segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Primeira Mulher Negra Indicada Três Vezes ao Oscar "Viola Davis"

Ganhou estrela na Calçada da Fama,  em 2015, foi a primeira mulher negra a levar o prêmio de melhor atriz dramática no Emmy Awards, agora, aos 51 anos é a primeira atriz negra indicada três vezes ao Oscar. 

O anúncio dos indicados ao Oscar 2017 trouxe a vitoria  para a atriz Viola Davis: ela é a primeira atriz negra a receber três indicações ao prêmio, ao concorrer na categoria de melhor atriz coadjuvante pelo filme "Cercas". 
Conhecida pela atuação em “How To Get Away with Murder”, uma das mais ovacionadas estrelas do cinema tem dado um show de representatividade nas telas e nos tapetes vermelhos, com discursos de conscientização sobre a condição do negro no cinema. Em 2015, Viola ostentou uma fala consciente apontando a ausência de oportunidades para a parcela negra da sociedade como fator determinante sobre o protagonismo majoritariamente branco no cinema, fato comprovado pelo lindo roteiro de vida que ela tem estabelecido a partir dos espaços alcançados. 
No dia 24, deste, a atriz negra foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pela performance em “Fences”, na qual Viola atua ao lado de Denzel Washington. O filme, baseado numa premiada peça teatral, conta a história de um homem que sonhava ser uma estrela do esporte mas que, para sobreviver, se tornou coletor de lixo. O filme esta ainda sem data de lançamento aqui no Brasil. 
A atriz já havia interpretado,  a mesma personagem na Broadway – atuação que lhe rendeu um Tony Award, em 2010. Recentemente, pelo papel na versão adaptada do cinema, a atriz já levou um Globo de Ouro. Viola Davis,  mantinha antes um empate com Whoopi Goldberg – outra grande atriz – no número de indicações para uma mulher negra, já foi também indicada a prêmios pela atuação em “Dúvida”, em 2009, e por “Histórias Cruzadas”, em 2012.   
Viola também marcou história de outra forma - dessa vez, ao lado de Naomie Harris e Octavia Spencer. É a primeira vez que três atrizes negras são indicadas em uma mesma categoria (nesse caso, a de atriz coadjuvante). 
Naomie concorre por "Moonlight: Sob a Luz do Luar", e Octavia por "Estrelas Além do Tempo". Viola foi indicada no Oscar 2017 na categoria de melhor atriz coadjuvante pelo filme “Fences”, ainda sem data de lançamento aqui no Brasil. 
O que tudo indica que em todo o histórico das edições da premiação, as atrizes negras só ganhavam nas categorias de comédia e minissérie.

Sobre Viola Davis foi a segunda a nascer dos dois seis filhos do casal Mae Alice e Dan – ela, empregada doméstica, operária de fábrica e dona de casa; ele, treinador de cavalos. A data de nascimento é 11 de agosto de 1965. O local? A fazenda de sua avó na Carolina do Sul (EUA). A condição sócio-econômica? “De extrema e abjeta pobreza”, de acordo com suas próprias palavras.
 Talentosa desde a adolescência, conquistou uma bolsa de estudos na Escola de Jovens para as Artes Performáticas, em Rhode Island College, onde graduou-se em 1988.Davis se formou no teatro em Rhode Island College, graduando-se em 1988, em 2002 ela recebeu um doutorado honorário em Belas Artes da faculdade.

Fontes:  Ceert/Blog primeirosnegros

Holanda oferece US$10 mi para substituir financiamento dos EUA pró-aborto

AMSTERDÃ (Reuters) - A Holanda se comprometeu a gastar 10 milhões de dólares para substituir o financiamento a operações de aborto em países em desenvolvimento, depois que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump vetou a destinação de verba a grupos estrangeiros que promovem esse tipo de serviço.
Trump estabeleceu uma política na segunda-feira exigindo que as organizações estrangeiras que recebem fundos de planejamento familiar dos EUA certifiquem que não irão realizar abortos ou fornecer auxílios para aborto como método de planejamento familiar.
A Holanda, que tem algumas das leis mais liberais do mundo em saúde reprodutiva, disse no início desta semana que o fundo vai buscar doações de outros governos, instituições de caridade e empresas, bem como indivíduos.
Autoridades holandesas estimam que a proibição dos EUA, que foi condenada por ativistas de direitos da mulher, causará um déficit de financiamento de 600 milhões de dólares pelos próximos quatro anos. Os ativistas dizem que isso vai pôr em risco a vida das mulheres.
Liliane Ploumen, ministra holandesa para a cooperação internacional para o desenvolvimento, disse que está confiante, após as primeiras negociações, que a arrecadação de fundos ajudaria a preencher a lacuna.
"É claro que mais dinheiro é necessário", disse Ploumen. "De acordo com as informações que temos recebido estou confiante de que iremos longe." Os holandeses não nomearam outros possíveis países doadores, mas o Canadá disse que está considerando contribuir.

(Por Stephanie van der Berg)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Encontro “Lendo Mulheres Negras” será com Cidinha da Silva e seu novo livro

“Encontros Literários aberto para todas que queiram se debruçar sobre obras literárias de escritoras negras.” Esta é a descrição do “Lendo Mulheres Negras”, eventos realizados mensalmente por interessadas pela produção literária de mulheres negras no Brasil e no mundo. 
Este mês, o encontro será na sexta-feira (27), no CEAO (Dois de Julho), às 17h. 
Aberto ao público, com um belo Sarau e Feira Preta.

