil, organização humanitária internacional pelos direitos da criança e do adolescente, que faz um alerta para o País. “A maioria dos estupros não é cometida por desconhecidos na rua. Por aqui, os abusos geralmente acontecem dentro de casa e são realizados por conhecidos das meninas. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mais da metade dos casos acontece com meninas menores de 13 anos”, afirma Anette Trompeter, diretora nacional da organização. Mais informações sobre a campanha na página do Facebook. 
O estupro é considerado um dos crimes menos notificados do Brasil, apesar de ser tratado como hediondo pela justiça. Cerca de 50 mil casos de estupro são denunciados todos os anos no Brasil, mas estima-se que isso represente menos de 10% do total de casos. Aquelas que passam por essa situação deixam de denunciar com medo de represálias, com vergonha de se expor, e até mesmo com receio de serem culpadas ou tachadas pela violência sofrida.
O cenário é ainda pior quando se considera o universo infantil. Uma série de situações previstas como crime no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que adultos se aproveitam da fragilidade das crianças para ter satisfação sexual, não é entendida da mesma forma por parte da população.
A campanha “Quanto Custa a Violência Sexual contra as Meninas?” pretende promover e qualificar o debate sobre a violência sexual contra as meninas que já chega a mais de meio milhão de casos por ano no Brasil. Para isso, além de peças de comunicação e ações em mídias sociais, contará com uma rede de organizações de todos os setores na realização de iniciativas pelo Brasil, desde a exibição do filme India’s Daughter (Filha da Índia) e debates sobre a violência sexual contra meninas, passando pela elaboração de materiais informativos sobre a identificação de abuso e violência sexual, como denunciar estes crimes e procurar a rede de atendimento para meninas que sofreram com este crime.
 “Qualquer um pode participar desta campanha. Queremos mobilizar e engajar o Brasil para um grande debate sobre as diversas consequências da cultura machista existente no País. A sociedade paga um preço muito alto por diversos tipos de violência silenciosa e impune, mas não encara o assunto de frente. As consequências para quem passa por isso são inestimáveis e geram danos para o resto de suas vidas”, conclui Anette.
SOBRE A PLAN
A Plan International é uma organização não-governamental de origem inglesa ativa há 76 anos e presente em 70 países. No Brasil desde 1997, a Plan possui, hoje, mais de 20 projetos que atendem, aproximadamente, 75 mil crianças e adolescentes. Sem qualquer vinculação política ou religiosa e sem fins lucrativos, está voltada para a defesa dos direitos da infância, conforme expressos na Convenção dos Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas. Assim sendo, a organização trabalha em prol da proteção e contra a violência e abusos de todo tipo, contra a pobreza, a desigualdade e a degradação do meio ambiente e por uma boa alimentação, saúde e educação. A Plan parte do princípio de que assegurar o direito de crianças e adolescentes é um dever e não uma escolha. Para isso, capacita as comunidades a fazer valer esses direitos. Mais informações sobre a Plan Brasil em www.plan.org.br.

SOBRE A CATALIZE
A Catalize, produtora de causas, é uma empresa de comunicação para a transformação social. Em 2014, sua equipe criou a campanha Repense, de conscientização sobre o potencial terapêutico da cannabis. Usando diversas ferramentas de comunicação e engajamento, ela criou uma mobilização social que levou o governo e o Conselho Federal de Medicina a aprovarem o uso de derivados da planta para a epilepsia. A campanha foi finalista da edição 2014 do prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, recebeu o prêmio Architects of the Future da Fundação abc* (Miami) e a porta-voz da campanha recebeu o  prêmio Trip Transformadores 2015.

APOIO HUMANITAS360
A Humanitas360 é uma incubadora ativa, comprometida à reconstrução do pacto social que ampara sociedades latino-americanas através do fortalecimento de governança, transparência, inovação, educação, tecnologia, empreendedorismo e cidadania. A Humanitas360 busca empoderar cidadãos para que estes exijam melhores políticas públicas, e reintroduzir o estado de outras formas – através da educação, oportunidades econômicas, saúde pública, direitos humanos e um sistema jurídico funcional.

