segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Pesquisa mostra que mulheres são sub-representadas e estigmatizadas no cinema

Por Helena Martins 

Mulheres em postos de comando, ocupando cargos como a Presidência da República ou ganhando prêmios pelo desempenho acadêmico podem até ser mais comuns nos dias atuais. No entanto, ainda não é essa a representação feita sobre as mulheres no cinema, segundo a publicação Preconceito de Gênero sem Fronteiras: Uma Pesquisa sobre Personagens Femininos em Filmes Populares em 11 Países, feita pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, a Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres e a Fundação Rockefeller.
A pesquisa destaca que, embora as mulheres sejam metade da população do mundo, dos 5.799 personagens falantes ou nomeados na tela, 30,9% são do sexo feminino. No caso dos filmes de ação ou aventura, essa participação é ainda menor: elas são 23% dos personagens com falas. Já em relação aos protagonistas, apenas 23,3% das tramas tinham uma menina ou uma mulher no papel principal.
O estudo, que analisou produções exibidas entre janeiro de 2010 e maio de 2013 na Austrália, China, França, Alemanha, Índia, Rússia, Coreia do Sul, no Reino Unido, Japão e Brasil – considerados os territórios mais rentáveis para a indústria cinematográfica – constatou ainda que a sexualização “é o padrão para personagens femininos em todo o mundo”. O estudo mostra que a chance de uma pessoa do sexo feminino aparecer com roupas sensuais ou nua é duas vezes maior que a do sexo masculino.
Além disso, adolescentes estão propensas a serem apresentadas como jovens adultas e é comum que as mulheres sejam representadas como magras e atraentes. Enquanto os homens magros são 15,7% do total analisado, a participação de mulheres magras chega a 38,5%.
No caso do Brasil, a pesquisa destaca que a participação das mulheres nos filmes fica em 37,1% – percentual maior que a média mundial. No entanto, o país ganha quando o assunto é a sexualização das mulheres e também na caracterização delas como magras.
Professora da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e integrante da Rede Mulher e Mídia Ana Veloso considera importante a divulgação do estudo para mostra  que a sociedade está diante de “uma situação muito grave, que revela que o preconceito e a discriminação contra as mulheres são presentes no mundo todo”. Embora aponte avanços em relação a essa representação nos últimos 20 anos, ela destaca que os dados preocupam por constatarem a invisibilidade, a sub-representação feminina nos campos de produção de conhecimento e de produção de sentidos.
“Quando são sub-representadas, por exemplo, no cinema, como protagonistas, a gente tem uma falsa propagação de que as mulheres não podem exercer determinadas funções. É como se um caso particular se transformasse em universal. Isso compromete a própria formação das identidades, uma vez que a sociedade se referencia muito no que é exibido, no que é projetado, nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação e os meios de produção simbólica também ajudam a construir uma realidade social. E é preciso que isso demonstre a real situação das mulheres na sociedade”, explica.
Essa representação, segundo a pesquisadora, ainda está longe de ocorrer, inclusive no Brasil. Ela destaca que faltam representações de mulheres “reais”, que cuidam da casa e dos filhos, mas também trabalham, estudam e inclusive se relacionam sexual e afetivamente com outras mulheres. “Quando esses modelos são reproduzidos, a gente acaba por ter uma sociedade que não conhece o que é ser mulher dentro do seu próprio país. Ou seja, você sabe e vivencia uma realidade que não é espelhada pelos meios de comunicação”, acrescenta Ana Veloso.
Além da representação, a pesquisa mostra que a desigualdade de gênero também é vivenciada por trás das telas. Para cada mulher cineasta, há 3,9 homens, segundo o estudo. Dos que trabalham com ficção, menos de um quarto é mulher. O resultado disso se vê na produção, pois, no caso de filmes feitos por diretoras, há uma maior presença feminina.

Fonte: EBC / Imagem revistalampião

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