Por Mônica Aguiar
A questão da modificação de termos e conceitos históricos no movimento negro é muito complexa. Tais práticas podem surgir de várias necessidades, incluindo a adaptação à linguagem contemporânea, a inclusão de perspectivas diversas, ou a tentativa de ampliar o alcance e a compreensão das lutas por igualdade e justiça social.
No entanto, transformações também podem
gerar debates sobre a preservação da história e a integridade dos conceitos
originais.
A linguagem é uma ferramenta poderosa na construção da identidade e na luta por direitos. Termos e conceitos históricos do movimento negro muitas vezes carregam consigo o peso de décadas de luta e resistência. Modificá-los é uma maneira de torná-los mais acessíveis ou inclusivos, mas também pode levantar preocupações sobre a perda de seu significado original, mascarar e simplificar a realidade social e econômica da população negra.
A representação das mulheres negras na mídia, em novas literaturas e artigos, tem sido frequentemente limitada a narrativas de violência, miséria e sofrimento.
Este foco estreito não só perpetua estereótipos prejudiciais, mas também ignora as ricas experiências e contribuições que as mulheres negras trazem para a sociedade.
Focar apenas em narrativas de violência, miséria e sofrimento cria
um ciclo de estereótipos que reduzem a complexidade da vida das mulheres negras
a corpos descartáveis,subalternos ou apenas resistentes.
E a criação e disseminação de palavras sem base científica,
com significados distorcidos ou inventados, pode atuar como uma ferramenta
linguística para tentar desqualificar, diluir ou modificar conceitos históricos
e reparatórios construídos pelo Movimento Negro.
Afinal, a linguagem não apenas reflete a realidade, mas
também a molda, influenciando percepções, comportamentos e relações
sócio-raciais.
Nos últimos anos, o vocabulário em torno das questões sociais e raciais tem se expandido e evoluído significativamente. Palavras como "estrutural" e “interseccionalidade” ganharam destaque em debates acadêmicos e sociais, especialmente ao abordar desigualdades raciais no Brasil.
É importante usar essas palavras com precisão e clareza, garantindo que elas
realmente traduzam todas as questões das desigualdades raciais em vez de criar
uma maquiagem a partir das experiências individuais. Principalmente quando
precedem de uma classe que não sofre e nem muito menos passa ou passou por 1%
do sofrimento que a mais ampla maioria do povo negro brasileiro já passou e
passa.
A política brasileira, como em muitos outros países, é frequentemente influenciada por conceitos e termos importados de outras nações.
A utilização de conceitos políticos estrangeiros traduzidos ou importados para
o contexto brasileiro é um fenômeno que pode, de fato, gerar percepções
equivocadas sobre os problemas políticos, sociais, raciais, de gênero do país,
além de atuar como mecanismo de blindagem para a responsabilidade governamental.
Nos últimos anos, observo um aumento no uso de palavras
estrangeiras por jovens ativistas. Muitas vezes, essas palavras são traduzidas
e utilizadas fora de seu contexto original, levando a mal-entendidos e à perda
de significado. Este fenômeno levanta questões sobre a eficácia do ativismo
contemporâneo, especialmente quando se trata de agregar valor histórico e
científico à realidade brasileira.
A globalização facilitou o acesso a informações de todo o
mundo, permitindo que ideias e palavras cruzem fronteiras rapidamente. Os
jovens, especialmente, são influenciados por movimentos internacionais e pela
linguagem usada em plataformas de mídia social.
As novas escolhas vocabulares frequentemente mascaram,
distorcem ou simplificam drasticamente fenômenos sociológicos complexos,
alterando o objeto de análise.
Palavras, com conceitos vindo de fora do Brasil. Isto é muito
perigoso e não passa de moda linguística e vaidade dos que buscam lá fora o que
temos em abundância no Brasil: estudos, livros, teorias e práticas reais.
O uso descontextualizado de palavras estrangeiras pode
resultar em uma comunicação ineficaz e em uma compreensão limitada das questões
que os ativistas pretendem abordar. Sem o devido entendimento histórico e
cultural, esses termos podem perder seu impacto e relevância no contexto
brasileiro.
Linguagens fortes carregadas de adjetivos, substantivos
carregados de valor (fetichismo de termos) agem para moldar a opinião pública e
invisibilizar os problemas raciais profundos.
O racismo é um fenômeno social que envolve discriminações e
preconceitos. Ele se manifesta de várias formas, desde atitudes e
comportamentos individuais até políticas e sistemas institucionais que
perpetuam desigualdades raciais.