A autora a ser lida será Cidinha da Silva, com seu mais novo livro #paremdenosmatar, lançado nesta quinta (26).

A obra, com 240 páginas, traz 72 crônicas escritas entre 2012 e 2016.
 “Trata-se de leitura densa que exige estômago e coragem. É um livro que exige mais do que o desgastado uso do termo “denúncia” para caracterizá-lo. 
Este #Paremdenosmatar! é testemunha de acusação do genocídio contemporâneo da população negra. 
Memória viva em transformação que se vale da crônica como suporte”.

Disse Cidinha em entrevista ao Portal. .

Os encontros literários “Lendo Mulheres Negras” visam refletir sobre a exclusão das mulheres de vários espaços sociais, políticos, culturais, e também na literatura, com abordagem a partir de leituras diversas, o cenário de esquecimento e invisibilidade de autoras negras e com o propósito de resgatar e conhecer sua vasta produção.
SERVIÇO
Lendo Mulheres Negras – Cidinha da Silva “#paremdenosmatar”
Quando: 27 de janeiro (sexta-feira), 17h
Local: CEAO, 2 de Julho
Salvador - Brasil 
Gratuito

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Mulheres Negras na Marcha Contra Trump " Discurso de Angela Davis"

Por Angela Davis



Confira abaixo o discurso proferido pela filósofa e ativista Angela Davis, autora de Mulheres, raça e classe,  na Marcha das Mulheres [Women’s March] contra Donald Trump realizada no último sábado, dia 21 de janeiro de 2017, em Washington.
Confira aqui a transcrição integral do discurso em inglês, e aqui o vídeo com a fala completa.
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Em um momento histórico desafiador, vamos nos lembrar que nós somos centenas de milhares, milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres. Nós representamos forças poderosas de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente.
Nós reconhecemos que somos agentes coletivos da história e que a história não pode ser apagada como páginas da Internet. Sabemos que esta tarde nos reunimos em terras indígenas e seguimos a liderança dos povos originários que, apesar da massiva violência genocida, nunca renunciaram a luta pela terra, pela água, pela cultura e pelo seu povo. Nós saudamos hoje, especialmente, o Standing Rock Sioux.
A luta por liberdade dos negros, que moldaram a natureza deste país, não pode ser apagada com a varredela de uma mão. Nós não podemos esquecer que vidas negras importam. Este é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que significa, para o bem ou para o mal, a real história de imigração e escravização. Espalhar a xenofobia, lançar acusações de assassinato e estupro e construir um muro não apagarão a história.
Nenhum ser humano é ilegal!


A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social.
Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.
Sim, nós saudamos o ‘Fight for 15’. Dedicamos nós mesmas para a resistência coletiva. Resistência aos bilionários exploradores hipotecários e gentrificadores. Resistência a privatização do sistema de Saúde. Resistência aos ataques contra muçulmanos e imigrantes. Resistência aos ataques contra as pessoas com deficiência. Resistência a violência do Estado perpetrada pela polícia e através da indústria do complexo prisional. Resistência a violência de gênero institucional e doméstica, especialmente contra mulheres trans negras.
Direitos das mulheres são direitos humanos em todo o planeta. E é por isso que nós dizemos ‘Liberdade e Justiça para a Palestina!’. Nós celebramos a iminente libertação de Chelsea Manning e Oscar Lopez Rivera. Mas também dizemos ‘Liberdade para Leonard Peltier! Liberdade para Mumia Abu-Jamal! Liberdade para Assata Shakur!’
Nos próximos meses e anos nós estamos convocadas a intensificar nossas demandas por justiça social e nos tornarmos mais militantes em nossa defesa das populações vulneráveis. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina branca e hetero-patriarcal devem ter cuidado!
Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.
Este é só o começo. E termino nas palavras da inimitável Ella Baker: ‘Nós que acreditamos na Liberdade não podemos descansar até que ela seja alcançada!’ Obrigada.
Tradução:Juliana Borges

Marchamos. E agora?


Por Luísa Abbott Galvão*

Neste sábado, participei durante nove horas em Washington da maior manifestação na história dos EUA. No dia seguinte, acordei me perguntando: e agora?  

Especialistas estimam que entre 3,6 e 4,5 milhões de pessoas participaram das marchas realizadas nos 50 estados do país. Eventos de solidariedade foram realizados em mais de 70 outros países, do Brasil a Antártica.  A marcha foi motivada tanto por uma rejeição do Presidente Trump e o conservadorismo que ele representa, como pela necessidade reconhecida de lidarmos de uma vez por todas com o atraso gritante em nossa sociedades em relação a questão de gênero.

A ideia da marcha surgiu na noite da derrota de Hillary Clinton para Donald Trump. Clinton ganhou o voto popular por quase 3 milhões de votos, mas perdeu no Colégio Eleitoral e não pôde comemorar a quebra do “teto de vidro” no centro de convenções de vidro que tinha escolhido em Nova Iorque. A campanha de Trump tirou do armário e empoderou os preconceituosos conservadores do país, supostamente abafados pelos “politicamente corretos”, e desencadeou a manifestação aberta e vocal de todo tipo de preconceito – machismo, racismo, homofobia, xenofobia, e preconceito contra pessoas portadoras de necessidades especiais. Mas o gigante só acordou mesmo com o vazamento de uma gravação no qual Trump promovia o assédio sexual, dizendo que se pode “pegar mulheres pela buceta” (“grab them by the pussy”). Isso ofendeu as sensibilidades e os “valores familiares” até dos republicanos.