INDIA’S DAUGHTER
Quando: 16 de setembro de 2015, às 20h.
Onde: Auditório Ibirapuera - Av. Pedro Álvares Cabral, 0 - Ibirapuera
 São Paulo (SP).
Entrada gratuita. Retirada dos ingressos a partir das 18h30.

Fontes: ABC / Ceert

Leis impedem mulheres de trabalhar em muitos países, diz Banco Mundial

Um relatório do Banco Mundial  mostra que as mulheres são legalmente impedidas de participar do mercado de trabalho em vários pontos do mundo. Segundo o documento, 100 de 173 economias monitoradas pelo organismo internacional têm restrições ao trabalho feminino. Em 41 países, por exemplo, mulheres não podem exercer determinadas funções em fábricas. Além disso, em 30 economias, mulheres casadas não podem escolher onde morar.
Em 29 países, as mulheres não podem trabalhar à noite e, em 19, são legalmente obrigadas a obedecer ao marido. O estudo também mostra que, em 18 economias as mulheres, não podem ter emprego sem permissão do marido. Além disso, somente metade dos países monitorados pelo Banco Mundial têm licença-paternidade e menos de um terço oferece licença parental, o que limita a possibilidade de os homens dividirem com as mulheres o cuidado dos filhos.
“É uma grave injustiça quando as sociedades colocam restrições legais à possibilidade de as mulheres terem um emprego ou participarem da economia. As mulheres merecem todas as oportunidades de atingir seu potencial”, diz o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim. Ele destaca que as restrições também são ruins para a economia. “As mulheres representam mais da metade da população mundial. Não podemos nos dar o luxo de deixar seu potencial inexplorado.”
No Brasil, não existem restrições legais explícitas ao trabalho feminino. No entanto, Masra de Abreu, assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), ressalta que as brasileiras ainda não conquistaram condições igualitárias no mercado de trabalho. “Diferente do que o relatório [do Banco Mundial] aponta, aqui não há nenhuma lei que impeça o acesso, mas as sutilezas do senso comum fazem isso. O papel da mulher ainda é naturalizado como cuidadora do lar e da família.”
Ela cita como exemplo de visão da mulher como cuidadora a disparidade entre os períodos de licença-maternidade e licença-paternidade previstos em lei. “A licença-maternidade é de quatro meses ou seis, quando é serviço público. Para os homens, são cinco dias. Com uma lei como essa, você já sabe quem vai cuidar da casa e quem vai trabalhar. É uma luta do movimento feminista que a licença-paternidade seja no mínimo de um mês, o que ainda é pouco, mas seria mais equiparada”, comenta, fazendo referência, ainda, às diferenças salariais entre homens e mulheres.
“Todas as Pnads [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada periodicamente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)] apontam que a mulher ganha 30% a menos se for o mesmo cargo. Os patrões dizem que geralmente elas chegam mais tarde se o filho está doente, saem mais cedo para buscar no colégio e provocam maior número de faltas. Mas, quando se pesquisa, não é bem assim. A produtividade das mulheres é até maior que a dos homens”, afirma Masra.
A assessora técnica do Cfemea diz que o relatório do Banco Mundial faz refletir sobre como o Estado pode atuar para reduzir as desigualdades. “[É preciso] aumentar a licença-paternidade, melhorar os equipamentos públicos. Se os serviços públicos forem bons, essas justificativas [de que as mulheres faltam e trabalham menos] não poderão ser usadas”, afirma.
Fonte : EBC

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Abertas as inscrições para a 2ª edição do curso Jornalismo e Direitos Humanos

