quinta-feira, 22 de maio de 2014

Jovens de Santos criam app para combater assédio virtual

      Uma pesquisa com 100 alunos de uma escola de ensino médio revelou um cenário alarmante: todos os alunos conheciam alguma menina que havia sido vítima de revenge porn (ou pornografia de vingança, nome que se dá ao vazamento da fotos e vídeos íntimos de uma pessoa na internet, sem o consentimento dela). Pior: dos 100 alunos entrevistados, apenas quatro não achavam que as pessoas que foram vítimas desses casos  eram culpadas pelo que aconteceu e mereciam a vergonha de ter tido imagens íntimas expostas na rede. 
Da esq. para dir.: Estella Machado, Letícia Santos, Juliana Monteiro, Hadassa Mussi;
 no alto, da esq. para dir.: Camila Ziron e Larissa Rodrigues. FOTO: Divulgação
 Foi diante desses dados que um grupo de seis adolescentes de Santos, todas com 16 anos de idade, validou sua idéia e começou a desenvolver um aplicativo para ajudar mulheres que foram vítimas desse tipo de problema e combater o slut shaming, termo usado para definir o ato de intimidar ou culpar um mulher porque seu comportamentos sexual se desvia das expectativas sociais para seu gênero. O aplicativo For You quer ajudar mulheres a lidar com fato, conversar entre si, contar suas histórias e conhecer a legislação para saber o que fazer diante desse tipo de situação.  ”Nós queremos dar apoio para as meninas  e mostrar que se algo aconteceu, a culpa não foi delas. Elas são vítimas e queremos mostrar o que elas podem fazer sobre isso”, diz Estela Machado, uma das desenvolvedoras do aplicativo.
O grupo começou a desenvolver a plataforma para participar da etapa nacional do concursoTechnovation Challenge, um programa global de incentivo ao empreendedorismo feminino voltado para jovens de 10 a 23 anos e que tem apoio do MIT Media Lab, Google, Twitter, Dropbox e do investidor Andreessen Horowitz.
O desafio quer incentivar mulheres a se interessarem desde cedo pelo mercado de tecnologia e coloca para elas um desafio: criar um aplicativo que resolva um problema da comunidade do local onde vivem.  Jovens de todo o mundo formam grupos e passam 12 semanas desenvolvendo soluções com apoio de mentores do programa. As vencedoras da etapa mundial ganham US$ 10 mil para financiar o seu aplicativo e uma viagem para São Francisco, na Califórnia.
Ao se reunirem para escolher um tema para o seu aplicativo, o grupo de seis estudantes de Santos percebeu que o assédio sexual era uma preocupação comum. Ao se aprofundarem no tema, concluíram que o foco na violência seria o melhor recorte para o aplicativo, já que o grupo conhecia ao menos duas vítimas do compartilhamento de fotos na internet sem autorização. Adolescentes são hoje as principais vítimas de slut shaming.
“É um problema muito comum mesmo na nossa cidade. Conhecemos o caso de uma menina que terminou com o namorado e, logo depois, ele saiu espalhando fotos dela nua em vários grupos do WhatsApp”, conta Estela. “Nós conversamos com outra que passou por problema parecido e ela disse que só o fato de a gente ter conversado com ela ajudou, porque ela se sentiu bem e percebeu que a culpa não era dela”, afirma.
O aplicativo criado pelo grupo tem o lema “Se eles usam apps para nos humilhar, nós revidamos usando apps para nos empoderar e organizar!” Um vídeo mostra como funciona o aplicativo, ainda em fase de protótipo. A ideia é que as usuárias preencham um cadastro e possam publicar no aplicativo sua história. Elas também podem ler os relatos de outras usuários e conferir diariamente as atualizações sobre como se proteger legalmente desse tipo de abusos. Elas ainda querem criar um grupo de embaixadoras para interagir com as usuários e eventualmente criar eventos e ações para ajudá-las.
“Nós queremos ganhar a competição, mas se por acaso isso não acontecer queremos buscar patrocinadores para o aplicativo, algumas pessoas nos falaram para colocar a ideia no Catarse (site de financiamento colaborativo)… estamos pensando no que fazer. Por enquanto, nosso foco é na competição”, diz Estela.
Há vários outros projetos interessantes competindo na etapa nacional do Technovation Challenge. Um outro grupo de Santos desenvolveu um aplicativo para adoção de cães abandonados; outro, de Curitiba, criou um aplicativo para ajudar a resgatar crianças de rua. No Pará, estudantes criaram uma plataforma para ajudar no reflorestamento da Amazônia.
Fonte: Estadão


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