A ideia da marcha foi alvo de críticas no início por ter surgido de mulheres brancas, promovido uma falsa universalidade feminista, e por ter se apropriado do nome de uma marcha organizada por mulheres negras no final dos anos 90,  a “Million Woman March”. Preocupadas em fazer uma marcha inclusiva e interseccional, as organizadoras mudaram o nome e contrataram três ativistas para liderar a organização: uma afro-descendente, uma latina e uma muçulmana. Muitos reiteraram a ironia desse feminismo branco quando as mulheres brancas nos EUA votaram em sua maioria pelo Trump, enquanto 94% das mulheres afro-descendentes votaram pela Hillary.

A marcha também foi inicialmente criticada por não ter uma lista de demandas ou reivindicações. Porém, uma semana antes do evento, as organizadoras lançaram uma plataforma ultra progressista de quatro páginas, com reivindicações abrangentes, clamando pela igualdade de remuneração e licença maternidade, pelo fim da violência contra as mulheres, pelo fim do encarceramento em massa, pela combate a mudanças climáticas, pelos direitos dos profissionais do sexo, trabalhadores agrícolas e domésticos, pelos direitos LGBTQIA, pela desmilitarização da polícia, pelos direitos reprodutivos, e contra a deportação de imigrantes, e a favor dos refugiados, povos indígenas, dos movimentos Black Lives Matter e dos Occupy Wall Street.

O tema principal da marcha foi “pussy,” palavra que tem um duplo significado em inglês: gato (“pussy cat”), e uma expressão pejorativa para vagina. Fotos mostram um mar de mulheres com chapéus cor-de-rosa com duas pontinhas, mulheres se re-apropriando da palavra,  com afirmações criativas de “pussy power” (poder da buceta), e “pussy grabs back!” (“buceta pega de volta!”) em resposta ao comentário machista do Trump e contra a cultura de estupro. Vi cartazes e ouvi palavras de ordem de “rapist in chief” (chefe de estupradores), uma trocadilha com o título do presidente “commander in chief” (comandante chefe).  

Qual será o significado dessa insurreição histórica?

Uma das primeiras ações do governo Trump foi apagar as páginas de LGBT, mudanças climáticas, e dos povos indígenas do site do governo, bem como todas as páginas em espanhol, e anunciar cortes aos programas de violência contra as mulheres do Departamento de Justiça. 

Uma coisa é certa: essas manifestações ativaram muitas pessoas pela primeira vez. Mas todos reconhecem que a defensiva precisará de mais do que isso. Desde a derrota de Clinton, milhares de mulheres tem se candidatado para todos os níveis de governo nos EUA, assumindo responsabilidade para reverterem a falta de representação política nas instituições. Vamos torcer para que a indignação se converta em mudanças – e votos.

*Luísa é ativista e feminista brasileira e americana

AGORAÉQUESÃOELAS Folha UOL


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Mulheres Reúne Milhares em Marcha ao Redor do Mundo Contra Trump

As mesmas avenidas que Donald Trump não conseguiu encher no dia de sua posse como presidente número 45 dos Estados Unidos foram tomadas neste sábado,( 21) , 24 horas depois, por milhares de pessoas insatisfeitas com o novo ocupante da Casa Branca.

Mais de um milhão de manifestantes e segundo os organizadores, marcharam por Washington D. C. para mostrar a Trump, desde o primeiro dia de seu mandato, que há um Estados Unidos que não está de acordo com sua visão escura e com a agenda ultraconservadora do seu governo. Exigem que, como presidente de todos, respeite as mulheres, as minorias, os imigrantes e os direitos civis. Outras dezenas de milhares de pessoas marcharam em outras cidades, como Nova York, Chicago, Boston e Atlanta, em um protesto que também teve réplicas em outras partes do mundo, de Berlim e Londres a Sydney e Cidade do Cabo.

Milhares de Mulheres e homens de todas as idades, cores, religiões e origens viajaram de todos os pontos dos Estados Unidos, mas também do Canadá, México e até da Europa para participar da Marcha para as Mulheres, a principal manifestação contra o novo presidente republicano e, tendo em vista os números, possivelmente a maior realizada perto da posse de um presidente norte-americano da história.

“Presidente Trump, eu não votei em você. Dito isto, respeito que seja presidente e quero apoiá-lo, mas primeiro peço que me apoie, apoie minha irmã, minha mãe, minha melhor amiga, todas as pessoas que esperam ansiosamente para ver como sua próxima manobra podem afetar drasticamente as vidas delas”, disse a atriz e ativista Scarlett Johansson, uma das oradoras do protesto que seguiu o mesmo caminho que o desfile inaugural na sexta-feira, do Capitólio até a Casa Branca.


Madonna, que fez uma aparição inesperada, pediu que “não aceitem esta nova era de tirania em que não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas”. 
“A revolução começa aqui, este é o começo de uma mudança muito necessária”, disse.

