segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Por que o ativismo das mulheres negras incomoda tanto?

Seja no mercado de trabalho ou cultura, a luta da mulher negra para conquistar espaço e ser respeitada é ainda mais difícil que a da mulher branca


A publicitária e ex-modelo Luana Genot há tempos assumiu o desafio de levar ao mundo empresarial a luta contra o privilégio da cor da pele. Cansada de sofrer com o racismo e machismo, ela fundou o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), e literalmente tem batido na porta das empresas para mudar esta realidade. "Perguntei para um menino negro de seis anos o que ele queria ser quando crescer, e ouvi que ele seria segurança, pois esta é uma profissão de preto. Não podemos permitir que as crianças se apropriem desse discurso, por isso precisamos de exemplos", afirma Luana, que participou do Seminário Brasileiras - como elas estão mudando o rumo do país, realizado no dia 2 de dezembro, em São Paulo, pelo EL PAÍS e a Agência Locomotiva.

Maria Rita Casagrande, fundadora do Blogueiras Negras e sócia da Infopreta, também conhece na pele o sofrimento que o estereótipo em relação a mulher negra pode causar. Formada em análise de sistemas, por muitos anos Maria Rita trabalhou como atendente de telemarketing por não encontrar outro emprego. Da necessidade de compartilhar suas experiências, nasceu o Blogueiras Negras, um espaço que une mulheres que escrevem, falam e produzem conhecimento a partir de suas vivências e experiências como mulheres negras. Empreender com o Infopreta foi outra oportunidade que encontrou para fazer o que deseja e não o que outros desejam para ela. “É comum nos oferecerem visibilidade, mas nós queremos oportunidades, emprego, apoio”, afirma.

O avanço do ativismo online de mulheres negras se tornou um importante canal para vencer as barreiras criadas pelo racismo. “A internet é o espaço que as mulheres negras encontraram para existir, já que a mídia hegemônica nos ignora”, explica Djamila Ribeiro, secretária-adjunta de direitos humanos da prefeitura de São Paulo. Segundo ela, os brasileiros ainda veem o racismo como algo da esfera privada, por exemplo, quando a atriz Taís Araújo é atacada na internet. E não como um sistema de opressão, que impede o acesso a determinadas esferas.

Trazer este tema à tona, e propor reflexões sobre o papel da sociedade na manutenção das estruturas de racismo não é fácil. “Há um incômodo das pessoas com o tema, mas isso é importante, ou todos vão achar que está tudo bem”, explica Djamila.

 Representação na cultura

A cineasta Tata Amaral conheceu este incômodo pelos olhos de sua filha. Nos anos 80, as duas costumavam ir ao cinema ver principalmente blockbusters americanos. A menina nem sabia ler, mas percebia que os personagens negros morriam sistematicamente nos filmes. A criança notou também que os bandidos eram sempre os latinos, negros e árabes. Tata lamenta que a representação que orientavam o cinema na época pouco mudaram. “Fiz um documentário sobre hip hop e percebi que o jovem se identificava como PPP – preto, pobre da periferia, o que na sociedade tem uma carga ruim, representando o traficante, o bandido.”

Fonte e texto:El País

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