Curso_DHeJor_01
Promovido pela Conectas em parceria com Oboré, Abraji e Sindicato dos Professores de São Paulo, curso é um dos módulos do Projeto Repórter do Futuro; inscrições vão até 30 de setembro
Como é a realidade das prisões brasileiras? Qual a importância das Nações Unidas e da OEA (Organização dos Estados Americanos) para os direitos humanos e como o Estado brasileiro reage a denúncias de violações nestes órgãos? Qual o tamanho do fluxo de migrantes e refugiados no Brasil e como são as leis que os regulam? Por que os medicamentos essenciais para a saúde são tão caros? ​E, sobretudo, qual o papel do jornalismo nisso tudo?
Estudantes universitários da graduação de jornalismo e de outras áreas do conhecimento interessados em compreender e cobrir estas e outras pautas podem se inscrever, até 30/9, no II Curso de Informação sobre Jornalismo e Direitos Humanos.
Os 20 alunos selecionados participarão de palestras e entrevistas coletivas com especialistas ao longo dos meses de outubro e novembro de 2015. O curso alia a prática reflexiva da cobertura jornalística com o conhecimento teórico de temas de direitos humanos.
Promovido pela Conectas em parceria com OBORÉ, Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e Sinpro-SP – Sindicato dos Professores de São Paulo, o curso é um dos módulos do Projeto Repórter do Futuro e conta com a coordenação pedagógica do jornalista João Paulo Charleaux.
O encontro de confraternização e seleção será realizado no dia 3/10, às 9h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Além de assistir uma palestra de Jessica Carvalho Morris, diretora Executiva da Conectas, os candidatos realizarão um teste escrito. A lista com os 20 estudantes selecionados será publicada no dia 9/10.
Metodologia
Os encontros, sempre aos sábados, cumprirão a seguinte rotina: serão 30 minutos de reunião de pauta entre os alunos e o coordenador pedagógico; uma hora de palestra com os especialistas, seguida de uma hora de entrevista coletiva; e, por fim, 30 minutos para um balanço sobre a dinâmica do dia, novamente entre o coordenador e os estudantes. Na sequência, os alunos devem redigir um texto noticioso sobre o tema do encontro.
Serão oferecidos, ainda, atendimentos semanais individuais com jornalistas e professores com o objetivo de prestar orientação textual e jornalística personalizada. Também será possível avaliar, durante essas monitorias, as qualidades a serem potencializadas e problemas a serem trabalhados por cada aluno.
Pacto de reembolsa
Para medir o empenho real de cada participante, o projeto trabalha com o método da “Reembolsa”: os alunos pagam o valor de um salário mínimo no momento da matrícula, mas recebem o dinheiro de volta ao final do curso se: 1) participarem de tod​os os encontros; 2) participarem de ao menos um atendimento individual; 3) produzirem todas as matérias semanais na sequência de cada encontro; 4) Publicar ao menos uma matéria relacionada ao tema em qualquer veículo de comunicação que possua um editor responsável.
A metodologia do Projeto Repórter do Futuro é resultado de uma experiência de mais de 20 anos na realização de cursos de complementação universitária.

Programação
Todos as atividades, com exceção do encontro de seleção e da oficina sobre metodologias de estudo, serão realizados na sede da Conectas (Av. Paulista, 575 – 19o andar).
Mais informações:
Oboré Projetos Especiaisreporterdofuturo@obore.com(11) 2847-4567

Governo Recebe Sugestões para Protocolo de Atendimento à Mulher pelo SUS

O Ministério da Saúde está recebendo contribuições da sociedade para formulação de um protocolo de atendimento na atenção básica da rede pública às mulheres. O texto-base do documento, que reúne várias diretrizes já existentes, está disponível para consulta pública no site do ministério.  O ministério receberá sugestões até sábado (12), pelo email dab.protocolos@saude.gov.br, com especificação do número da consulta pública (01/2015) e do título da seção do documento sobre a qual está sugerindo a mudança. O Ministério da Saúde pede que os autores fundamentem as contribuições com material científico e anexem os documentos referentes ou o endereço eletrônico onde a fundamentação estiver disponível. Esse tipo de documento norteia a ação de profissionais da atenção básica na tomada de decisões durante o atendimento. O texto sob consulta aborda temas como gestação, amamentação, planejamento reprodutivo, atenção às mulheres em situação de violência doméstica e/ou sexual, e também orienta sobre principais problemas e queixas das mulheres e a prevenção dos cânceres mais comuns nessa população.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O Falso Feminismo Interseccional ou o que Importa é Representar

Foto de George A. Spiva Center for the Arts no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Por : Naila Chaves

Desde quando o conceito de interseccionalidade foi difundindo pelos espaços feministas, muita coisa vem sendo (re)pensada. A existência de múltiplas formas de subordinação em um único corpo feminino fez com que repensássemos a ideia de mulher como categoria homogênea. Questões de raça, classe, sexualidade, etnia e corporalidades não hegemônicas foram sendo incorporadas nos debates feministas, que há pouco tempo restringiam-se aos problemas enfrentados pela mulher branca, magra e de classe média. Obviamente, essa visibilidade seria muito profícua e benéfica se houvesse uma real preocupação com a incorporação destas pautas de forma central. Seria. Mas não é assim que tem funcionado.