Antes de iniciar a marcha, no palco pouco visível para a densa multidão que tomava o National Mall, na capital norte-americana, também falaram outras estrelas, como as atrizes America Ferrera e Ashley Judd, a cantora Alicia Keys e o documentarista Michael Moore. Também discursaram legisladores democratas, como a senadora Kamala Harris da Califórnia, ativistas de direitos civis, dos imigrantes e das mulheres, como a feminista Gloria Steinem e a presidenta de Planned Parenthood, Cecile Richards. A mensagem foi unânime: um pedido de “resistência” e de firmeza na defesa dos valores e direitos como o casamento igualitário ou a melhoria na saúde adquirida nos últimos anos e que agora estão ameaçados na era Trump – assim como os imigrantes, refugiados, muçulmanos e a comunidade afro-americana.


“Não vão nos intimidar e nem nos silenciar”, proclamou a advogada de direitos civis e ativista Zahra Billoo, que falou “como mulher e como muçulmana”. “Nossa América inclui a todos em nossa preciosa diversidade e exige que marchemos para nos proteger, este é o momento de arregaçar as mangas, ter coragem e estar preparado para trabalhar”, pediu aos manifestantes.
E eles entenderam a mensagem.

Suzanne Matunis tem 83 anos, anda em cadeira de rodas e não participava de uma manifestação desde os protestos contra a Guerra do Vietnã nos anos 70. Este sábado, no entanto, viajou da Pensilvânia até Washington, acompanhada de suas três filhas e duas netas. 
“Não poderia não vir, isso é muito importante”, argumentou. “É importante que as vozes das mulheres sejam ouvidas”.
A mesma preocupação levou Janice Burbery, uma ex-funcionária da ONU aposentada, a tomar um avião de Roma para estar em Washington no sábado, uma cidade que não visitava há décadas. Trump, com sua equipe, especialmente o ultraconservador vice-presidente, Mike Pence, 
“vai impor um fundamentalismo cristão”, disse. “Não podemos aceitar este passo para trás”.

As palavras de ordem gritadas durante a marcha e proclamada tanto pelos organizadores como pelas centenas de milhares de participantes mostravam o vasto leque de preocupações que gerou nessa grande metade do país que não votou em Trump – Hillary Clinton recebeu três milhões de votos populares a mais que seu adversário – a vitória do republicano. Assim que ele assumiu a presidência, assinou uma ordem executiva para reverter a reforma da saúde de seu antecessor, o democrata Barack Obama.

Erin McEntee, uma jovem de Rhode Island, agitava um cartaz com uma mensagem simples: “A ACA (a Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, como é chamado o programa de saúde de Obama) salvou minha vida”. “Tenho uma doença mental crônica e agora posso perder meus remédios, meu médico e até meu trabalho”, dizia preocupada. Um pouco mais adiante, Ximena Minuche, de origem equatoriana, exigia respeito aos imigrantes em situação irregular, como ela mesmo foi até recentemente, e como continuam mais de 11 milhões de pessoas que Trump ameaçou deportar.


A Marcha das Mulheres, que começou como uma iniciativa privada de uma mulher que, chocada com a vitória de Trump, perguntou no Facebook a várias de suas amigas se elas se animavam a ir a Washington no dia seguinte à posse, acabou se tornando um fenômeno nacional e até mesmo internacional apoiado por estrelas como Cher, Lena Dunham, Katy Perry e Robert DeNiro. Clinton, embora não tenha participado da organização, deu seu apoio pelas redes sociais.

Fonte:ElPaís

domingo, 22 de janeiro de 2017

IVETH MAFUNDZA E BANDA 7 MARIAS: MÚSICA PELO FEMINISMO EM MOÇAMBIQUE

Por: Luciara Ribeiro 

Não é de hoje que ouvimos falar em feminismo e luta pelos direitos das mulheres em nossa sociedade. Diariamente, mulheres em diversas regiões do mundo lutam por igualdade de gênero, pelos direitos de ir e vir, de serem proprietárias dos seus corpos e das decisões sobre eles, por divisões justas de trabalho, de tarefas domésticas, de espaços de atuação, de remuneração etc.
Ser feminista é a maneira encontrada por muitas mulheres para expressarem a união dessas lutas, da criação de espaços de compartilhamento de pensamentos, de afirmação e encorajamento. Assumir-se feminista é unir vida e luta, é saber buscar meios de resistência contra a violência machista do dia a dia.
Um exemplo inspirador destes conceitos é o da cantora moçambicana Iveth Mafundza, que por meio da voz e de suas colegas integrantes da Banda 7 Empoderadas unem música e feminismo em um mesmo espaço. Iveth, como costumeiramente é chamada, nasceu na cidade de Maputo, capital de Moçambique e deu os primeiros passos na música cantando na escola. Durante a adolescência foi integrante dos grupos Beat Crew e Famale Mcs, e a partir de 2005 seguiu carreira solo. Contudo, foi em 2010, com o lançamento do álbum O Convite, que sua voz ganhou as rádios e os ouvidos moçambicanos. Tradicionalmente um espaço tomado pela representação masculina, o rap foi intencionalmente escolhido por Mafundza como campo de desenvolvimento.
Apesar da sólida carreira na indústria fonográfica, Iveth não se limita apenas à sua carreira musical, além de rapper, é jurista, ativista social, feminista, escritora, poetisa e docente na Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Maputo. Como se pode perceber Iveth desempenha diversas funções, porém com um propósito comum: a luta pelos direitos da mulher dentro da sociedade moçambicana. É o caso, por exemplo, das músicas Rosa Ana Paulina e Capulana hip hop, que por meio da crítica social contida nas letras une o aprendizado universitário, o trabalho de jurista e o ativismo político e feminista para criar composições engajadas que refletem sobre os direitos das mulheres.
Capulana Hip Hop, além de ser o nome de uma de suas canções, é também um de seus shows que ressalta o uso das capulanas pelas mulheres moçambicanas. Capulana é um tipo de tecido muito comercializado em Moçambique e que apresenta diversos modelos de estampas, cores e usos. Atualmente, podem ser consideradas um elemento presente no cotidiano da maioria das mulheres moçambicanas, sendo utilizadas na confecção de vestimentas, na acomodação de crianças junto ao corpo, na proteção durante trabalhos domésticos, entre outros usos. A capulana é utilizada por muitos grupos feministas como um elemento de afirmação da luta, força e beleza da mulher moçambicana. O uso da capulana está presente desde as zonas rurais às zonas urbanas, dificilmente encontra-se com uma mulher em moçambique que não tenha um par de capulanas consigo.
 Apesar da sólida carreira na indústria fonográfica, Iveth não se limita apenas à sua carreira musical, além de rapper, é jurista, ativista social, feminista, escritora, poetisa e professora. (Foto: Reprodução)
Mencionada no início da reportagem, a Banda 7 Marias e outros nomes da cena musical moçambicana se inspiram e seguem pelo mesmo caminho traçado por Iveth. A Banda das 7 Marias é formada pela saxofonista Atija Monteiro, a baixista Maria Alice Inguane, a guitarrista Crizalda Xerinda, a pianista Raquel Albino Machachula, a baterista Matilde Vanessa e as violinistas Joyce Karmen e Júlia Alayde Mário, que foram convidadas a participar de um dos shows da turnê Capulana Hip Hop, de Iveth Mafundza.
As sete são estudantes da graduação em Música da Universidade Eduardo Mondlane e lá formaram o grupo por incentivo de um professor do curso e ao longo dos ensaios, a banda percebeu que essa era mais do que uma atuação profissional, mas, sobretudo, uma ação política na busca do espaço da mulher dentro do cenário musical moçambicano e ao incentivo do empoderamento feminino na sociedade.
O grupo traz como referência musical cantoras moçambicanas como Mingas (Elisa Domingas Jamisse) e Yolanda Kakana (Yolanda Chicane), duas vozes femininas de destaque na música em Moçambique e referência na luta pela participação feminina no cenário musical do país. Além de fazerem releituras de conhecidas cancões moçambicanas cantadas por homens e transpô-las para as vozes femininas da banda, como o caso de Ava Sati Va Lomu, de Fany Mfumo. Iveth Mafundza e a Banda 7 Marias caminham em busca de uma sociedade em que tenham mais vozes femininas sendo ouvidas e que todas as mulheres moçambicanas sejam escutadas em todos os campos de atuação, principalmente nos setores políticos.
Fonte: CEERT

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Parlamentar Moçambicana Considera Positiva Cooperação

Luanda - A nova fase da cooperação parlamentar entre Angola e Moçambique poderá ajudar solucionar problemas que as mulheres e crianças moçambicanas enfrentam, disse em Luanda, a 1ª vogal do Gabinete de mulheres parlamentares daquele país, Valéria Mitelela.


Em declarações à Angop,
agência de notícias, a chefe da delegação do grupo de mulheres parlamentares da Assembleia de Moçambique considerou “positiva” a visita realizada por cinco dias, em Angola, com objetivo de garantir reforço da cooperação existente entre os dois parlamentos.
De acordo com a deputada, esta troca de experiências “boa foi proveitosa” e concluiu que os dois parlamentos tem muitos pontos em comum.

 “acredito que esta nova fase de uma cooperação mais contínua, vai ajudar a dar soluções a alguns problemas das mulheres e crianças moçambicanas”.

A delegação foi recebida, em Luanda, pelo presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, além de se ter encontrado com o grupo de mulheres parlamentares angolanas e com a Associação Angolana de Mulheres de Carreira Jurídica. Para Valéria Mitela, esses laços deverão ser estreitados nas áreas que dizem respeito a legislação sobre a mulher e criança.

No quadro do reforço da cooperação bilateral neste domínio, o líder do Parlamento Angolano visitou, recentemente, a República de Moçambique, a convite da sua homóloga Verónica Nataniel Macamo, tendo sido recebido, na ocasião, pelo Chefe de Estado moçambicano, Filipe Jacinto Nyusi.
Angola e Moçambique partilham laços fraternos e de cooperação bilateral e no quadro das organizações regionais a que pertencem designadamente a CPLP,  PALOP e a SADC.

Fonte e foto : ANGOP


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Mulheres Negras Cientistas que Possibilitaram à Nasa Colocar um Homem no Espaço

Um dos grandes feitos da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) foi fazer com que um norte-americano fosse ao espaço e orbitasse ao redor da Terra em 1962. John Glenn ficou famoso pelo feito, mas os cérebros por trás da operação eram os de três mulheres negras que superaram preconceitos de gênero e raça e fizeram história na ciência. Sabia?