Meu objetivo com esse texto não é problematizar as discussões que tem sido travadas, muito menos menosprezar a importância deste tipo de debate, ainda que ele seja composto majoritariamente por mulheres privilegiadas. A questão aqui é fazer uma reflexão sobre os usos errôneos de alguns discursos que envolvem representação de algumas pautas, mas que nem de longe chegam a ser uma preocupação central da militância daquele grupo cotidianamente.
Vou aqui citar dois exemplos: pense num grupo composto majoritariamente por mulheres brancas, de classe média, heterossexuais e magras e minoritariamente por algumas mulheres que reúnem em si mais características que as tornam vulneráveis a outras opressões, para além daquelas enfrentadas por pertencerem ao gênero feminino. Esse grupo cotidianamente debate e mantém ações muito importantes, mas voltadas para as pautas daquelas mulheres que estão em peso na composição do grupo. Nada de errado nisto, até chegar o dia 25 de julho – para quem não sabe, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha – e esse mesmo grupo que jamais ousou debater cotidianamente ou incorporar o debate racial como um projeto central, resolve fazer uma nota pública publicizando seu apoio às mulheres negras, passando a imagem de ser um grupo que se coloca a frente contra a discriminação racial. Ou ainda, no dia nacional contra o genocídio da população negra, esse mesmo grupo se autodenomina combater essa prática.
E novamente aqui: isso realmente seria muito benéfico, se houvesse mesmo a incorporação destas pautas cotidianamente e não apenas como um adereço para o grupo, nos dias representativos destas outras lutas. Quero chamar a atenção para o significado de dizer representar uma luta que nas práticas cotidianas, não se representa.  A luta contra a discriminação racial, por exemplo — e estou falando mais nas questões raciais porque sou negra e quero respeitar uma coisa que se chama local de fala — é uma luta séria, que já envolve múltiplos grupos de fato negros e que estão comprometidos com estes projetos por causas que vão muito além de um simples apoio ou uma necessidade de representação supérflua: estão comprometidos por questões de sobrevivência.
Então, se você faz parte de um grupo feminista onde o foco para algumas opressões que vão além do gênero feminino hegemônico só chegam a ser visibilizadas em datas representativas ou após eventos que publicizem estas questões, provavelmente estas outras opressões não estão na agenda cotidiana porque não representam de fato questões de sobrevivência para aquelas mulheres que ali estão, ao menos na composição majoritária do grupo.
Isso não quer dizer que este grupo não deva protagonizar nenhum debate sobre o assunto, mas ao invés de se posicionar publicamente contra essas outras facetas opressoras, por que não fazer destas datas um motivo para (re)pensar fatores internos em relação ao grupo que o faz manter um feminismo hegemônico? Por que não fazer da data de 25 de julho, por exemplo, um evento para que você, feminista branca, reflita sobre os motivos pelos quais o grupo que você participa é composto majoritariamente por outras iguais você?
É muito difícil escancarar estas questões pessoalmente, mas meu texto é um apelo para que o feminismo tenha responsabilidade com as pautas que diz representar. A representação é sim muito importante para alguns grupos, mas a simples representação sem uma real preocupação com os motivos pelos quais aquilo precisa ser representado e incorporado nas pautas cotidianamente e não apenas em datas esporádicas, nada mais é do que praticar um falso feminismo interseccional, em que o que importa é a utilização de mulheres negras, gordas, pobres, lésbicas e bissexuais, trans ou com deficiência como cartas na manga para poder dizer que o seu feminismo não é hegemônico.
(Re)pensemos! Mas, desta vez, (re)pensemos de fato!
Autora Naila Chaves -  é mestranda em Direito pelo UnB e formada em Direito pela UNESP. Atualmente estuda raça e gênero como tema de pesquisa e compõe coletivos negros e feministas em Brasília, onde vive. 

Fonte: blogueirasfeministas  / Foto: George A. Spiva

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