O trio fazia parte de uma equipe apelidada de "computadores humanos", que calculava manualmente equações necessárias para que as viagens espaciais acontecessem.

Katherine Johnson


É a única das três que ainda está viva, com 98 anos. Vaughan morreu em 2008, e Jackson em 2005.
Nascida em 1918, em West Virginia, era possível prever um futuro brilhante para Johnson desde sua infância. Isso porque ela se formou na escola com apenas 14 anos. Sim, cedo mesmo.
Aos 18 anos ela conquistou seu diploma em matemática e francês na universidade de West Virginia State. "Eu tenho prazer em aprender, fico perto de pessoas que possam me ensinar sempre", afirmou em um vídeo divulgado pela Nasa.
Em 1953, ela começou a trabalhar na Naca (Comitê Nacional para Aconselhamento sobre Aeronáutica), a agência antecessora da Nasa. Apesar do grande racismo da época, a agência dava oportunidades a mulheres negras - com salários menores dos de mulheres brancas ou homens. 
Eu conto tudo. Meus passos na rua, os degraus da igreja, o número de pratos que lavo...qualquer coisa que pode ser contada, eu conto." Katherine Johnson
Os EUA viviam um período de grande segregação racial, que só acabou oficialmente em 1964, com a lei dos Direitos Civis. Um pouco antes disso, em 1961, o então vice-presidente Lyndon B. Johnson criou projetos com a Nasa para diminuir a segregação e atrair funcionários afro-americanos para o programa espacial.
Seu trabalho de maior prestígio foi calcular a missão que fez o astronauta John Glenn orbitar a Terra. Inclusive, Glenn se recusou a viajar antes de que Johnson checasse os números do trajeto, que tinham sido alinhados por computadores. 
"Chame a garota, verifique os números. Se ela disser que eles estão bons, eu estou pronto para ir", disse Glenn, antes de embarcar. As contas duraram três dias, de acordo com o diretor do filme, Ted Melfi.
O brilhantismo de Johnson também foi importante para calcular a trajetória do voo do Apolo 11, foguete que levou homens à Lua pela primeira vez em 1969.
Em 2015, Johnson recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos, das mãos do presidente Barack Obama. 

Dorothy Vaughn


Vaughan foi uma matemática respeitada e a primeira gerente norte-americana da Nasa.

Nascida em 1910, no Missouri, ela se formou em matemática aos 19 anos na Universidade de Wilberforce. Como Johnson, foi professora antes de entrar para Naca, em 1943.
Segundo a Nasa, a talentosa matemática deixou as escolas durante a Segunda Guerra Mundial para entrar nos laboratórios. 
Ao ser contratada, Vaughan fazia parte de um grupo que contava apenas com mulheres negras que trabalhavam como computadores humanos. Isso porque a agência ainda tinha normas que separavam os funcionários negros e brancos, os banheiros e refeitórios eram diferenciados, por exemplos. 
Vaughn permaneceu na agência após a guerra e foi nomeada como gerente de 1949 a 1958. Com a chegada de computadores eletrônicos, a cientista entendeu que as mulheres que trabalhavam como "computadores humanos" podiam ser demitidas. Assim, ela aprendeu programação e ensinou as colegas para terem opções de emprego.

Mary Jackson


Mary Jackson cresceu na Virgínia e como suas colegas tinha as mais altas notas de sua escola. Ela complementou sua educação ao se formar no Hampton Institute em matemática e física. Após a graduação, ela deu aulas em Maryland antes de entrar para Naca, onde trabalhou por 34 anos.

A matemática iniciou sua carreira no setor segregado da Naca em 1951, com Dorothy Vaughan. Depois de dois anos na área de computação, ela recebeu uma oferta para trabalhar com túnel de vento supersônico, onde ela conseguiu experiência prática na realização de experimentos na instalação e integrou um treinamento que a promovia de matemática para engenheira.
Os estagiários precisavam fazer um curso de pós-graduação em matemática e física administrados pela Universidade da Virgínia. Como as aulas eram segregadas, Mary precisou pedir permissão especial para acompanhar as aulas e se juntar aos seus colegas brancos. Ela não só conseguiu, como completou o curso, ganhou uma promoção e em 1958 se tornou a primeira engenheira negra da Nasa.

A Primeira Astronauta Negra na ISS"Jeanette Epps"

Engenheira será primeira pessoa negra na Estação Espacial Internacional

Astronauta Jeanette Epps será a primeira pessoa negra a participar de uma missão na Estação Espacial Internacional (ISS), informou a Nasa.

Jeanette Epps, física de 46 anos, trabalhou para a CIA e chegará à ISS em 2018 como engenheira de voo, junto com seu compatriota Andrew Feustel, um astronauta veterano, para uma missão de 6 meses em órbita.

A NASA já enviou 14 astronautas negros para o espaço ao longo das décadas, mas nunca nenhum ficou a bordo da ISS como um membro da tripulação. 
Jeanette será a primeira negra e a 13ª mulher a chamar a ISS de casa,  desde que a estação espacial foi fundada em 1998.

A Nasa já teve cinco mulheres e um homem negro como astronautas, e todos participaram em missões de naves espaciais, Jeanette Epps será a primeira na ISS.

Os seis membros da tripulação da ISS realizam missões em órbita de seis meses.

Jeanette Epps,46 anos, é formada em física, doutora em engenharia aeroespacial pela Universidade de Maryland. 
A astronauta já trabalhou também para a CIA durante 7 anos, aprendeu russo para trabalhar com seus colegas da agência espacial da Rússia que integram a tripulação da ISS.

(Com Agência AFP)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Grupos Religiosos Dificultam Planejamento Familiar.

225 milhões de latino-americanas e caribenhas em idade reprodutiva não fazem uso de métodos contraceptivos 

A influência de grupos religiosos e conservadores no desenho e execução das políticas públicas de planejamento familiar prejudicam o acesso das mulheres aos métodos contraceptivos no Brasil. Esta é a conclusão de uma pesquisa realizada em cinco países da América Latina.

O estudo feito pela Federação Internacional de Planejamento Familiar/Região do Hemisfério Ocidental (IPPF/RHO) ouviu 100 especialistas no México, Colômbia, Argentina, Chile e Brasil. O resultado mostra que as brasileiras são as que menos têm acesso às informações sobre métodos contraceptivos. A razão para o mau posicionamento é o conservadorismo associado à religião.

De acordo com a pesquisa, o Brasil possui uma das legislações “mais avançadas” do continente no que se refere ao planejamento familiar e ainda conta com um sistema de saúde que distribui gratuitamente métodos contraceptivos. Mas não há um acompanhamento para descobrir quais melhor se adaptam à vida dessas mulheres.

O acesso às informações e aos métodos contraceptivos permite às brasileiras decidirem sobre a maternidade, se querem ou não ter filhos e em qual momento desejam ser mães, explicou a socióloga Jacqueline Pitanguy, da ONG Cepia, parceira da pesquisa.
“Além de essas políticas reduzirem o índice de gravidez na adolescência e os abortos clandestinos, as mulheres que conseguem planejar a gravidez têm condições de desempenhar um papel mais ativo na sociedade e dar aos seus filhos melhores condições de vida”.

O Brasil também recebeu baixa avaliação no quesito educação sexual nas escolas, pois o tema não é obrigatório nas salas de aula do país. Além disso, as campanhas de saúde sobre sexualidade focam apenas na prevenção de HIV/Aids e no uso de preservativos.
Também foi registrado no estudo que, ao contrário de México e Chile, por aqui não há programas específicos para a atenção de grupos e mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Por fim, a influência religiosa e cultural de profissionais de saúde limita o uso de protocolos e a participação desses profissionais em treinamentos sobre o tema.

Embora a América Latina e o Caribe tenha registrado o maior crescimento mundial em relação à participação das mulheres no mercado de trabalho, de 40% para 54,3%, o aumento do uso de anticoncepcionais foi consideravelmente pequeno, de 66,7% para 67%. Ou seja, 225 milhões de latino-americanas e caribenhas em idade reprodutiva não fazem uso de métodos contraceptivos.

Fonte:marieclare

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

PEC garante presença feminina em listas de indicados para tribunais

Se a PEC for aprovada, poderá  estabelecer a exigência da participação de diversidade de gêneros na composição das listas sêxtuplas e tríplices formadas para indicação de membros do Ministério Público e da advocacia para compor os Tribunais Regionais Federais, os Tribunais dos Estados, e do Distrito Federal e Territórios. Objetivo da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 43/2016, foi apresentada  pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), e mais 07 senadoras : - Ana Amélia, Fátima Bezerra, Gleice Hoffmann, Lídice da Mata, Regina de Souza, Simone Tabet e Ângela Portela. 
Pela Constituição, só podem compor a lista sêxtupla indicada pelo Ministério Público para os tribunais procuradores com mais de 10 anos de carreira. O mesmo critério vale para a lista sêxtupla de advogados, que ainda devem possuir reputação ilibada e notório saber jurídico. Posteriormente o tribunal forma uma lista tríplice e a envia ao Poder Executivo, que por fim escolhe o nomeado.
A PEC estabelece uma cota mínima de um terço para cada um dos gêneros tanto nas listas sêxtuplas, quanto nas posteriores listas tríplices. Vanessa Grazziotin sublinha que o objetivo é aumentar a presença de mulheres nos TRFs e nos tribunais estaduais.
"Garantimos assim que pelo menos duas das vagas de cada lista sêxtupla sejam preenchidas por mulheres. E o mesmo valerá nas listas tríplices de cada Tribunal, assegurando ao menos uma mulher podendo ser indicada pelo Poder Executivo na vaga que estiver aberta", afirmou.
O texto tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), onde ainda aguarda a indicação de relator.
Fonte: Senado 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mulheres perdem mais com a reforma da Previdência

Trabalhadoras terão idade de ingresso equiparada à dos homens, aos 65 anos

As mulheres poderão ser as grandes prejudicadas pela reforma da Previdência. De acordo com as propostas apresentadas pelo Governo Federal em dezembro, a idade mínima para a mulher ter direito a dar entrada em sua aposentadoria será equiparada à dos homens: 65 anos. 
Já os valores de pensões por morte, grande parte destinados a viúvas e a filhas de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) falecidos, sofrerão grande redução, com possibilidade de algumas pensionistas receberem benefícios abaixo do salário mínimo.
Com a uniformidade das regras para homens e mulheres na Previdência Social, a maior prejudicada, segundo os especialistas, é a mulher. Igualar a idade mínima no contexto atual no Brasil significaria um retrocesso nos direitos das mulheres.

“Hoje, se trata de maneira diferente casos diferenciados. Essas distinções não devem ser tratadas com igualdade, pois você gera ainda mais injustiça e aumenta o ‘gap’ de gênero”, afirma a socióloga e cientista política do Ibmec-RJ, Angela Fatorelli.
Apesar das mudanças que ocorreram nos últimos anos, inclusive o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, a professora do Ibmec-RJ Angela Fatorelli,  lembra que não se pode negar que a mulher continua trabalhando mesmo após se aposentar. “A diferença de idade seria uma compensação da jornada dupla e do cuidado com a família, que não se encerra com a aposentadoria.”
E, por mais que a última reforma da Previdência seja antiga e considerada “ultrapassada” (e uma reforma seja necessária para dar sustentabilidade ao sistema), a jornada dupla das mulheres brasileiras continua bem atual.
“Hoje, as mulheres podem se aposentar cinco anos mais cedo do que os homens, tanto no regime por idade, quanto no regime por tempo de contribuição. Na reforma apresentada pela equipe do presidente, quanto mulheres devem se aposentar aos 65 anos, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos”, explica o advogado previdenciário Celso Joaquim Jorgetti.
Com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 287), a PEC da Previdência, que já tramita no Congresso, as mulheres perderão o benefício atual de redução de cinco anos para dar entrada na aposentadoria por idade, além da redução de cinco anos que possuem na concessão da aposentadoria por tempo de contribuição. 
Isso porque, nos dias de hoje, as mulheres podem requisitar aposentadoria ao comprovarem 30 anos de contribuição, enquanto os homens precisam comprovar 35 anos de contribuição ao INSS.“Sem dúvida, todos os brasileiros serão prejudicados caso as propostas apresentadas sejam aprovadas, mas as mulheres sofrerão as maiores perdas”, afirma Celso Joaquim.
 O tratamento atual dado às mulheres em questões de concessão de benefício previdenciário são fruto da Constituição Federal e de justiça social. 
Tais  medidas , que tramitem uma visão de igualdade, na verdade é um grande  retrocesso de direitos conquistados pelas mulheres.
“A questão de tratar de forma diferente as mulheres ocorre em função do princípio da igualdade/isonomia, tratando igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, nas medidas de suas diferenças. Esperamos que o Congresso vete tais modificações, pois só assim estará garantindo a mulher seus direitos fundamentais relacionados à Previdência”, observa.
O especialista ressalta que a única benesse prevista para as mulheres na reforma está relacionada à regra de transição, onde mulheres com 45 anos ou mais deverão cumprir pedágio de 50% para se aposentar. Para os homens a regra de transição será com 50 anos ou mais.
O professor e autor de obras de Direito Previdenciário Marco Aurélio Serau Junior acredita que a equiparação da idade é uma grande injustiça e está inadequada ao cenário social brasileiro. 
“Vale ressaltar que a equiparação de idade de 65 anos é válida para as trabalhadoras rurais também. E foge totalmente do nosso contexto social, em que as mulheres, além de todas as dificuldades que enfrentam no mercado de trabalho, com salários com valores mais baixos e cargos de menor expressão que os homens, ainda são as responsáveis, na maioria das vezes, pelos afazeres domésticos, criação de crianças e cuidados de idosos. Nesse sentido, a proposta de reforma previdenciária é totalmente inadequada à realidade social brasileira”, argumenta.

Alteração no cálculo
Além de modificar a idade mínima para a aposentadoria e definir o novo tempo de contribuição, a reforma da Previdência também irá alterar a forma de cálculo do valor da aposentadoria.
Celso Jorgetti destaca que, com a reforma, o valor da aposentadoria passará a ser calculado por uma nova fórmula. O benefício vai corresponder a 51% da média dos salários de contribuição, acrescido de um ponto percentual para cada ano que o trabalhador contribuiu. Dessa forma o trabalhador com 25 anos de contribuição e 65 de idade vai se aposentar com renda igual a 76% do seu salário de contribuição. 
“E isso afeta diretamente as mulheres, que no atual sistema precisam atingir 85 pontos (soma da idade e tempo de contribuição) para receber aposentadoria integral”, afirma Jorgetti.

Pesquisa 
De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira, divulgada no início de dezembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres trabalham cerca de cinco horas a mais que eles por semana.
E o pior: ganham cerca de 30% menos que os homens, uma vez que elas trabalham cerca de seis horas a menos por semana que os homens em sua ocupação remunerada.
Por outro lado, como dedicam duas vezes mais tempo que os homens para as atividades domésticas, o total de horas trabalhadas pelas mulheres é de, em média, 55,1 horas por semana, contra 50,1 horas deles.
Ainda segundo a pesquisa, na última década, os homens permaneceram com uma jornada de apenas 10 horas semanais com os afazeres domésticos — o que prova que aqui pouca coisa progrediu e, apesar dos avanços das mulheres no mundo corporativo nos últimos anos, ainda sobra para elas o cuidado da casa e dos filhos.
Fontes A Tribuna / EXAME.com
Foto:Exame